Unabomber, drama criminal disponível na Netflix desde 25 de setembro de 2026, tenta compreender como o adolescente prodígio Ted Kaczynski se transformou no homem responsável por uma campanha de atentados que matou três pessoas e feriu outras 23. Dirigido por Janus Metz e estrelado por Jacob Tremblay, Russell Crowe, Shailene Woodley e Annabelle Wallis, o filme de 1h40 alterna os anos de Kaczynski em Harvard com a investigação que levou à sua captura décadas depois.
A escolha parece promissora porque evita a biografia tradicional. Em vez de percorrer toda a vida do criminoso, o roteiro de Sam Chalsen e Nelson Greaves aproxima dois momentos: o jovem intelectualmente brilhante submetido a experiências psicológicas controversas e o homem que, anos depois, seria caçado pelo FBI.
Mas existe um problema delicado nessa aproximação.
Quanto mais o filme sugere que aquelas experiências ajudam a explicar quem Kaczynski se tornou, mais se aproxima de uma resposta sedutora demais para uma história muito mais complexa.
E foi justamente isso que mais me incomodou.
O maior problema de Unabomber é tentar encontrar uma origem organizada para algo que não foi tão simples
Ted Kaczynski realmente entrou em Harvard aos 16 anos e realmente participou, a partir de 1959, de uma pesquisa conduzida pelo psicólogo Henry Murray.
Os participantes escreviam sobre suas crenças e depois eram submetidos a interrogatórios deliberadamente hostis enquanto suas reações eram observadas e registradas. Os métodos utilizados seriam considerados eticamente inaceitáveis pelos padrões atuais.
O filme utiliza esse fato como sua principal chave psicológica.
Russell Crowe interpreta Murray como um acadêmico carismático, intelectualmente vaidoso e disposto a ultrapassar limites em nome de uma investigação sobre a personalidade humana.
Annabelle Wallis, como Christiana Morgan, assume uma posição mais inquieta diante do que está acontecendo.
Essa dinâmica é dramática.
Também é perigosa quando começa a parecer explicação.
Não existe evidência estabelecida de que os experimentos tenham causado a posterior violência de Kaczynski. Ele próprio afirmou anos depois que, embora tivesse ressentimento em relação ao estudo, não acreditava que aquela experiência tivesse produzido efeito significativo sobre aquilo que se tornou.
Isso não absolve Murray.
Uma experiência abusiva continua sendo abusiva independentemente do que uma vítima faça décadas mais tarde.
Mas há uma diferença fundamental entre perguntar “isso pode ter contribuído?” e responder “foi assim que ele se tornou o Unabomber”.
O filme nem sempre preserva suficientemente essa distância.
Trauma pode ajudar a compreender uma história. Não pode ser utilizado como atalho para transformar responsabilidade em destino inevitável.
É aqui que Unabomber perde parte da complexidade que sua própria premissa prometia.
Jacob Tremblay consegue mostrar a juventude de Ted Kaczynski, mas nem sempre sua transformação

A escalação de Jacob Tremblay é provavelmente a decisão mais provocativa do filme.
Estamos acostumados a associar o ator a personagens cuja juventude produz empatia quase imediata. Janus Metz afirmou justamente ter buscado nele vulnerabilidade e inteligência para representar Kaczynski ainda adolescente. Tremblay, por sua vez, disse ter evitado interpretar o personagem como uma caricatura.
A intenção aparece na tela.
O jovem Ted parece deslocado.
É intelectualmente avançado, mas emocionalmente despreparado para um ambiente universitário no qual quase todos são mais velhos.
Tremblay transmite bem essa sensação de inadequação.
O problema surge quando o roteiro precisa transformar desconforto em radicalização.
A interpretação frequentemente permanece no mesmo registro de tensão, irritabilidade e retraimento. Sentimos a vulnerabilidade, mas não necessariamente a progressiva reorganização ideológica que transformaria isolamento em uma justificativa para a violência.
E isso importa muito.
Porque conhecer o sofrimento de alguém não equivale a compreender por que essa pessoa decide fazer outras sofrerem.
O Ted apresentado pelo filme passa por experiências perturbadoras.
Mas existe um vazio entre esse adolescente e o homem que começaria a enviar bombas em 1978.
É precisamente o vazio que a produção tenta preencher — e que nunca consegue preencher de maneira convincente.
Russell Crowe é o personagem mais fascinante justamente porque Henry Murray também deveria ser questionado
Crowe trabalha melhor quando Murray deixa de parecer simplesmente o cientista maligno responsável por destruir um jovem.
Há uma vaidade intelectual interessante na interpretação.
O professor acredita estar produzindo conhecimento importante.
E talvez essa seja uma das dimensões mais perturbadoras de qualquer abuso cometido dentro de uma instituição respeitada: o responsável pode acreditar sinceramente que possui uma justificativa superior para aquilo que está fazendo.
