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Crítica: Profecia do Inferno instiga-nos a refletir sobre fanatismo religioso

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Como jornalista colaborador do site Minha Série Favorita, recebi de minhas editoras a missão de produzir um artigo semanal sobre algum filme ou série de grande apelo popular. Sendo assim, movido por minha inabalável fé no Deus dos cristãos e curiosidade acerca do além-túmulo, acabei optando pela minissérie sul-coreana Profecia do Inferno, de Yeon Sang-ho.

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Com um total de seis episódios de até 1h de duração cada um, a série me surpreendeu positivamente. É que o título, a sinopse e até mesmo o trailer não me transmitiam uma ideia concreta acerca do potencial de engajamento da produção. Em suma, a hipótese de que poderia se tratar de mais uma dessas palhaçadas de terror com monstrinhos, porém, foi rapidamente dissipada.

Profecia do Inferno é uma obra de suspense intensa, muito bem elaborada, que prende a atenção do espectador do começo ao fim. E que, pelo menos com este que vos fala, provocou inúmeras mudanças de posição e “vibe” ao longo dos episódios.

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Profecia do Inferno

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A série trata de pessoas que receberam comunicados espirituais apontando o dia e a hora exata em que seriam executadas e teriam suas almas condenadas ao inferno. Logo no começo da trama, um homem com histórico perverso, com extensa ficha criminal, aparece sentado à mesa do que parece ser um bar ou restaurante.

Tomado de ansiedade, ele observa a passagem dos minutos pela tela de seu smartphone aguardando pelo cumprimento de sua profecia com angústia e grande temor. Na hora e minuto previamente agendados, criaturas sobrenaturais fortes e grandes,  que lembram o Godzilla, invadem o local.

O condenado então consegue dar fuga do estabelecimento e tenta, sem sucesso, desesperadamente escapar de sua punição. Alcançado, ele é açoitado de forma cruel na frente de todos. Já agonizante, tem seu corpo queimado por uma espécie de luz que sai da palma das mãos das criaturas.

Crueldade ou justiça?

Apesar da crueldade da execução e do título deixar bem claro que a profecia vem do Inferno, minha posição inicial foi de simpatia à ação dos demônios e de aversão às vítimas. E após breve investigação interna, deduzi que parte dessa postura advinha de minha crença pessoal, de que Deus está no controle de todas as coisas.

Não sou desses que espera de Deus interferência direta em conflitos entre humanos. Minha fé é bastante racional. Para Ele o livre arbítrio é sagrado. Porém, se a ação estava sendo empreendida contra a coroa de Sua criação por agentes do exército de seu inimigo e Ele não se opusera, é porque consentia com a punição.

Nova Ordem

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Além disso, a série conta com um personagem que, apesar da juventude e de uma certa atmosfera de mistério que o envolvia, era, aparentemente, bem lúcido, equilibrado e do bem. Trata-se de Jeong Jin-so (Yoo Ah-in), o muito popular, respeitado e adorado presidente da Nova Ordem, uma espécie de igreja.

Segundo Jeong, Deus havia se revoltado contra o pecado e, por essa razão, estaria favorável ao cumprimento dessas sentenças contra os pecadores. A intenção do Todo Poderoso, conforme o dirigente, era promover o abandono do pecado por parte das pessoas.

Tese esta que só reforçava minha posição, ainda que com um pouco de reservas, uma vez que o amor, o perdão e a misericórdia estão entre os primeiros atributos do trono do Deus ao qual professo minha fé.

Porém…

À medida que os eventos iam se sucedendo, entrei em profundo conflito. É que a série mostra um criminoso que assassinou a esposa de um investigador da polícia sul-coreana levando uma vida normal e tranquila. Isso após ter pego apenas 6 anos de prisão pela lei dos homens. E essa, foi a primeira ponta solta a me deixar intrigado.

História de Park Jeong-ja

Em seguida, Park Jeong-ja (Kim Shin-rok), mãe solteira de um casal de crianças de pais diferentes, recebeu uma profecia de que morreria dentro de 6 dias, às 15h. Fiquei completamente confuso e cismado, ansioso por uma explicação lógica, à luz da fé ou da razão, para aquelas situações tão distintas. O criminoso recebendo misericórdia e uma mãe solteira sendo rigorosamente julgada e punida por supostamente ter se envolvido com homens casados. Não fazia o menor sentido.

