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Crítica de O Problema Final: quando interpretar Sherlock Holmes não significa saber quem está mentindo

O Problema Final, minissérie espanhola disponível na Netflix desde 25 de setembro de 2026, coloca José Coronado no papel de um ator decadente que passou anos interpretando Sherlock Holmes e, de repente, precisa usar na vida real tudo aquilo que aprendeu diante das câmeras. Com María Valverde, Martiño Rivas e Maribel Verdú, a produção possui quatro episódios e transforma um hotel isolado em uma elegante brincadeira sobre assassinato, aparência e a nossa necessidade de acreditar que sempre existe uma explicação lógica.

Confesso que a ideia é irresistível.

Treze pessoas ficam presas em uma pequena ilha próxima a Maiorca durante uma tempestade. Uma mulher aparece morta. Não há polícia disponível imediatamente. Ninguém consegue deixar o lugar.

E o único “detetive” presente é um homem que passou boa parte da carreira fingindo ser um.

O Problema Final sabe exatamente de onde vem: Sherlock Holmes, Agatha Christie, quartos fechados, suspeitos bem vestidos e segredos escondidos atrás de boas maneiras.

O problema é que uma homenagem também precisa encontrar sua própria personalidade.

E é justamente aí que a minissérie oscila.

Vale a pena assistir a O Problema Final? O mistério é elegante, mas lento demais

A Netflix distribui a história em apenas quatro capítulos de 57, 35, 42 e 48 minutos. É uma minissérie curta, mas curiosamente nunca parece apressada. Na verdade, em determinados momentos acontece exatamente o contrário.

O ritmo é deliberadamente lento.

Conhecemos os hóspedes, observamos conversas, percebemos olhares e esperamos que algum detalhe aparentemente irrelevante revele uma intenção escondida.

Isso combina com a proposta clássica.

O problema aparece quando a espera demora mais do que a complexidade dos personagens consegue sustentar.

Depois que Elisa Mander aparece morta, aquilo que inicialmente parece suicídio começa a revelar indícios de assassinato. Benjamin Basil, interpretado por José Coronado, percebe inconsistências que passam despercebidas pelos demais.

A tempestade impede uma investigação policial convencional, e todos no hotel se tornam possíveis culpados. A estrutura segue conscientemente a tradição do whodunit: espaço fechado, número limitado de suspeitos e uma solução que, em teoria, poderia ser deduzida pelo público.

É divertido tentar observar a cena antes de Basil.

Quem está mentindo?

Quem parece saber demais?

Qual objeto foi colocado naquele lugar por acaso — e qual está pedindo para ser notado?

Mas senti falta de algo fundamental para que esse tipo de mistério se torne realmente viciante: conhecer melhor os suspeitos.

Quando todos podem ser culpados, precisamos desejar descobrir quem aquelas pessoas são antes de descobrir qual delas matou alguém.

O Problema Final entrega o quebra-cabeça.

Nem sempre entrega o mesmo envolvimento emocional.

José Coronado faz Benjamin Basil funcionar porque nunca tenta transformá-lo realmente em Sherlock Holmes

A melhor ideia da série está em seu protagonista.

Benjamin Basil não é Sherlock Holmes.

Ele interpretou Sherlock Holmes.

Essa diferença poderia servir apenas como piada, mas também permite discutir algo bastante interessante sobre identidade.

Depois de anos repetindo gestos, raciocínios e maneiras de observar o mundo, quanto de um personagem permanece no ator?

Basil insiste que não é investigador. Mas percebe detalhes, interpreta comportamentos e começa a utilizar métodos que aprendeu durante a preparação para aqueles filmes.

O próprio conceito nasceu como uma homenagem explícita ao universo de Arthur Conan Doyle e a Basil Rathbone, um dos atores mais associados a Sherlock Holmes no cinema. Arturo Pérez-Reverte concebeu o romance justamente como uma celebração da literatura policial clássica e da tradição cinematográfica ligada ao personagem.

José Coronado entende bem o equilíbrio necessário.

Seu Basil não funciona como um gênio exibindo superioridade o tempo inteiro.

Há cansaço nele.

Existe também certo desconforto diante da carreira que ficou para trás e uma relação problemática com a bebida que a série apresenta, embora não aprofunde tanto quanto poderia.

