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Crítica de Vingança Brutal: Pierce Brosnan e Samuel L. Jackson são maiores que o faroeste ao redor deles

Vingança Brutal, disponível no Telecine, reúne Pierce Brosnan e Samuel L. Jackson num faroeste que parece ter tudo para discutir culpa, racismo, herança e as mentiras que pais deixam para os filhos. Em alguns momentos, consegue. Em outros, parece preocupado demais em chegar logo ao próximo tiroteio.

Richard Gray conhece o gênero e filma Montana com afeto evidente. O problema não está na falta de elementos, mas no excesso: ouro roubado, vingança, Guerra Civil, antigos escravizados, conflitos com a população indígena, corrupção, pais e filhos, famílias improvisadas e uma cidade inteira construída sobre um segredo. Nem tudo recebe o espaço que merece em 95 minutos.

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Brandon Lessard precisa aprender a ser protagonista diante de duas lendas

Henry Broadway é deliberadamente ingênuo. Ele conhece o pai praticamente no momento em que o acompanha até a forca e aceita como verdade a versão de Isaac sobre sua inocência. Sua jornada depende de descobrir que um homem pode ter sido incriminado por um crime específico e ainda assim ter feito coisas terríveis.

Brandon Lessard consegue sustentar a transformação, mas enfrenta uma dificuldade quase injusta: divide o filme com Pierce Brosnan e Samuel L. Jackson. Sempre que um dos dois entra em cena, Henry parece temporariamente virar espectador da própria história.

Isso não é apenas questão de fama. Brosnan e Jackson carregam décadas de presença cinematográfica e entendem exatamente como ocupar um faroeste sem precisar aumentar o volume o tempo inteiro.

Pierce Brosnan encontra humanidade em Gabriel Dove

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Imagem: Warner Bros

Gabriel Dove poderia ser apenas o xerife cansado que o gênero já produziu centenas de vezes. Brosnan encontra pequenos detalhes para torná-lo mais interessante: a forma como tenta negociar antes de sacar a arma, o cuidado com Sarah e a consciência de que manter a lei num lugar como Trinity nem sempre significa seguir literalmente aquilo que a cidade chama de justiça.

Sua confissão sobre Saul Butler é um dos melhores momentos do filme. Gabriel matou o antigo xerife para impedir a morte de uma criança, mas escondeu isso porque sabia que a verdade não necessariamente importaria para homens que transformaram Butler em símbolo.

É uma boa ideia sobre reputação no Velho Oeste: quem controla a narrativa pode continuar herói mesmo depois de morto.

Samuel L. Jackson transforma St. Christopher no personagem mais contraditório

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Imagem: Warner Bros

St. Christopher é onde o filme encontra sua ambiguidade mais interessante. Ele quer o ouro, manipula pessoas e mata para chegar até ele. Ao mesmo tempo, sua reivindicação não nasce apenas de ganância.

Christopher foi escravizado, ajudou Isaac a encontrar o tesouro e deveria receber uma parte. Isaac respondeu traindo-o e colocando-o novamente em situação de escravidão enquanto ficava com o dinheiro.

Quando Christopher diz que quer aquilo que lhe pertence, existe verdade. O problema é que anos de injustiça transformaram reparação em obsessão, e ele começa a justificar qualquer nova violência usando uma violência antiga.

Jackson sabe brincar com esse espaço. Seu personagem é engraçado, perigoso, ressentido e, por momentos, profundamente lúcido sobre a hipocrisia daqueles ao redor.

O roteiro tem uma ideia ótima sobre pais que deixam dívidas morais

Henry chega querendo honrar Isaac. Depois descobre que o pai roubou, traiu Christopher e construiu uma vida sobre dinheiro que não lhe pertencia. A vingança começa a parecer menos um dever e mais outra forma de continuar servindo a um homem que já morreu.

Essa é a melhor ideia de Vingança Brutal: filhos não escolhem o passado que recebem, mas podem escolher o que fazem com ele.

O filme acerta quando Henry entende que limpar o nome do pai não exige santificá-lo. Isaac pode ter sido vítima de uma armação e ainda assim ter sido responsável por sofrimento real.

Running Cub merecia mais do que funcionar como peça da verdade

Q’orianka Kilcher traz presença e gravidade para Running Cub, mas o roteiro frequentemente a utiliza para corrigir a versão dos homens sobre o passado. Ela sabe quem Isaac foi, conhece Henry desde criança e carrega a violência de Saul Butler contra sua família.

