O Projeto Gutenberg está atualmente indisponível para streaming no Brasil, mas continua sendo um daqueles thrillers que ficam muito melhores quando percebemos que o crime mais importante não é a falsificação de dinheiro. É a falsificação da própria identidade.
Felix Chong constrói um filme de 2h10 deliberadamente excessivo: começa como policial técnico, vira ação grandiosa, passa por melodrama romântico e termina como quebra-cabeça sobre um narrador que redesenhou a própria vida. Nem todas essas peças se encaixam com a mesma elegância. Quando encaixam, porém, o efeito é ótimo.
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Crítica de O Projeto Gutenberg: todo mundo quer ser o original

Lee Man é apresentado como artista incapaz de criar algo só seu. Consegue reproduzir estilos com perfeição, mas não encontra uma identidade artística reconhecível.
Essa frustração parece apenas introdução até entendermos que ela define tudo. Lee não quer somente dinheiro. Quer deixar de ser visto como cópia.
O crime oferece uma ironia cruel: ele finalmente encontra prestígio justamente porque sabe copiar melhor do que quase qualquer pessoa.
Aaron Kwok melhora quando percebemos que Lee está atuando
Aaron Kwok passa boa parte do filme curvado pela própria insegurança. Lee parece assustado, passivo e sempre alguns segundos atrás do Pintor.
Depois da grande revelação, essa atuação ganha outra função. Precisamos reconsiderar cada hesitação porque Lee não está apenas lembrando. Está encenando uma versão de si mesmo para a polícia.
Kwok precisa fazer um homem parecer menor do que realmente é sem deixar a performance denunciar cedo demais o truque. É provavelmente o trabalho mais difícil do filme.
Chow Yun-fat é a fantasia que Lee gostaria de ser
Chow Yun-fat ocupa a tela de maneira oposta. Seu Pintor é elegante, confiante, charmoso e capaz de transformar violência em espetáculo.
Felix Chong sabe muito bem o que significa colocar Chow com armas nas mãos. As sequências de ação evocam deliberadamente a imagem construída pelo ator nos grandes policiais de Hong Kong.
Essa escolha fica ainda mais interessante depois do final. O Pintor não é simplesmente um vilão inventado: é a versão idealizada de poder que Lee projeta para fora de si.
A ação é grande porque a mentira também precisa ser

O ataque na Tailândia e os confrontos armados parecem pertencer a um filme mais explosivo do que aquele que começou numa sala de interrogatório.
Essa mudança de tom pode incomodar. O South China Morning Post já apontava, no lançamento, a sensação de duas metades pouco coesas: primeiro um procedimento criminal minucioso, depois um thriller de ação cada vez mais delirante.
Mas existe uma leitura que ajuda a unir os dois lados: estamos assistindo à versão contada por Lee. Quanto mais ele precisa tornar o Pintor extraordinário, mais cinematográfica a memória fica.
O dinheiro falso é a metáfora perfeita
O filme dedica grande atenção visual ao processo de reprodução das notas, mas o interesse real está na pergunta: quando uma cópia é boa o bastante, ainda importa que não seja original?
Lee aplica essa lógica a tudo.
Ele copia arte. Produz dinheiro falso. Usa outra pessoa como substituta de Yuen. E, quando precisa escapar da polícia, fabrica um segundo homem para receber a culpa por sua própria violência.
O thriller inteiro está organizado como uma nota falsa: parece legítimo enquanto ninguém examina os detalhes certos.
Sau-ching é quem paga o preço mais cruel
A personagem de Joyce Feng concentra a parte mais amarga do filme.
Ela sobrevive, recebe outro rosto e passa a ser chamada pelo nome de outra mulher. Lee aceita sua presença enquanto ela consegue representar uma fantasia que ele não pode ter.
Há algo profundamente violento nisso que vai além do crime organizado. Sau-ching é transformada numa falsificação humana.
Seu ato final não é simplesmente vingança. É a recusa definitiva de continuar vivendo como réplica.
Yuen Man quase não precisa aparecer para dominar a história
Yuen funciona durante grande parte do filme como ideal. Não conhecemos a mulher real; conhecemos a versão filtrada pela obsessão de Lee.
A última conversa é devastadora justamente porque desmonta essa construção com pouquíssimo esforço. Lee transformou proximidade geográfica em intimidade, desejo unilateral em romance e frustração em grande tragédia amorosa.
É um ótimo golpe final porque obriga o espectador a reavaliar até as cenas mais silenciosas do primeiro ato.
O filme é longo demais?

Um pouco. Há 130 minutos de trama, explicações, ação e reviravoltas. Algumas passagens poderiam ser reduzidas sem perder o efeito.
Ao mesmo tempo, a extensão ajuda a criar confiança na narrativa de Lee. Precisamos passar tempo suficiente dentro da mentira para aceitar o Pintor como pessoa real.
O problema não é apenas duração. É ritmo. Há trechos muito densos em explicação seguidos por explosões de ação que parecem pertencer a outro registro.
O que nos arrebatou e o que escorregou
| O que nos arrebatou | O que escorregou |
|---|---|
| Aaron Kwok ganha uma segunda interpretação depois da revelação. | O filme demora a encontrar ritmo no primeiro ato. |
| Chow Yun-fat transforma o Pintor numa presença impossível de ignorar. | A passagem de policial técnico para ação grandiosa pode parecer brusca. |
| Falsificação vira metáfora para identidade, amor e memória. | Algumas reviravoltas exigem aceitar coincidências bastante convenientes. |
| Sau-ching dá peso emocional ao conceito de “cópia”. | Yuen funciona mais como ideia do que como personagem durante boa parte da trama. |
Vale a pena assistir O Projeto Gutenberg?
Sim, especialmente para quem gosta de thrillers de crime que mudam de significado depois do final.
Não é um filme perfeitamente equilibrado. É longo, às vezes exagerado e não esconde a admiração por outros clássicos do cinema policial.
Mas a maneira como transforma o falsificador em narrador e o narrador em falsificador é inteligente o bastante para justificar a viagem.
Veredito do Coração
⭐⭐⭐⭐ 4/5
O Projeto Gutenberg funciona melhor quando percebemos que o dinheiro falso é apenas a forma mais literal de sua obsessão. Lee passa o filme inteiro tentando transformar cópias em originais — inclusive a própria versão de si mesmo.
Pacto de Respeito à Arte
Esta crítica contém spoilers moderados sobre a falta de confiabilidade de Lee, mas evita detalhar todas as revelações do último ato. Para a identidade do Pintor, Sau-ching e a verdade sobre Yuen Man, consulte nosso Final Explicado.
O Projeto Gutenberg está indisponível legalmente no Brasil neste momento. O Minha Série Favorita incentiva o consumo pelos canais oficiais quando houver nova oferta.