O assassinato lhe oferece algo perigoso: uma oportunidade de voltar a sentir que possui uma função.

E talvez seja essa a parte mais interessante do personagem.

Às vezes, sentimos saudade não exatamente de quem éramos, mas da época em que acreditávamos saber qual era nosso lugar no mundo.

Basil encontra novamente reconhecimento justamente quando começa a agir como o personagem pelo qual sempre será lembrado.

A ironia é ótima.

Eu só gostaria que a série brincasse mais com ela.

O Problema Final é baseado em livro? A Netflix muda bastante a história de Arturo Pérez-Reverte

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Imagem: Netflix

Sim.

A minissérie adapta El problema final, romance de Arturo Pérez-Reverte, publicado pela Alfaguara em 2023.

Mas não estamos diante de uma reprodução literal.

No livro, a história acontece em junho de 1960, quando nove viajantes ficam isolados na fictícia ilha de Utakos, próxima a Corfu, na Grécia. Na adaptação da Netflix, a ação passa para a primavera de 1959, em uma pequena ilha perto de Maiorca, e o número de pessoas isoladas sobe para treze.

A mudança preserva o coração do romance: um ator conhecido por interpretar Sherlock Holmes precisa enfrentar um assassinato real.

Também permanece a relação entre Basil e Francisco Foxá, vivido por Martiño Rivas, um escritor de histórias policiais que assume uma espécie de função equivalente à de Watson.

A ideia é deliciosa porque os dois conhecem as regras da ficção criminal.

Eles sabem como um romance policial deveria funcionar.

Só que pessoas reais não se comportam necessariamente como personagens bem escritos.

É nesse encontro entre ficção e realidade que a série poderia ter sido ainda mais provocativa.

O roteiro de Alberto Macías, Carlos Molinero e Marisol Farré, sob direção de Félix Viscarret, prefere preservar a solenidade do mistério em vez de explorar completamente o humor e a metalinguagem dessa situação.

Funciona.

Mas poderia ser muito mais divertido.

María Valverde e Maribel Verdú colocam as mulheres mais interessantes entre os suspeitos

María Valverde interpreta Adela Figueroa, jovem misteriosa que estava viajando com Elisa.

Existe algo imediatamente controlado na maneira como a personagem ocupa os ambientes.

Adela observa.

Responde apenas o necessário.

E transmite a sensação de que inteligência e autopreservação caminham juntas.

Valverde é particularmente boa quando o roteiro nos obriga a decidir se aquela serenidade representa inocência ou apenas um enorme controle emocional.

Ela entende que, em um mistério, às vezes a melhor atuação não consiste em revelar sentimentos, mas em nos fazer perguntar o que está sendo escondido.

Já Maribel Verdú interpreta a senhora Ausländer, responsável pelo hotel.

A personagem precisa manter alguma aparência de normalidade quando tudo ao redor começa a desmoronar.

É outra forma de poder.

Enquanto Basil investiga, Ausländer tenta preservar a ordem.

E existe uma diferença enorme entre as duas coisas.

A série também apresenta Vicky, vivida por Cristina Kovani, acrescentando outra personalidade feminina a um grupo em que aparências sociais têm enorme importância.

Ainda assim, algumas personagens passam tempo demais funcionando como suspeitas antes de ganharem verdadeira intimidade.

Isso afeta especialmente a paranoia.

Desconfiar de alguém é muito mais interessante quando já construímos uma relação emocional com essa pessoa.

Por trás das câmeras: O Problema Final parece uma fotografia elegante dos anos 1950

A direção de Félix Viscarret abraça completamente o prazer visual de um mistério de época.

Ternos claros.

Vestidos estruturados.

Chapéus.

Salões refinados.

Jantares formais.

Mar e vegetação cercando personagens que não conseguem escapar daquele espaço.

A ambientação de 1959 cria um contraste importante entre elegância e violência.

Tudo parece excessivamente organizado para um lugar onde alguém acabou de morrer.

A fotografia aproveita muito bem a luminosidade mediterrânea.

Durante o dia, o lugar poderia ser cenário de férias luxuosas.

