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Crítica de Protocolo de Extermínio: Adria Arjona enfrenta monstros criados pela guerra — inclusive os que ficaram dentro dela

Protocolo de Extermínio, filme de ação, ficção científica e terror que estreia nos cinemas brasileiros em 1º de outubro de 2026, coloca Adria Arjona diante de três supersoldados geneticamente modificados que escaparam de uma instalação militar. Dirigido por Adam Wingard e escrito por Wingard com Simon Barrett, o longa tem 1h32, classificação indicativa de 18 anos e chega ao Brasil pela Diamond Films.

A princípio, parece simples.

Uma ex-sniper.

Uma filha em perigo.

Três máquinas humanas de matar.

Muitas armas.

Muito sangue.

Só que a personagem de Arjona, Celeste, torna Protocolo de Extermínio um pouco mais interessante do que essa descrição sugere. Ela já conhecia a violência muito antes de alguém invadir o lugar onde vive. O verdadeiro desafio não é ensiná-la a lutar.

É obrigá-la a voltar a ser aquilo que tentou deixar para trás.

E é justamente nessa ideia que o filme encontra sua melhor versão: para proteger a vida que construiu depois da guerra, Celeste precisa recuperar a mulher que aprendeu a sobreviver dentro dela.

Celeste é mãe, veterana e sniper — e Adria Arjona não precisa escolher apenas uma dessas mulheres

Celeste vive com a filha Daisy, interpretada por Blake Kennedy, em Windy Oasis, um conjunto de trailers perdido no deserto.

A vida está longe de parecer organizada.

Há louça acumulada.

Armas.

Mãos que tremem.

Uma mulher tentando funcionar depois de experiências militares que evidentemente não ficaram enterradas com o uniforme.

Então três supersoldados escapam de um projeto secreto e chegam até aquela comunidade.

É quando o passado profissional de Celeste deixa de ser apenas memória.

Adria Arjona poderia interpretar a personagem simplesmente como mais uma “mãe durona” do cinema de ação.

Não faz isso.

Existe cansaço naquela mulher.

Existe humor.

Há também algo de profundamente desconfortável em perceber que habilidades construídas num período traumático podem se tornar justamente aquilo que permitirá salvar a filha.

Essa contradição é muito mais interessante do que contar quantos disparos Celeste consegue fazer.

O corpo pode sair de uma guerra muito antes de a guerra sair do corpo.

Protocolo de Extermínio sugere isso através dos tremores, da maneira como Celeste organiza o ambiente e da rapidez com que determinadas respostas retornam quando o perigo aparece.

Ela não precisa aprender a matar.

Precisa decidir se consegue voltar a acessar essa parte de si sem desaparecer dentro dela.

A maternidade funciona melhor quando o filme não transforma Celeste apenas em “mamãe urso”

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Imagem: A24

É inevitável que o longa utilize a proteção de Daisy como motor.

A própria divulgação oficial resume a história como a luta de uma sniper do Exército para proteger a filha depois da fuga dos supersoldados. A A24 confirma também um elenco que reúne Dan Stevens, Eric Wareheim, Reginald VelJohnson, Michael Biehn, Alex Pereira, Drew Starkey e Rebecca Hall.

Mas gosto mais de Celeste quando sua maternidade não é usada para explicar toda a personagem.

Ela não se torna corajosa porque é mãe.

Já era.

Não passa a saber usar armas porque alguém ameaçou sua filha.

Esse conhecimento possui uma história.

Daisy apenas muda aquilo pelo qual Celeste está disposta a utilizá-lo.

Essa é uma diferença importante.

Mulheres em filmes de ação ainda são frequentemente apresentadas através de dois extremos: precisam abandonar qualquer traço associado ao cuidado para parecer fortes ou precisam justificar toda a própria força através da maternidade.

Celeste cabe mal nos dois modelos.

Ela pode amar a filha e ainda carregar raiva.

Pode ser protetora e instável.

Pode cuidar e também destruir.

A maternidade não cria a força de Celeste. Apenas oferece a essa força uma direção diferente.

É quando o filme compreende isso que Adria Arjona realmente domina a tela.

