Em Dona Beja, segunda grande aposta do gênero de telenovelas produzida pela Floresta e lançada com exclusividade global no catálogo da HBO Max, a célebre figura histórica de Ana Jacinta de São José ganha contornos de pura modernidade. Inspirada na obra original de Wilson Aguiar Filho — exibida com estrondoso sucesso pela extinta Rede Manchete em 1986 —, a produção ganha uma visão renovada com argumento de Renata Jhin, adaptação dos showrunners António Barreira e Daniel Berlinsky e colaboração de Maria Clara Mattos, Cecília Giannetti, Clara Anastácia e Ceci Alves.
Sob a direção artística apurada de Hugo de Sousa — acompanhado por Bia Coelho, Rogério Sagui, Thiago Teitelroit e João Bolthauser —, a trama transporta o público para o Brasil do século XIX sem cair nas armadilhas da mera nostalgia. Dona Beja desmantela os clichês do melodrama oitocentista para estruturar uma narrativa afiada sobre vingança, autonomia feminina, corrupção institucional e a hypocrisia da sociedade patriarcal. Ao transformar o sofrimento em uma arma de ascendência social e econômica, a protagonista torna-se o símbolo definitivo de uma mulher que recusa o papel de vítima para ditar as regras do seu próprio destino.
Quem está no elenco e quais os dilemas dos personagens?

A verdadeira força motriz de Dona Beja reside no desempenho magnético do seu elenco de estrelas, que dá vida a figuras complexas, apaixonadas e moralmente cinzentas em um cenário de profundas transformações sociais:
- Ana Jacinta de São José / Dona Beja (Grazi Massafera): Em uma atuação monumental que consagra sua trajetória dramática, Grazi interpreta a jovem sonhadora de Araxá que vê seus sonhos de juventude destruídos pelo sequestro violento comandado pelo Ouvidor Motta. Após sofrer a perda do avô José Alves (Roberto Bomtempo), o abandono e o julgamento moral da sociedade, Beja passa por uma transição psicológica impressionante: transforma a dor em frieza tática, acumula fortunas e ergue a lendária Chácara do Jatobá, onde domina o jogo de poder entre os homens mais influentes do país.
- Antônio Sampaio (David Junior): O grande e eterno amor de Beja. Romântico e influenciável, Antônio é vítima das manipulações da mãe e da própria dor de acreditar que foi abandonado. Sua união com Angélica o prende a um casamento sem paixão, mantendo uma chama de ressentimento e desejo incontrolável por Beja que ameaça ruir a estabilidade da família Sampaio.
- João Mendonça (André Luiz Miranda): Homem de princípios firmes e sensibilidade ímpar, João surge como uma das figuras masculinas mais leais do caminho de Beja, oferecendo um porto seguro e um contraponto de afeto sincero em meio às intrigas da aristocracia.
- Severina Andrade (Pedro Fasanaro): A serva fiel e confidente inseparável de Beja. Severina é a mente cúmplice que auxilia a protagonista na execução de seus planos de libertação e na administração dos negócios da Chácara do Jatobá, representando a lealdade incondicional e o afeto construído na adversidade.
- Angélica Sampaio (Bianca Bin): A jovem que se casa com Antônio sob a pressão das famílias tradicionais. Angélica carrega a dor de viver à sombra do fantasma de Beja, enfrentando um matrimônio frio enquanto tenta manter a dignidade perante a sociedade conservadora de Araxá.
- Cecília Sampaio “Ceci” (Deborah Evelyn): A matriarca fria, aristocrática e manipuladora. Ceci é a personificação do preconceito da elite rural, capaz de articular as piores mentiras para afastar o filho Antônio de Beja e proteger a reputação do clã Sampaio.
- Maria Sampaio (Indira Nascimento): A invejosa e calculista rival que usa a dissimulação para destruir o reencontro entre Beja e Antônio, semeando as falsidades que mudam para sempre o curso da vida da protagonista.
- Os Representantes da Elite e do Poder: A trama é enriquecida por grandes interpretações como o libertino Ouvidor Motta (Virgílio Castelo); o intransigente Coronel Felizardo Sampaio (Tuca Andrada); o Coronel Paulo Sampaio (Bukassa Kabengele); a preconceituosa Genoveva (Isabela Garcia); Augusta da Costa Pinto (Kelzy Ecard); Cândida da Serra “Candinha” (Erika Januza); Honorato / Inácio (Gabriel Godoy); a doce Olívia Almeida (Isabelle Nassar); Fortunato (João Villa); além de participações marcantes de Otávio Müller, Werner Schünemann, Thalma de Freitas, Miguel Rômulo, George Sauma e Rita Pereira.