Então, temerosa e preocupada, sobretudo com o futuro dos filhos, a mulher procurou Jeong Jin-so, o Líder da Nova Ordem. Em suma, ela foi em busca de esclarecimentos e, quem sabe, algum conforto sobre a profecia que recebeu. Mais interessado em provar a todos sua versão acerca daqueles acontecimentos do que consolar Park, o religioso ofereceu a mulher uma grande quantia em dinheiro em troca de sua permissão para a transmissão ao vivo de sua execução em um canal de TV. E assim, se nada acontecesse, ela poderia permanecer com a grana.

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Em suma, para garantir o futuro das crianças, a mulher aceitou a proposta de exploração de sua imagem. No dia e hora marcados, os executores do mal apareceram e fizeram com ela exatamente tudo o que haviam feito com a vítima anterior. E assim, após testemunhar o ocorrido em massa, a sociedade sul-coreana se encheu de grande temor e se prostrou em adoração.

Fanatismo religioso, intolerância, paranoia e medo

O fanatismo religioso e a intolerância, que já existiam, só cresceram. A paranoia se expandiu tanto quanto o medo, fazendo com que pessoas se transformassem em fiscais e juízes umas das outras. Além disso, para completar, membros de uma ala mais radical da sociedade, os Arrowhead, passaram a espancar e matar pessoas que se atrevessem a emitir opinião ou explicação contrária a de justiça de Deus contra os pecadores.

Seria uma justiça divina?

Entretanto, os eventos que vieram a seguir em Profecia do Inferno mostram que nunca teve nada a ver com Deus ou com algum tipo de justiça divina contra pecadores. Primeiro, o jovem presidente da Nova Ordem, Jeong Jin-so, é executado pelas criaturas. Ele, que cresceu num orfanato, relata ao policial que teve a esposa assassinada que recebeu a profecia 20 anos atrás. De acordo com Jeong Jin-so:

“Nunca cometi nenhum pecado grave. Sempre cuidei para ser uma boa pessoa, nunca menti, entendia que se fosse um bom menino minha mãe iria me querer de volta. Por todos esses anos vivi com medo, buscando desesperadamente por uma explicação, por algo que justificasse eu ter recebido essa sentença. Como não encontrei, resolvi usar o episódio para transformar o mundo num lugar melhor”.

Em suma, para garantir que o policial não filmaria sua execução e a versão pela qual lutou a vida toda seria preservada, Jeong Jin-so manipulou a jovem filha do inspetor. Incentivada por Jeong, a quem admirava, e movida por um desejo ardente de vingança, a adolescente incinerou vivo o assassino de sua mãe.

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E as provas do crime ficaram com um escolhido de Jeong para sucedê-lo como líder da Nova Verdade. Portanto, para proteger a filha, o policial manteve segredo sobre a execução do admirado Jeong. Todos acreditavam que ele simplesmente havia sumido, feito algum tipo de retiro espiritual.

Crítica e interpretação final

A série Profecia do Inferno tem mais cenas e acontecimentos, mas, para efeito de crítica, são dispensáveis. Por conta disso, faz-se necessário dizer que tudo indica que Profecia do Inferno terá uma segunda temporada. E que a explicação definitiva sobre os porquês das condenações e sobre essas criaturas também virão na sequência. Isso porque até um recém-nascido recebeu profecia de que seria executado dentro de 3 dias, afastando por completo a hipótese de relação com pecados cometidos.

Por fim, a interpretação que faço acerca da intenção do autor com a série foi de nos levar a refletir sobre o respeito e certo receio que a maioria de nós tem do sobrenatural. E sobre como as autoridades, sobretudo as religiosas, se aproveitam desses receios para incutir e disseminar o temor do castigo de Deus, manipulando e, em muitos casos, tirando proveito financeiro da boa fé das pessoas. Isso sem falar na contribuição da religião para a intolerância e violência na sociedade.

Vale a pena assistir Profecia do Inferno!

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