Uma condenação deveria representar o fim de uma investigação. Em Habeas Corpus, ela é apenas o começo. Disponível na Netflix desde 23 de setembro de 2026, o primeiro drama jurídico brasileiro da plataforma acompanha Inez Franco, uma respeitada professora de Direito e ex-advogada criminalista que cria um grupo universitário para reexaminar condenações possivelmente injustas.
O primeiro caso é o de Jonathan, jovem preso há seis anos e condenado a 47 anos por um crime que afirma não ter cometido. A série foi criada por Luiz Villaça, Leonardo Moreira e Donna Oliveira, com direção-geral de Villaça e episódios dirigidos também por Flávia Lacerda.
Protagonizada por Marjorie Estiano e Any Gabrielly, com Vladimir Brichta, Danton Mello, Naruna Costa, Natália Lage e Marisa Orth em papéis importantes, Habeas Corpus transforma investigação criminal em conflito emocional. A pergunta não é apenas se uma pessoa inocente pode ser libertada.
A série quer saber o que acontece com aqueles que participaram de uma injustiça quando finalmente percebem o tamanho de suas escolhas. Inspirada no trabalho do Innocence Project Brasil, a produção utiliza personagens ficcionais, mas parte de situações e processos reais de revisão criminal para discutir culpa, classe, desigualdade, poder e reparação.
Quem está no elenco e quais os dilemas dos personagens?

Habeas Corpus funciona porque a Justiça nunca aparece como uma abstração. Por trás de cada processo existe alguém que perdeu anos da própria vida, alguém que tomou uma decisão equivocada e alguém que talvez tenha lucrado com o erro.
No centro dessa engrenagem estão duas mulheres que desejam reparação, mas partem de lugares completamente diferentes.
Marjorie Estiano interpreta Inez Franco
Inez Franco abandonou os tribunais depois de uma experiência traumática e construiu uma nova vida como professora universitária. O afastamento, porém, não apagou sua culpa.
Anos antes, quando ainda exercia a advocacia criminal, Inez participou de um processo que levou uma mulher inocente à prisão. Agora, ao criar um grupo de revisão criminal, encontra uma possibilidade concreta de enfrentar erros do sistema — e também os próprios.
Marjorie Estiano interpreta uma personagem interessante justamente porque Inez não pode assumir a posição confortável de quem observa a injustiça do lado de fora. Ela também fez parte dela.
Sua trajetória gira em torno de uma pergunta difícil: reconhecer um erro é suficiente quando outra pessoa passou anos pagando por ele?
Any Gabrielly interpreta Marina
Marina é bolsista, inteligente, determinada e a estudante que mais chama a atenção de Inez.
Mas sua entrada no grupo possui uma motivação escondida.
A jovem é filha de Eliane, mulher presa injustamente após um caso no qual Inez teve participação. Marina se aproxima da professora com uma missão: provar a inocência da mãe e responsabilizar aquela que considera uma das responsáveis pela destruição da família.
O problema surge quando a convivência deixa de caber perfeitamente dentro de seu plano.
Marina começa a admirar Inez e percebe que a mulher que imaginou como símbolo absoluto da injustiça também convive com culpa, arrependimento e contradições.
Essa aproximação transforma vingança em conflito moral.
Vladimir Brichta interpreta Murilo Villar
Murilo Villar é ex-marido de Inez e antigo sócio da advogada.
Carismático e estrategista, continua atuando no Direito Criminal e trabalha para clientes poderosos. Ele acredita no princípio da ampla defesa, mas também encara a advocacia como negócio, prestígio e influência.
O reencontro com Inez coloca os dois em lados diferentes de uma disputa jurídica e reacende questões profissionais, éticas e afetivas que nunca foram completamente resolvidas.
Hypólito interpreta Jonathan
Jonathan Ferreira dos Santos é o primeiro condenado cujo processo o grupo decide revisar.
De origem humilde, ele cumpre pena há seis anos depois de receber uma condenação de 47 anos por latrocínio. Na prisão, aproxima-se da religião e desenvolve sua própria visão sobre culpa, sobrevivência e Justiça.
Jonathan é fundamental porque impede que a discussão permaneça teórica.
Enquanto os advogados debatem procedimentos, estratégias e provas, existe um homem perdendo anos de vida.
