Dom de Iludir, disponível na Netflix, sabe que exagero não é defeito automático. Às vezes, é linguagem. Marieta Severo, Alice Wegmann e Nanda Costa entram num melodrama de famílias ricas, golpistas, obras de arte, doenças misteriosas e paixões perigosas sem pedir desculpas por cada curva impossível. O resultado funciona justamente quando abraça a alma de novelão.
O problema aparece quando a necessidade de entregar uma nova revelação a cada episódio passa a ocupar o espaço que poderia aprofundar ainda mais as três mulheres centrais. Mesmo assim, o trio segura a série com uma força que transforma relações tóxicas, desejo de autonomia e manipulação em algo mais interessante do que o golpe em si.
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Crítica de Dom de Iludir: o golpe é só a superfície

Seria fácil vender a série como suspense sobre uma curandeira que engana uma milionária. A própria história abandona essa simplicidade muito cedo.
O verdadeiro conflito está nas duas famílias. Lúcia e Bóris se parecem mais do que gostariam de admitir: ambos usam a palavra “família” como justificativa para decidir a vida dos outros.
Maíra e Irina se aproximam justamente porque reconhecem essa prisão uma na outra. O romance não nasce apenas de atração. Nasce de uma ferida compartilhada.
Marieta Severo transforma cuidado em ameaça

Marieta Severo faz Lúcia funcionar porque nunca permite que a personagem seja apenas a “mãe tóxica”.
Existe amor real ali. Há medo. Existe culpa. E existe uma convicção perigosa de que amar alguém dá direito de escolher por essa pessoa.
Lúcia interfere no dinheiro, na alimentação, nos relacionamentos e na autonomia da filha acreditando sinceramente que está protegendo Maíra. É isso que torna o controle tão convincente — e tão sufocante.
Alice Wegmann tem o papel mais difícil

Alice Wegmann precisa construir uma personagem que muda de significado conforme o espectador recebe novas informações.
Maíra começa parecendo vítima. Depois revela cálculo. Em seguida volta a demonstrar vulnerabilidade. A interpretação precisa garantir que nenhuma dessas versões apague completamente a outra.
É um equilíbrio delicado porque a série poderia cair facilmente na caricatura da “filha mimada e manipuladora”. Wegmann encontra dor por trás da crueldade e crueldade por trás da fragilidade.
Nanda Costa faz Irina fugir da vilã fácil

Irina entra na casa dos Rossetti sabendo manipular. Ela observa, identifica fraquezas e oferece exatamente o que Lúcia precisa ouvir.
Mas Nanda Costa deixa pequenas rachaduras aparecerem conforme a personagem se envolve com Maíra. O golpe que deveria ser profissional se torna emocional.
A série acerta especialmente ao não transformar o romance entre duas mulheres em “questão social” artificial. O problema de Lúcia não é a filha amar uma mulher. É amar aquela mulher — alguém ligada a um golpe contra a família.
O romance lésbico é tratado como romance, e isso importa

Maíra e Irina se apaixonam, desejam, mentem, se ferem e fazem escolhas ruins. A sexualidade delas não precisa ser explicada para o espectador nem usada como motivo automático de rejeição familiar.
Isso dá à relação uma liberdade rara: podemos discutir ética, dependência, manipulação e paixão sem reduzir tudo à orientação sexual.
Ao mesmo tempo, é importante não romantizar completamente a origem desse vínculo. A relação nasce dentro de um golpe, e confiança nunca consegue existir de maneira simples.
A série tem alma de novela das nove
Mauro Mendonça Filho filma o Rio como cartão-postal e armadilha. Mansões, galerias, restaurantes e paisagens reconhecíveis convivem com esquemas criminosos e violência doméstica.
Há um prazer claro em trabalhar com signos clássicos do melodrama brasileiro: herança, casamento, família poderosa, segredo do passado, chantagem e revelação pública.
A diferença é o ritmo. Em dez episódios, o que uma novela desenvolveria por meses precisa explodir em horas.
E é justamente aí que a série exagera demais
O ritmo acelerado vicia. Também cobra preço.
Algumas consequências emocionais mal têm tempo de respirar antes de outra virada entrar em cena. Personagens tomam decisões cada vez mais extremas porque a trama precisa chegar rapidamente ao próximo gancho.
Quem exige lógica de thriller policial pode se irritar. Quem aceita a gramática do melodrama provavelmente comprará melhor o jogo.
A música de Liniker é mais do que abertura bonita
A regravação de “Dom de Iludir”, de Caetano Veloso, na voz de Liniker funciona como chave temática.
A série inteira gira em torno de versões da verdade. Lúcia acredita que controle é amor. Maíra acredita que enganar pode libertá-la. Irina acredita que sabe separar golpe e sentimento.
Cada uma se ilude com a própria justificativa.
O que nos arrebatou e o que escorregou
| O que nos arrebatou | O que escorregou |
|---|---|
| Marieta Severo transforma controle, amor e culpa em uma mesma personagem. | Algumas reviravoltas chegam tão rápido que perdem impacto emocional. |
| Alice Wegmann sustenta a ambiguidade de Maíra sem entregá-la cedo demais. | O suspense policial nem sempre é tão sólido quanto o melodrama familiar. |
| Nanda Costa dá humanidade a Irina e química ao romance com Maíra. | Alguns personagens de apoio funcionam mais como peças de trama do que como pessoas. |
| O romance entre duas mulheres é naturalizado sem virar “problema” artificial. | Dez episódios tornam certas reconciliações e rupturas apressadas. |
Vale a pena assistir Dom de Iludir?

Sim, principalmente para quem gosta de melodrama brasileiro e sente falta de histórias em que mulheres complicadas podem ser amorosas e cruéis na mesma cena.
Não é um suspense de precisão cirúrgica. É um novelão comprimido, elegante e deliberadamente excessivo.
Veredito do Coração
⭐⭐⭐⭐ 4/5
Dom de Iludir funciona menos pelo mistério de quem está enganando quem e mais pela pergunta incômoda que sobra quando as máscaras caem: quantas formas de controle conseguimos chamar de amor antes de admitir que também estamos aprisionando alguém?
Pacto de Respeito à Arte
Esta crítica contém spoilers moderados sobre o envolvimento de Maíra no golpe e o romance com Irina, mas evita detalhar as revelações dos episódios finais. Para isso, consulte nosso Final Explicado.
Dom de Iludir está disponível legalmente na Netflix.




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