Ficha Técnico-Editorial de Dona Beja
| Informação | Detalhe |
| Título Original | Dona Beja |
| Argumento e Adaptação | Renata Jhin (Argumento) / António Barreira e Daniel Berlinsky (Adaptação) |
| Baseado em | Telenovela Dona Beijha (1986), de Wilson Aguiar Filho |
| Direção Artística | Hugo de Sousa |
| Elenco Principal | Grazi Massafera, David Junior, André Luiz Miranda, Pedro Fasanaro, Bianca Bin, Deborah Evelyn, Indira Nascimento, Bukassa Kabengele, Erika Januza, Gabriel Godoy, Tuca Andrada, Isabela Garcia |
| Produtora e Distribuição | Floresta / Max (Warner Bros. Discovery) |
| País de Origem / Idioma | Brasil / Português brasileiro |
| Formato / Episódios | Telenovela de Streaming / 40 episódios |
| Onde Assistir | Max |
Trama: Da dor do cativeiro à glória da Chácara do Jatobá
A narrativa de Dona Beja organiza sua densidade dramática em duas fases fundamentais que expõem a ruína e a ressurreição de sua protagonista:
1. A Violência do Rastro e a Perda da Inocência (1815)
A história começa na pacata Araxá, onde Ana Jacinta vive um amor puro e correspondido com Antônio Sampaio. A beleza arrebatadora da jovem desperta a obsessão do Ouvidor Motta, representante da Coroa que assassina o avô da garota e a sequestra para mantê-la como sua concubina. Isolada e mantida sob cativeiro de luxo, Beja tenta retornar às suas raízes, mas é vítima de uma farsa orquestrada pela cruel Maria, que a faz acreditar que Antônio a esqueceu e se casou com Angélica.
Desiludida e ferida em sua dignidade, Beja decide transformar sua condição: aprende a manipular os homens poderosos que a cercam, acumula joias e terras, e articula um esquema audacioso ao lado de Severina que envolve o próprio Imperador, resultando na prisão de Motta e na conquista de sua alforria e independência financeira.
2. O Escândalo da Chácara do Jatobá e a Guerra Contra a Elite
Ao retornar a Araxá com o título de mulher rica e dona de si, Beja depara-se com o desprezo e a hostilidade das famílias tradicionais, lideradas por mulheres como Ceci, Genoveva e Augusta. Ao confirmar que Antônio realmente se casou, Beja rompe definitivamente com os padrões morais da época e funda a Chácara do Jatobá.
O local torna-se o bordel/clube mais refinado, suntuoso e exclusivo da província, onde Beja cobra fortunas para conceder sua companhia aos homens mais influentes do país. Transformando a sedução em poder político e econômico, Beja usa a Chácara para desmascarar a hipocrisia dos coroneis locais, proteger mulheres vulneráveis como a jovem Olívia e provar que o verdadeiro poder na sociedade oitocentista estava nas mãos de quem não temia o julgamento alheio.
A Atmosfera Visual e Sonora
A direção artística de Hugo de Sousa construiu uma estética cinematográfica suntuosa que eleva a produção ao patamar das maiores obras de época do streaming global. A cenografia recria a Araxá do século XIX e os interiores suntuosos da Chácara do Jatobá com uma riqueza de detalhes impressionante: tecidos nobres, móveis em madeira de lei, iluminação a velas que cria sombras aveludadas e figurinos deslumbrantes que acompanham a evolução psicológica de Beja — transicionando dos vestidos simples de algodão da juventude para trajes majestosos em tons de vinho, dourado e esmeralda.
A fotografia utiliza uma paleta de cores quentes e sensuais que contrasta a aridez da província de Minas Gerais com o glamour intimista e provocante dos salões de recepção de Beja. A trilha sonora original combina instrumentos clássicos de época com arranjos contemporâneos e vocais intensos, acentuando a carga dramática dos confrontos, a melancolia das decepções amorosas e o triunfo de uma mulher que se fez rainha de seu próprio destino.
Vale a pena assistir a Dona Beja?
Vale cada segundo. Dona Beja é um feito memorável da teledramaturgia brasileira adaptada para os novos tempos. Ao equilibrar a paixão arrebatadora do melodrama clássico com uma linguagem ágil, moderna e profundamente feminista, a produção da Max entregou uma obra indispensável.
Com uma interpretação histórica de Grazi Massafera e um elenco coadjuvante de altíssimo nível, a novela prova que as grandes histórias do nosso patrimônio cultural continuam mais vivas, provocantes e necessárias do que nunca.
Recomendação Prática
- Para quem é: Indicado para apaixonados por grandes novelas brasileiras, dramas de época ricos em reconstituição histórica, histórias marcadas por vingança e superação feminina, e espectadores que buscam produções com atuações viscerais e direção de arte impecável.
- Pontos Fortes: Interpretação avassaladora de Grazi Massafera, roteiro afiado e dinâmico de António Barreira e Daniel Berlinsky, figurinos e cenografia de padrão internacional, e uma abordagem corajosa sobre a autonomia feminina.
- Como maratonar: Mantenha o olhar atento à transição de postura e olhar de Grazi Massafera entre a primeira e a segunda fase; a construção da linguagem corporal da personagem é o reflexo exato da dor transformada em poder.