Crítica sincera: vale a pena assistir a Protocolo de Extermínio?

Sim, especialmente se você entrar no cinema procurando um filme de ação brutal, curto e assumidamente exagerado.

Mas há uma diferença importante entre aquilo que Protocolo de Extermínio promete e aquilo que entrega.

Adam Wingard espalha ideias suficientes para um filme muito maior.

Existe um programa militar secreto.

Há experiências com soldados.

A abertura insinua relações entre tecnologia, militarização, abuso institucional e a utilização de seres humanos como material descartável.

O problema é que essas ideias raramente ganham a mesma atenção dedicada aos tiros.

Elas permanecem no ambiente.

Sugerem uma discussão.

Mas quase nunca se tornam o centro dela.

O primeiro texto crítico fornecido para esta análise identifica exatamente essa frustração: há imagens e personagens que prometem universos inteiros, enquanto a segunda metade prefere lançar seus brinquedos uns contra os outros.

O segundo texto é ainda mais severo e vê a produção como uma reciclagem de thrillers militares e filmes de cerco das décadas passadas.

Existe verdade nas duas leituras.

Protocolo de Extermínio lembra filmes que já conhecemos.

O próprio Wingard volta ao território de invasão e sobrevivência que marcou trabalhos anteriores, especialmente Você é o Próximo e The Guest.

Mas familiaridade não seria um problema se o filme explorasse melhor suas próprias esquisitices.

E existem várias.

Alex Pereira é quase uma força da natureza — enquanto Dan Stevens entende o prazer do absurdo

Entre os supersoldados está The Butcher, interpretado pelo brasileiro Alex Pereira.

Não é um antagonista construído através de longos diálogos.

É presença.

Tamanho.

Movimento.

Persistência.

Os soldados foram modificados para funcionar praticamente como armas guiadas em corpos humanos. Sentem pouca ou nenhuma dor da maneira esperada e avançam com uma determinação mecanizada.

A escolha funciona porque aproxima o terror da ficção científica.

Celeste não está apenas enfrentando homens mais fortes.

Está diante de pessoas transformadas em ferramentas.

E há algo perturbador nisso mesmo quando o roteiro prefere não aprofundar a ideia.

Já Dan Stevens, como Dr. Kammler, entra em outra frequência.

Excêntrico, grotesco e deliberadamente exagerado, ele parece ter entendido que não existe razão para interpretar esse universo com solenidade absoluta.

O personagem aparece ligado ao programa responsável pelas criaturas e imediatamente desperta a sensação de que existe um filme ainda mais estranho escondido dentro daquele que estamos assistindo.

Rebecca Hall também integra esse núcleo, mas recebe menos espaço do que sua presença promete.

O mesmo vale para Drew Starkey, cujo Cyrus recebe uma entrada cuidadosamente construída e depois não produz impacto proporcional à expectativa.

Esse é um padrão do longa.

Wingard apresenta personagens como se estivéssemos prestes a descobrir algo maravilhoso sobre eles.

Depois começa o massacre.

A Força do Olhar Feminino e das Conexões Humanas

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Imagem: Diamond Films

Curiosamente, uma das relações mais agradáveis de Protocolo de Extermínio não é apenas aquela entre mãe e filha.

É a amizade entre Celeste e Josiah, veterano do Vietnã interpretado por Reginald VelJohnson.

Os dois reconhecem algo um no outro sem precisar transformar trauma em discurso.

Há brincadeiras.

Provocações.

E aquela intimidade particular de pessoas que não precisam explicar determinadas marcas porque a outra pessoa já entende de onde elas vieram.

Josiah ajuda Windy Oasis a se tornar mais do que um cenário descartável.

A comunidade passa a parecer um lugar habitado por pessoas que, de algum modo, foram parar à margem e aprenderam a viver próximas umas das outras.

Isso importa quando o ataque começa.

Não estamos apenas vendo figurantes tentando sobreviver.

Ao menos parte daquele lugar possui identidade.

E é por isso que gostaria que Wingard tivesse passado um pouco mais de tempo ali antes de destruir tudo.

Quanto mais conhecemos uma comunidade, maior é o peso de vê-la ameaçada.