Quando o tempo fecha, aquela mesma paisagem começa a parecer claustrofóbica.

Os figurinos também ajudam a definir personalidade e posição social antes mesmo que os personagens revelem seus segredos.

Adela, especialmente, recebe uma apresentação visual que combina sofisticação e distância emocional.

O Problema Final entende uma característica essencial desse gênero: um assassinato fica ainda mais perturbador quando acontece em um lugar bonito demais para parecer perigoso.

Visualmente, a minissérie possui personalidade.

O que falta algumas vezes é permitir que o suspense alcance a mesma intensidade da atmosfera.

Francisco Foxá deveria ser o Watson perfeito — mas poderia ter sido muito mais

Martiño Rivas interpreta Foxá, o escritor que rapidamente reconhece no antigo ator algo semelhante ao verdadeiro Sherlock Holmes.

É ele quem incentiva Basil a olhar para o crime como um investigador.

Por isso, sua função é clara.

Ele pergunta.

Provoca.

Levanta hipóteses.

Ajuda o público a acompanhar as deduções.

O problema é que a relação entre os dois nunca alcança toda a graça possível dessa combinação.

Temos um ator que interpretou Holmes e um escritor especializado em mistérios tentando solucionar um assassinato real.

Isso deveria produzir discussões deliciosas sobre ficção, lógica, vaidade e a diferença entre escrever uma pista e encontrá-la diante de um cadáver.

Há momentos desse espírito.

Mas são menos frequentes do que gostaria.

Foxá acaba funcionando melhor como peça da investigação do que como personagem inesquecível.

E isso resume parte da minha relação com a série.

O mecanismo é bom.

As pessoas dentro dele nem sempre recebem espaço suficiente para se tornar tão interessantes quanto o enigma.

O raio-X do Minha Série Favorita

O que nos arrebatouO que escorregou
José Coronado como um Sherlock Holmes que insiste não ser Sherlock HolmesO ritmo excessivamente lento em alguns trechos
A ambientação elegante de 1959Vários suspeitos recebem desenvolvimento superficial
María Valverde e a inteligência silenciosa de AdelaA relação entre Basil e Foxá poderia explorar melhor a metalinguagem
O formato clássico de mistério em espaço fechadoA paranoia demora para ganhar intensidade
Figurinos, hotel e atmosfera mediterrâneaAlgumas revelações dependem mais do mecanismo do enigma do que das relações entre personagens

O veredito do coração: O Problema Final merece entrar na sua lista da Netflix?

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Imagem: Netflix
  • NOTA: 3 de 5 estrelas. Selo Minha Série Favorita: um mistério elegante para quem sente saudade de suspeitos reunidos em uma sala enquanto alguém finalmente explica aquilo que todos deixaram de enxergar.

O Problema Final não reinventa o whodunit.

Talvez nem queira.

Seu prazer está justamente em recuperar uma maneira antiga de contar histórias: colocar pessoas isoladas, espalhar pistas, introduzir mentiras e convidar quem assiste a chegar à solução antes do investigador.

José Coronado sustenta essa brincadeira com enorme presença.

María Valverde oferece uma personagem que desperta curiosidade justamente porque nunca parece entregar tudo o que sabe.

E a ambientação transforma o hotel em parte fundamental da experiência.

Minha maior reserva está na distância emocional.

Um grande mistério não precisa apenas nos fazer perguntar quem matou.

Também precisa fazer com que a resposta mude aquilo que sentimos sobre as pessoas envolvidas.

O Problema Final chega perto disso, especialmente no encerramento, mas poderia ter desenvolvido seus suspeitos com maior profundidade.

Ainda assim, recomendo para quem gosta de Sherlock Holmes, Agatha Christie, mistérios de quarto fechado, produções de época e histórias nas quais todos são suspeitos.

E existe algo especialmente bonito na trajetória de Basil.

Depois de passar a vida fingindo saber como resolver mistérios, ele descobre que talvez tenha aprendido mais com aquele personagem do que estava disposto a admitir.

Às vezes, representamos um papel durante tanto tempo que ele deixa marcas em quem somos. O verdadeiro mistério é descobrir onde termina a personagem e onde começamos nós.

Magui Schneider
Magui Schneider
Artigos: 198

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