No final de O Projeto Gutenberg, o misterioso Pintor nunca foi um criminoso separado interpretado por Chow Yun-fat. Lee Man era o verdadeiro Pintor. Durante o interrogatório, ele inventa uma segunda pessoa para receber a culpa pelos crimes mais violentos e usa o rosto de um policial que havia visto antes como modelo para essa identidade fictícia.
Essa não é a única mentira. A mulher que aparece em Hong Kong como Yuen Man e ajuda Lee a sair da custódia é, na verdade, Sau-ching, que recebeu cirurgia reconstrutiva e passou a viver com a aparência e o nome de Yuen. E o golpe final é ainda mais cruel: a verdadeira Yuen revela que Lee nunca foi seu grande amor. Para ela, ele era apenas um vizinho obcecado.
Atenção: este texto contém spoilers completos do filme.
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Quem é o Pintor de verdade?

Lee Man é o Pintor.
Durante quase todo o filme, acreditamos que o Pintor é um chefão criminoso vivido por Chow Yun-fat. Lee se apresenta como subordinado assustado, alguém recrutado por um homem muito mais poderoso e violento.
O problema surge quando a polícia encontra um homem com o mesmo rosto descrito por Lee. Ele não é um mafioso. É um policial comum que havia dirigido Lee até a delegacia.
É aí que os investigadores percebem que Lee usou o rosto daquele agente para construir o personagem do Pintor dentro do depoimento.
Então Chow Yun-fat não existia dentro da história?
O homem chamado Pintor, exatamente como Lee o descreve, não existe como pessoa separada.
Chow Yun-fat representa a figura que Lee cria para organizar a narrativa. O rosto vem de um policial real; a personalidade reúne poder, charme, coragem e violência que Lee prefere colocar em outro homem.
Isso explica por que o Pintor parece tão diferente dele. Lee se descreve como inseguro e incapaz de matar; o Pintor faz tudo aquilo que ele diz não conseguir fazer.
Na prática, Lee divide a própria identidade em duas versões: a testemunha frágil e o criminoso dominante.
A história que Lee conta é toda mentira?
Não. Esse é um detalhe importante.
Grande parte dos acontecimentos realmente existiu: a organização de falsificação, os crimes, a operação na Tailândia, Sau-ching, os confrontos e a obsessão de Lee por Yuen.
O que ele altera são identidades, responsabilidades e relações. Lee reorganiza os fatos para aparecer como alguém arrastado por um criminoso maior do que ele.
É justamente isso que torna o relato convincente. Se tudo fosse completamente inventado, seria mais fácil desmontá-lo. Ele constrói uma mentira eficiente sobre uma base de acontecimentos reais.
Por que Lee inventa o Pintor?
Porque precisa oferecer à polícia um culpado maior.
Lee está tentando escapar das consequências de anos de crimes. Ao criar um chefe misterioso, apresenta-se como subordinado coagido e testemunha valiosa.
Mas existe também uma dimensão psicológica. O Pintor é tudo que Lee acredita não ser: seguro, admirado, decisivo, perigoso e sempre no controle.
Por isso, sua mentira não serve apenas à polícia. Ela permite que Lee conte a própria vida de uma maneira em que ele é simultaneamente vítima e protagonista.
Quem é a mulher que aparece como Yuen Man?
Ela é Ng Sau-ching.
Sau-ching é a mulher que Lee conhece durante os acontecimentos na Tailândia. Depois de sofrer graves ferimentos, ela passa por cirurgia e recebe documentos com o nome de Yuen Man.
Lee transforma essa nova identidade em algo ainda mais perturbador: tenta fazer Sau-ching ocupar o lugar da mulher por quem é obcecado.
Ela ama Lee, mas percebe que ele nunca a enxerga completamente como ela mesma.
Por que Sau-ching aceita ajudar Lee a fugir?
Porque ainda existe vínculo entre os dois, apesar de tudo.
Lee escreve para Sau-ching enquanto está preso e pede ajuda. Ela participa do plano que permite a fuga e assume novamente a identidade de Yuen para enganar as autoridades.
Mas ajudá-lo não significa que tenha perdoado a maneira como ele a tratou.
Sau-ching matou o noivo da verdadeira Yuen?
O desfecho revela que Sau-ching está ligada diretamente à morte de Lok Man, noivo de Yuen, e também ao modo como Lee acabou nas mãos das autoridades tailandesas.
Essa informação desmonta mais uma parte da narrativa que Lee havia atribuído ao Pintor.
O filme faz questão de mostrar que a verdade não é simplesmente “Lee mentiu e Sau-ching era inocente”. Os dois participaram de uma relação marcada por crime, dependência, obsessão e manipulação.
Por que Sau-ching navega em círculos?
Depois da fuga, Lee acredita que os dois estão deixando Hong Kong de barco.
Sau-ching revela então que não está conduzindo a embarcação para longe. Ela passou a noite navegando em círculos e os manteve dentro das águas de Hong Kong.
Ou seja: a polícia ainda consegue alcançá-los.
Por que Sau-ching explode o barco?
Porque está cansada de existir como substituta.
Lee tentou transformar seu rosto, seu nome e sua relação com ele numa cópia de Yuen. Sau-ching compreende que fugir com Lee significaria continuar vivendo dentro dessa fantasia.
Quando a polícia cerca a embarcação, ela decide não continuar. Detona os explosivos do barco e encerra a fuga.
O gesto é trágico, mas tem coerência temática: uma personagem reduzida a réplica destrói a própria réplica em vez de continuar representando outra mulher.
Lee Man morre na explosão?

