O machismo em Round 6 (Squid Game) vai muito além do mero apelo dramático da Netflix: a série sul-coreana criada por Hwang Dong-hyuk expõe com crudeza as fraturas de gênero da sociedade coreana contemporânea, mas levanta um debate acalorado sobre se o roteiro apenas retrata a misoginia estrutural ou se acaba por reproduzi-la sem a devida crítica.
Para além da alegoria sobre o capitalismo de extrema sobrevivência, o fenômeno global trouxe à tona discussões profundas sobre o papel reservado às mulheres dentro e fora das telas. A forma como as jogadoras são subestimadas, manipuladas e descartadas na trama gerou divisões intensas entre a crítica especializada, o público internacional e os movimentos feministas sul-coreanos.
Onde a Ficção Encontra o Patriarcado Coreano
A construção social que vemos nos jogos digitais e analógicos do drama não nasceu no vácuo. A Coreia do Sul vivencia, há anos, uma grave crise de polarização de gênero. Embora o país seja uma potência tecnológica e cultural global, os indicadores sociais revelam uma disparidade profunda que ajuda a explicar a tensão no set da série.
O ambiente corporativo e político sul-coreano é historicamente dominado por estruturas patriarcais herdeiras de valores confucionistas rígidos, nos quais papéis de submissão e domesticidade ainda pesam sobre as mulheres. O crescimento de movimentos de reação ao feminismo (backlash) no país sul-coreano criou uma arena política hostil, onde discursos sobre igualdade são frequentemente demonizados por parcelas jovens e conservadoras da população masculina.
Quando o diretor Hwang Dong-hyuk reuniu personagens marginalizados — endividados, imigrantes e idosos —, a inclusão das mulheres respondeu a essa mesma lógica de exclusão social. O ambiente do jogo, longe de ser um refúgio neutro, tornou-se um espelho amplificado da competitividade feroz e do sexismo do mundo exterior.
A Dinâmica dos Jogos e a Desvalorização Feminina

À medida que os desafios avançam no complexo secreto da ilha, a dinâmica entre os participantes explicita como o viés de gênero molda a tomada de decisão em momentos de crise limite.
O Mito da Força Física e a Escolha de Times
Um dos momentos mais reveladores da narrativa ocorre na preparação para jogos coletivos, como a prova da Corda (Tug-of-War). Os homens agrupam-se rapidamente, rejeitando a presença feminina sob a premissa automática de que elas representam fraqueza e fardo tático.
Essa presunção falha categoricamente dentro da própria estrutura idealizada pelo programa. Jogos clássicos como “Batatinha Frita 1, 2, 3” e o desafio do Biscoito de Açúcar (Dalgona) exigiam controle emocional, motricidade fina e paciência — atributos nos quais as jogadoras demonstraram desempenho igual ou superior. No entanto, a preferência pela dominação masculina manteve-se inabalável até o fim.
| Fases do Jogo | Requisito Declarado | Preconceito Demonstrado | Resultado Efetivo |
| Biscoito Dalgona | Calma, técnica e destreza | Homens buscam liderança pela força | Estratégia e precisão salvaram vidas |
| Corda (Tug-of-War) | Força bruta presumida | Mulheres e idosos são rejeitados | Vitória conquistada por tática e ritmo |
| Ponte de Vidro | Observação e sorte | Mulheres empurradas ao fim da fila | intuição e análise foram determinantes |
O Descarte Narrativo das Protagonistas
A crítica mais severa direcionada ao roteiro reside no destino das poucas mulheres que conseguiram projeção dramática. Embora tenham conquistado a afeição da audiência global, suas trajetórias foram encerradas de forma a servir ao amadurecimento ou ao conflito dos personagens masculinos.
- Han Mi-nyeo (Nº 212): Representa a mulher sem redes de proteção que recorre à sexualidade e ao pragmatismo histriônico para sobreviver. Ao ser descartada pelo líder gangster Jang Deok-su, sua trajetória encerra-se em um ato de vingança suicida. Para críticos, o arco reduziu a personagem ao estereótipo da mulher vingativa e instável.
- Ji-yeong (Nº 240): Apresentada como uma jovem traumatizada por abusos patriarcais familiares severos. Sua escolha de se sacrificar no jogo das bolinhas de gude (Gganbu) serviu para humanizar e impulsionar a jornada emocional de outra jogadora, privando a personagem de um desenvolvimento autônomo.
- Kang Sae-byeok (Nº 067): A desertora norte-coreana construída com imensa resiliência e inteligência tática torna-se uma das poucas figuras capazes de vencer o sistema. No entanto, ferida mortalmente antes da grande final, é assassinada por Cho Sang-woo, garantindo que a disputa pelo prêmio bilionário ficasse restrita à rivalidade masculina entre amigos de infância.
Impacto Cultural e o Vazio na Crítica Social
A recepção de Round 6 na Coreia do Sul e no Ocidente escancarou duas formas distintas de ler a produção. Para uma parcela significativa do público internacional, a série funcionou como uma denúncia chocante e crua das desigualdades do mundo moderno. Já entre grupos ativistas sul-coreanos, o tom adotado pela produção provocou reações que chegaram a propostas de boicote.
A Diferença Entre Retratar e Validar
A grande questão debatida por teóricos de mídia é se a narrativa consegue efetivamente criticar a misoginia ou se apenas se aproveita dela como espetáculo visual.
- A visão da defesa: A obra é uma sátira trágica. Exibir o desprezo masculino pelas mulheres em um jogo de morte não significa endossá-lo, mas escancarar o grau de podridão moral a que indivíduos chegam sob pressão econômica. O desconforto do leitor é a própria ferramenta de denúncia do diretor.
- A visão crítica: O roteiro falha ao não oferecer qualquer contraponto estrutural. Ao eliminar todas as mulheres antes do clímax e focar o desfecho na masculinidade ferida de Seong Gi-hun e Cho Sang-woo, a série reafirma a centralidade masculina como o único vetor válido de relevância social e tragédia humana.
Conclusão
Round 6 não é uma obra neutra, e essa é justamente a sua maior força. A produção expõe as entranhas de uma sociedade em que a desigualdade de gênero é estrutural e cruel. Se por um lado a série falha em conceder às suas personagens femininas o mesmo espaço de redenção e protagonismo final dado aos homens, por outro, ela força o espectador a encarar a misoginia não como um detalhe superficial, mas como uma engrenagem central da violência social.
O incômodo provocado pelas mortes, pelas rejeições nas escolhas de times e pelo uso instrumental das jogadoras reflete com fidelidade incômoda a realidade enfrentada por muitas mulheres fora da ficção. Ao provocar essa inquietação, a obra de Hwang Dong-hyuk cumpre um papel cultural indiscutível: transformou o entretenimento de massa em um espelho desconfortável sobre o quanto o machismo continua a ditar as regras do jogo.



