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Dom de Iludir é história real? As semelhanças com o caso Geneviève Boghici

Dom de Iludir é história real? Oficialmente, não. A Netflix apresenta a minissérie como uma obra ficcional original criada por Diane Maia e Mirna Nogueira. Não há declaração pública das criadoras ou da plataforma dizendo que Lúcia Rossetti, Maíra e Irina foram baseadas em pessoas reais específicas.

Mesmo assim, a trama chamou atenção imediatamente por lembrar um caso verdadeiro ocorrido no Rio de Janeiro: o golpe milionário denunciado por Geneviève Boghici, viúva do marchand Jean Boghici. Segundo Ministério Público e Polícia Civil, a própria filha da colecionadora teria participado de um esquema com falsas videntes que envolveu transferências de dinheiro, joias e 16 obras de arte.

As semelhanças são fortes demais para passar despercebidas. Mas sem confirmação oficial de inspiração, o correto é falar em paralelos, não afirmar que a série “conta o caso Boghici”.

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Quem foi Geneviève Boghici?

Geneviève Boghici
Geneviève Boghici e Jean Boghici. Imagem: Marcos Ramos

Geneviève Rose Coll Boghici era viúva de Jean Boghici, marchand e colecionador de arte de origem romena que se tornou um nome importante do mercado brasileiro.

Após a morte do marido, Geneviève permaneceu com um acervo valioso de obras de artistas brasileiros consagrados.

Em 2022, então com 82 anos, ela procurou a polícia e relatou ter sido vítima de um esquema que teria começado dois anos antes.

Como começou o golpe real?

Segundo a denúncia do Ministério Público do Rio de Janeiro, Geneviève foi abordada por uma mulher que se apresentou como vidente e afirmou que a vida de sua filha, Sabine Boghici, corria perigo.

A suposta solução seria realizar trabalhos espirituais. Informações pessoais sobre a família eram usadas para tornar as previsões convincentes.

A investigação concluiu que a própria Sabine teria fornecido dados aos envolvidos para dar credibilidade às abordagens.

A própria filha estava envolvida?

Segundo a denúncia do MPRJ, sim. Sabine foi acusada de ajudar a planejar o esquema contra a mãe ao lado de Rosa Stanesco, conhecida como Mãe Valéria de Oxóssi, e outros integrantes do grupo.

É justamente esse elemento que mais aproxima o caso real de Dom de Iludir: em ambos, a imagem inicial é de uma mãe rica tentando salvar a filha; depois surge a possibilidade de que a filha esteja ligada à armadilha.

Havia uma suposta vidente ou terapeuta espiritual?

Sim. No caso Boghici, falsas videntes teriam convencido Geneviève de que a filha morreria caso não fossem realizados trabalhos espirituais.

Na série, Lúcia procura Irina porque médicos não conseguem resolver a misteriosa condição de Maíra. Irina ocupa justamente o lugar de autoridade espiritual que oferece esperança quando a medicina falha.

A função dramática é extremamente semelhante, mesmo que personagens, relações e acontecimentos sejam ficcionalizados.

Obras de arte também estavam no centro do caso?

Sim. A investigação apontou o desaparecimento de 16 obras de arte do acervo de Geneviève.

Entre elas estavam trabalhos de Tarsila do Amaral, Di Cavalcanti, Cícero Dias, Alberto Guignard, Antônio Dias e outros artistas.

O quadro “Sol Poente”, de Tarsila, ganhou destaque durante a operação policial porque foi recuperado escondido sob uma cama.

Quanto teria sido levado da família Boghici?

O Ministério Público e reportagens da época citaram uma estimativa superior a R$ 725 milhões, somando obras de arte, joias e transferências.

Esse número deve ser lido com cautela. Especialistas em mercado de arte questionaram a avaliação atribuída a algumas peças, que utilizava valores de seguro superiores aos preços prováveis de venda.

Ainda assim, trata-se de um dos casos mais extraordinários envolvendo patrimônio artístico e fraude familiar já investigados no país.

Geneviève sofreu cárcere e ameaças?

Segundo as investigações, a situação ultrapassou fraude financeira. Geneviève relatou ameaças, agressões, restrição de contato com outras pessoas e períodos de cárcere dentro do próprio apartamento.

Ela teria conseguido sair usando uma chave reserva mantida em segredo e, depois de recuperar alguma estabilidade, decidiu denunciar o caso.

O que aconteceu com Sabine Boghici?

Sabine foi presa em 2022 e depois passou a responder ao processo em liberdade provisória.

Em setembro de 2023, ela morreu após cair do prédio onde morava, na Lagoa, Zona Sul do Rio. O processo criminal relacionado ao golpe continuou envolvendo outros acusados.

Quais são as principais semelhanças com Dom de Iludir?

Os paralelos são numerosos:

  • uma mulher rica ligada ao mercado e à coleção de arte;
  • uma relação conflituosa entre mãe e filha;
  • uma suposta ameaça à saúde ou à vida da filha;
  • uma figura espiritual usada para conquistar confiança;
  • a descoberta de que a filha pode estar ligada ao esquema;
  • um patrimônio artístico milionário como alvo;
  • um golpe situado na elite do Rio de Janeiro.

É uma combinação muito específica, razão pela qual a comparação aparece naturalmente quando a série é discutida.

E quais são as diferenças?

Dom de Iludir cria personagens, famílias e conflitos próprios. Irina não deve ser tratada como retrato direto de Rosa Stanesco; Maíra não é Sabine Boghici; Lúcia não é Geneviève.

A série acrescenta romance, uma família inteira de golpistas, segredos antigos dos Rossetti, casamentos, chantagens e uma arquitetura melodramática que não corresponde a uma reconstituição jornalística do processo real.

Também não há anúncio oficial da Netflix dizendo “baseado em fatos reais” ou creditando o caso Boghici como fonte.

Então Dom de Iludir se inspira no caso Boghici?

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Imagem: Netflix

Não podemos afirmar isso como fato.

Há semelhanças impressionantes, mas sem declaração das criadoras ou da Netflix, a relação deve permanecer no campo da comparação.

Esse cuidado é especialmente importante porque o caso real envolve pessoas identificáveis, acusações criminais e processos judiciais. Ficção pode usar elementos que existem no mundo sem necessariamente adaptar uma história específica.

Por que conhecer o caso real muda a experiência da série?

Porque mostra que alguns dos elementos mais exagerados de Dom de Iludir não são tão impossíveis quanto parecem.

Uma família rica, uma falsa autoridade espiritual, uma filha acusada de participar do golpe e obras de arte escondidas ou vendidas parecem ingredientes de novela. No caso Boghici, elementos muito parecidos fizeram parte de uma investigação policial real.

Isso não transforma a série em true crime. Mas ajuda a entender por que seu melodrama pode soar absurdo e familiar ao mesmo tempo.

Dom de Iludir é uma obra de ficção disponível legalmente na Netflix. As informações sobre o caso Boghici se baseiam em registros do Ministério Público e reportagens contemporâneas à investigação.

Magui Schneider
Magui Schneider

Editora-chefe do Minha Série Favorita e psicóloga, com foco em análise de personagens, relações, comportamento e narrativas de séries, filmes e novelas.

Artigos: 433

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