Naruna Costa interpreta Eliane
Eliane é mãe de Marina e talvez represente de maneira ainda mais dolorosa o significado de um erro judicial.
Ela sustentava a família por meio de uma pequena propriedade rural quando entrou em conflito com um deputado poderoso. Acusada de incendiar propriedades do político, acabou condenada depois que o escritório de Inez e Murilo participou do caso.
Oito anos de prisão explicam por que Eliane não está preparada para aceitar facilmente qualquer tentativa de redenção.
Danton Mello vive Pedro Borrmann, antigo sócio de Inez e pai de Bernardo; Natália Lage interpreta Ana Hueda, sócia do escritório; e Marisa Orth assume o papel da delegada Cristina “Tina” Ogino.
O grupo universitário ainda reúne Luiza Gabus como Raquel, Pedro Roza como Lima, Felipe Ricca como Bernardo e Nicolas Lee como Kim. Cada estudante leva para a investigação uma realidade social e familiar diferente.
Ficha Técnico-Editorial de Habeas Corpus
| Informação | Detalhes |
|---|---|
| Título | Habeas Corpus |
| Ano | 2026 |
| Estreia | 23 de setembro de 2026 |
| Gêneros | Drama jurídico, crime e suspense |
| Criação | Luiz Villaça, Leonardo Moreira e Donna Oliveira |
| Direção-geral | Luiz Villaça |
| Direção de episódios | Luiz Villaça e Flávia Lacerda |
| Roteiro final | Leonardo Moreira |
| Inspiração | Trabalho do Innocence Project Brasil e casos de revisão criminal |
| Elenco principal | Marjorie Estiano, Any Gabrielly e Vladimir Brichta |
| Elenco | Danton Mello, Natália Lage, Naruna Costa, Marisa Orth, Hypólito, Renata Gaspar e outros |
| Produção | Café Royal |
| Produção executiva | Adriana Tavares |
| País | Brasil |
| Idioma original | Português |
| Temporadas | 1 |
| Episódios | 8 |
| Duração | Entre aproximadamente 57 e 77 minutos |
| Classificação na Netflix Brasil | 16 anos |
| Onde assistir | Netflix |
A Trama e o Impacto: Quando Corrigir Uma Injustiça Significa Enfrentar Quem Você Era
Inez cria seu grupo de revisão criminal dentro da universidade e escolhe cinco estudantes para analisar processos.
O caso de Jonathan rapidamente deixa de parecer um simples exercício acadêmico.
Testemunhos, provas e inconsistências começam a apontar para a possibilidade de que a condenação tenha sido construída sobre falhas graves.
É importante fazer uma distinção que a própria série apresenta: habeas corpus e revisão criminal não são exatamente a mesma coisa.
O habeas corpus protege alguém contra ameaça ou restrição ilegal à liberdade de locomoção. Já a revisão criminal permite reexaminar determinadas condenações definitivas, inclusive quando aparecem novas provas de inocência. É principalmente por meio desse segundo caminho que Inez e os estudantes começam a trabalhar sobre o processo de Jonathan.
Esse detalhe jurídico poderia deixar a narrativa excessivamente técnica.
A série escolhe o caminho contrário.
Os autos começam a revelar pessoas, famílias, preconceitos, relações de poder e decisões tomadas rapidamente demais.
E o caso também ameaça interesses que prefeririam vê-lo definitivamente encerrado.
Habeas Corpus encontra sua tensão justamente na ideia de que admitir um erro judicial significa admitir que várias instituições podem ter falhado ao mesmo tempo.
Inez e Marina: justiça é diferente de reparação
O conflito mais interessante talvez nem esteja no tribunal.
Está entre Inez e Marina.
Para Inez, rever condenações representa uma maneira de fazer diferente.
Para Marina, isso não apaga o que aconteceu com sua mãe.
A diferença é fundamental.
Uma pessoa pode reconhecer o próprio erro, pedir perdão e tentar reparar suas consequências. Isso não obriga quem sofreu a aceitar imediatamente essa reparação.
A série encontra força nessa zona desconfortável.
Marina começa acreditando que sabe exatamente quem Inez é. Inez também acredita compreender aquilo que precisa fazer para compensar o passado.
As duas descobrirão que nenhuma dessas certezas é tão simples.
É por isso que o drama jurídico funciona também como melodrama familiar. A investigação de Jonathan acaba abrindo outro julgamento — muito menos formal — sobre culpa, perdão e responsabilidade.