O filme trata Lee/Pintor como morto depois da explosão.
Na cena posterior, a inspetora Ho procura a verdadeira Yuen Man e fala sobre a morte do Pintor.
Não existe uma cena posterior sugerindo uma nova fuga de Lee. Dramaticamente, sua trajetória termina no barco ao lado de Sau-ching.
Quem é a verdadeira Yuen Man?
A verdadeira Yuen está viva e na China.
Ela não é a mulher que apareceu na delegacia e ajudou Lee a fugir. Essa era Sau-ching usando sua identidade.
A polícia a procura depois da morte de Lee para comunicar o desfecho e esclarecer a relação entre eles.
Lee e Yuen realmente foram namorados?
Não da maneira como Lee contou.
Essa é a última grande reviravolta.
Quando a inspetora mostra uma foto de Lee, Yuen não reage como alguém que perdeu um grande amor. Diz que ele era um vizinho.
Isso significa que Lee transformou uma paixão unilateral numa história de relacionamento compartilhado.
O filme não revela cada detalhe da proximidade real dos dois, mas deixa claro que o romance narrado durante o interrogatório também foi fabricado.
Por que essa última revelação é tão importante?
Porque impede que tratemos a invenção do Pintor como uma mentira isolada.
Lee não criou apenas um criminoso fictício para enganar a polícia. Reescreveu a própria identidade.
Na versão dele, era um artista frustrado que perdeu o amor da vida e foi seduzido para o crime por um homem poderoso. Na realidade, era um falsificador que transformou obsessão em romance, violência em coerção e responsabilidade em vitimização.
Por que o Pintor tem o rosto do motorista da polícia?
Lee precisava atribuir um rosto à pessoa que estava inventando.
Durante o transporte até a delegacia, vê um policial. Mais tarde, usa aquela aparência para descrever o Pintor.
A escolha quase funciona porque a polícia procura alguém que nunca existiu com aquela identidade. O erro acontece quando a inspetora reconhece a semelhança e o verdadeiro policial é interrogado.
O que o final diz sobre falsificação?

O filme começa falando de notas falsas e termina mostrando que Lee é um falsificador de realidade.
Sua grande habilidade sempre foi copiar e reorganizar elementos existentes. Ele faz isso com arte, dinheiro e finalmente com pessoas.
O Pintor tem o rosto de um policial real. Sau-ching ganha o rosto de Yuen. O romance com Yuen nasce de uma obsessão real, mas é transformado em relação fictícia. Os crimes aconteceram, mas a responsabilidade é redistribuída.
Por isso, o final não é apenas uma surpresa policial. É a conclusão lógica do tema do filme: a falsificação perfeita não precisa criar tudo do zero. Basta combinar peças verdadeiras de maneira suficientemente convincente.
Qual é o significado do título O Projeto Gutenberg?
A referência a Gutenberg remete à impressão e reprodução em escala. No filme, isso aparece primeiro no dinheiro.
Mas o título ganha um sentido maior quando entendemos Lee. Sua vida inteira é construída a partir de reproduções: estilos artísticos, notas, rostos, nomes e memórias.
Ele nunca consegue aceitar a posição de cópia. Então cria uma narrativa em que finalmente ocupa o centro — mesmo que para isso precise falsificar a própria história.
O Projeto Gutenberg está indisponível legalmente no Brasil neste momento. O Minha Série Favorita incentiva o consumo pelos canais oficiais quando houver nova oferta.