Há material para uma personagem muito maior ali. O problema é que a narrativa se interessa mais por aquilo que ela revela sobre Henry e Gabriel do que por aquilo que sua própria experiência poderia dizer.

Num filme que quer falar sobre quem teve direito de escrever a história do Oeste, essa limitação pesa.

O ouro funciona melhor como metáfora do que como tesouro

Quase todo mundo em Trinity acredita que o ouro vai resolver alguma coisa. Christopher quer reparação, Butler procurou poder, moradores enxergam fortuna e Henry inicialmente pensa na riqueza que poderia ter mudado a vida de sua mãe.

Quanto mais o filme avança, mais claro fica que o ouro já custou muito mais do que vale. Pessoas morreram procurando algo que Isaac escondeu e que se tornou uma espécie de pecado original da cidade.

É por isso que a melhor decisão de Henry não é encontrar o tesouro. É deixar de acreditar que precisa dele para dar sentido à própria história.

Os tiroteios são eficientes, mas ocupam espaço demais

Gray sabe organizar ação. A invasão da casa de Gabriel, o confronto com os homens de Gideon e a sequência na igreja possuem geografia compreensível e energia suficiente para funcionar como faroeste tradicional.

O problema é que o filme tem personagens e conflitos mais interessantes do que algumas dessas trocas de tiros. Sempre que uma conversa começa a complicar a moralidade de alguém, parece surgir outra urgência para levar todos de volta às armas.

Isso deixa o longa divertido, mas menos memorável do que poderia ser.

O que nos arrebatou / O que escorregou

O que nos arrebatouO que escorregou
Pierce Brosnan dando peso moral a GabrielBrandon Lessard fica pequeno diante dos veteranos
Samuel L. Jackson fazendo Christopher ser ameaça e vítimaO roteiro tenta acomodar temas demais em 95 minutos
Montana como paisagem real do faroesteRunning Cub merecia muito mais desenvolvimento
A ideia de herdar os pecados de um paiAlguns tiroteios interrompem conflitos melhores
O ouro como símbolo de violência acumuladaExplicações chegam rápidas demais na reta final

Olhar feminino: Sarah e Running Cub resistem a papéis que o roteiro quase lhes impõe

Sarah Dove poderia ser apenas “a esposa do xerife”, mas Veronica Ferres consegue mostrar uma mulher que participa das decisões, se recusa a abandonar Gabriel quando a casa será atacada e assume responsabilidade por Mabel sem transformar maternidade em obrigação automática.

Running Cub é ainda mais interessante, embora menos desenvolvida. Ela é acusada por uma cidade que precisa de uma mulher indígena culpada e sobrevive porque Gabriel decide escutar a versão que todos prefeririam ignorar.

As duas lembram que o Oeste do filme não é feito apenas pelos homens que seguram armas no centro do quadro, mesmo que o roteiro ainda lhes conceda menos espaço.

Elenco e atmosfera

O Yellowstone Film Ranch dá ao longa um senso físico importante. Lama, madeira, montanhas e clima fazem Trinity parecer uma cidade que realmente poderia ter sido construída rápido demais em cima de dinheiro e violência.

A fotografia de Thomas Scott Stanton aproveita bem as paisagens, enquanto a trilha de Marco Beltrami e Tristan Beltrami reforça o espírito clássico sem tentar reinventar completamente o gênero.

Veredito do coração

Vingança Brutal tem um faroeste mais interessante escondido dentro de si. A história de Christopher, Running Cub e Isaac poderia sustentar uma reflexão bem mais incômoda sobre quem construiu o Oeste e quem pagou por essa construção.

Richard Gray prefere manter o filme andando, e isso garante entretenimento. Pierce Brosnan e Samuel L. Jackson entregam exatamente a presença esperada, enquanto Henry encontra uma conclusão coerente ao perceber que honrar um pai não significa repetir sua violência.

É um bom faroeste de sessão, com algumas ideias melhores do que o espaço dado a elas.

Nota: 3 de 5 estrelas. ⭐⭐⭐☆☆

Pacto de respeito à arte: esta crítica analisa personagens, atuações, contexto e escolhas narrativas. Vingança Brutal está disponível legalmente no Telecine e em canais parceiros.

Magui Schneider
Magui Schneider

Editora-chefe do Minha Série Favorita e psicóloga, com foco em análise de personagens, relações, comportamento e narrativas de séries, filmes e novelas.

Artigos: 336

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