Por Trás das Câmeras: som, violência e um deserto que parece contaminado

Visualmente, Protocolo de Extermínio tem personalidade.

A fotografia de Oren Soffer alterna ambientes clínicos desagradáveis com a aridez quente do deserto e momentos de violência muito mais coloridos do que a premissa poderia sugerir.

O som também é fundamental.

Tiros precisam atingir.

Vidros precisam quebrar.

Impactos corporais precisam doer antes mesmo que consigamos processar exatamente o que aconteceu.

E o longa abraça o gore.

Cabeças explodem.

Corpos atravessam paredes.

Armas e ferramentas encontram funções que certamente justificam a classificação brasileira para maiores de 18 anos.

Não é violência elegante.

Nem deveria ser.

Wingard filma seus supersoldados como criaturas de horror infiltradas em um filme de ação.

Às vezes lembram exterminadores.

Em outros momentos, assassinos implacáveis de um slasher.

Essa mistura é divertida porque Celeste precisa utilizar estratégia militar contra adversários que parecem obedecer às regras de monstros.

O problema surge novamente quando a execução técnica supera aquilo que o roteiro preparou.

Há cenas de ação competentes.

Boas mortes.

Uma protagonista convincente.

Mas falta aquela sequência realmente inesquecível capaz de reunir tudo numa explosão final de criatividade.

O Raio-X do Minha Série Favorita

O que nos arrebatouO que escorregou
Adria Arjona transformando Celeste em mais do que uma heroína de açãoO filme apresenta ideias políticas e militares que quase não desenvolve
A mistura de ação, horror e ficção científicaA segunda metade se torna mais previsível
A relação entre Celeste e JosiahVários coadjuvantes prometem mais do que recebem
Alex Pereira funcionando como ameaça física quase monstruosaOs supersoldados poderiam ter mais personalidade
Dan Stevens abraçando o lado estranho do materialRebecca Hall e Drew Starkey são subaproveitados
Fotografia, som e violência práticaA promessa inicial é maior do que o impacto final

O Veredito do Coração: Protocolo de Extermínio entrega tudo o que promete?

  • NOTA: 3,5 de 5 estrelas. Selo Minha Série Favorita: um filme de ação brutal e divertido que encontra em Adria Arjona uma heroína melhor do que o próprio roteiro consegue acompanhar.

Protocolo de Extermínio não precisa reinventar o cinema de ação para funcionar.

E não reinventa.

Sua estrutura é reconhecível.

Experimento militar.

Projeto fora de controle.

Comunidade sitiada.

Mãe protegendo a filha.

Vilões excêntricos.

Uma protagonista obrigada a recuperar habilidades que gostaria de não precisar usar novamente.

O diferencial está em Adria Arjona.

Ela consegue fazer Celeste parecer alguém que existia antes daquele primeiro disparo e continuará existindo depois dele.

Isso parece simples.

Não é.

O filme poderia ter ido muito além com as consequências psicológicas de transformar soldados em armas, com os indícios de abuso militar e até com a pergunta sobre o que acontece quando instituições criadas para produzir segurança passam a produzir monstros.

Prefere não permanecer nessas questões por muito tempo.

Wingard quer ação.

Sangue.

Humor.

Estranheza.

E, dentro dessa proposta, há bastante coisa para aproveitar.

Recomendo especialmente para quem gosta de filmes de cerco, ação ultraviolenta, ficção científica militar e protagonistas femininas que não precisam ser transformadas em versões masculinizadas de antigos heróis do gênero.

Só não entraria esperando a grande desconstrução do filme de ação militar que suas primeiras imagens parecem anunciar.

Protocolo de Extermínio é muito mais interessado em fazer uma parede explodir do que explicar por que aquela parede estava ali.

E talvez seu melhor conflito permaneça com Celeste.

Porque, quando tudo termina, sobreviver não significa necessariamente voltar a ser a pessoa que existia antes.

Celeste protege a filha recuperando a arma que um dia precisou ser. A questão que o filme deixa para trás é se ela conseguirá guardá-la novamente dentro de si.

Magui Schneider
Magui Schneider
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