A inspiração no Innocence Project Brasil ajuda a aproximar essa ficção de uma realidade concreta. A organização participou da preparação da equipe, enquanto atores e roteiristas acompanharam julgamentos e estudaram procedimentos de revisão criminal.
A Atmosfera Visual e Sonora
São Paulo tem uma presença importante em Habeas Corpus.
A produção utilizou espaços reais como a Faculdade de Direito da USP, no Largo São Francisco, a Sala São Paulo e o Instituto de Biologia. Uma residência projetada por Paulo Mendes da Rocha, no Butantã, tornou-se a casa de Murilo e Bianca.
Isso oferece à série uma textura diferente daquela de dramas jurídicos construídos quase integralmente em estúdio.
Os corredores históricos, salas revestidas de madeira e ambientes institucionais carregam a sensação de tradição. E essa tradição visual combina muito bem com uma narrativa que questiona instituições antigas e relações consolidadas de poder.
A direção de arte precisou trabalhar ao redor das limitações de edifícios tombados. Elementos de tribunal eram instalados temporariamente sem modificar a arquitetura original. As filmagens no Largo São Francisco ocorreram durante as férias acadêmicas e, em grande parte, à noite.
Há ainda uma curiosidade incomum: as cenas foram gravadas em ordem cronológica. Foram 401 páginas de roteiro, 527 cenas, 102 diárias, 72 sets e 1.871 figurantes. Essa decisão permitiu que os atores acompanhassem a transformação emocional dos personagens na mesma sequência em que o público a vê.
Na música, Antonio Pinto e Gabriel Ferreira assinam a trilha original lançada pela Netflix Music, incluindo composições como Justiça, Final e Protocolar.
O resultado é uma atmosfera que alterna o ritual solene dos tribunais com a urgência da investigação.
Quando Habeas Corpus funciona melhor visualmente, não tenta transformar o Direito em algo glamouroso. Faz justamente o contrário: deixa documentos, corredores, salas de aula e audiências revelarem quanto uma decisão burocrática pode pesar sobre uma vida.
Vale a pena assistir a Habeas Corpus?

Habeas Corpus encontra sua força quando deixa de perguntar apenas “quem cometeu o crime?” e começa a perguntar “o que fazemos quando descobrimos que ajudamos a condenar a pessoa errada?”.
Marjorie Estiano tem uma personagem que não pode buscar justiça sem olhar diretamente para os próprios erros.
Any Gabrielly recebe um conflito igualmente rico: Marina precisa descobrir se responsabilizar alguém significa necessariamente odiá-lo para sempre.
E Jonathan impede que qualquer discussão sobre culpa permaneça confortável.
Há alguém preso.
Há anos que não podem ser devolvidos.
A série também acerta ao apresentar estudantes de realidades sociais diferentes. O grupo permite observar como dinheiro, origem, conexões profissionais e acesso à educação modificam a relação das pessoas com o sistema jurídico — uma preocupação assumida pelo próprio Luiz Villaça durante o desenvolvimento da produção.
Para quem gosta de dramas de tribunal, investigação e personagens moralmente imperfeitos, Habeas Corpus oferece algo ainda pouco explorado pela ficção brasileira de streaming: um drama jurídico claramente enraizado na realidade social do país, mas conduzido pelas emoções de seus personagens.
Recomendação Prática
- Para quem é: quem gosta de dramas jurídicos, investigações criminais, histórias sobre injustiça e protagonistas femininas complexas.
- Pontos fortes: Marjorie Estiano e Any Gabrielly, o conflito entre justiça e reparação, o elenco de apoio e a utilização de espaços reais de São Paulo.
- Como maratonar: são oito episódios de 57 a 77 minutos; duas ou três sessões funcionam melhor do que assistir tudo de uma vez.
- Antes de assistir: a série aborda encarceramento, violência, corrupção e erros judiciais e possui classificação indicativa de 16 anos.
- Para prestar atenção: observe como cada personagem utiliza a palavra “justiça”. Nem todos estão falando da mesma coisa.
Assistir a Habeas Corpus pela Netflix, plataforma oficial da produção, também significa valorizar o audiovisual brasileiro e o trabalho de artistas, técnicos, pesquisadores e profissionais do Direito envolvidos na construção de uma série que transforma questões jurídicas em histórias humanas.




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