Murray não precisa odiar seus participantes.
Basta acreditar que sua pesquisa vale mais do que os limites deles.
Essa dinâmica me parece muito mais rica do que transformá-lo na origem psicológica de um futuro terrorista.
Uma instituição se torna especialmente perigosa quando pessoas inteligentes começam a acreditar que sua inteligência as coloca acima da obrigação de respeitar outras pessoas.
Gostaria que o filme permanecesse mais tempo nesse conflito.
Porque o comportamento de Murray merece ser interrogado independentemente de Kaczynski.
Shailene Woodley e o problema de transformar uma investigação coletiva em uma heroína conveniente
A segunda linha narrativa acontece décadas depois.
Shailene Woodley interpreta a agente do FBI Joanne Miller, determinada a identificar o homem por trás dos atentados através de seus textos.
Existe um detalhe essencial: Joanne Miller é uma personagem fictícia. A própria Netflix a identifica assim em seus materiais sobre o elenco.
A criação não é, por si só, um problema.
Cinema frequentemente condensa pessoas e funções para organizar histórias complexas.
O problema está no efeito.
A investigação real foi uma operação extensa envolvendo diferentes órgãos, agentes e especialistas. Um dos momentos decisivos ocorreu depois da publicação do manifesto de Kaczynski, quando seu irmão David forneceu documentos escritos por Ted. A comparação linguística ajudou a sustentar o mandado que levou à busca da cabana em Montana e à prisão em 1996.
Ao concentrar esse percurso em Joanne, Unabomber oferece uma investigação mais fácil de acompanhar.
Também a torna muito mais convencional.
Temos a investigadora intuitiva.
Os colegas resistentes.
A descoberta que confirma que ela estava certa.
Woodley consegue transmitir determinação e exaustão, mas sua personagem parece escrita a partir de uma fórmula familiar.
Curiosamente, o filme cria uma mulher para simplificar uma investigação real e, ao mesmo tempo, não lhe oferece profundidade suficiente para justificar essa mudança.
O olhar feminino em Unabomber: duas mulheres que poderiam ter sido muito mais interessantes

Joanne e Christiana ocupam lados diferentes da história.
Uma investiga as consequências.
A outra presencia parte do processo que o filme associa às origens.
Existe potencial nessa simetria.
Christiana Morgan poderia representar o conflito de alguém que participa de uma estrutura de pesquisa e começa a questionar os métodos utilizados.
Joanne poderia representar a dificuldade de investigar não apenas um criminoso, mas a linguagem através da qual ele tenta justificar seus próprios atos.
Infelizmente, ambas acabam principalmente servindo aos homens ao redor.
Christiana ajuda a revelar Murray.
Joanne ajuda a revelar Ted.
Isso deixa uma sensação de oportunidade perdida.
Annabelle Wallis e Shailene Woodley possuem presença suficiente para oferecer outras camadas, mas o roteiro raramente permite que suas personagens existam plenamente fora das funções necessárias para conduzir as duas linhas narrativas.
Por trás das câmeras: Harvard é mais interessante visualmente do que a caçada do FBI
A direção de Janus Metz, cineasta de Borg vs. McEnroe e All the Old Knives, encontra seu melhor material na década de 1950.
A fotografia de Yves Bélanger utiliza interiores escuros, madeira, salas fechadas e uma iluminação que transforma Harvard em um espaço simultaneamente prestigioso e ameaçador.
O contraste funciona bem.
A universidade representa excelência.
Também é o lugar onde um jovem vulnerável aceita participar de algo cujas consequências não consegue antecipar.
As cenas dos experimentos são deliberadamente desconfortáveis. Microfones, equipamentos, observadores e a sensação de estar sendo analisado transformam o ambiente em um espaço de exposição.
Já a parte ambientada nos anos 1990 assume uma estética muito mais conhecida de investigação policial.
Escritórios.
Documentos.
Quadros.
Conversas sobre evidências.
É justamente nessa diferença que as duas metades começam a parecer filmes diferentes.
A montagem de Zach Staenberg alterna períodos procurando construir relações temáticas, mas nem sempre uma narrativa realmente complementar.
A trilha de Marco Beltrami reforça o suspense sem transformar o longa em espetáculo.
Isso é importante.
Unabomber poderia facilmente cair no fascínio visual pelo criminoso.
Na maior parte do tempo, evita essa tentação.
Vale a pena assistir a Unabomber? O filme é mais interessante pelas perguntas que não consegue responder
O longa possui apenas 1h40, e talvez esse seja parte do problema.
Há duas histórias importantes competindo por espaço.
Uma quer discutir formação psicológica, instituições acadêmicas, isolamento e radicalização.
A outra quer ser um thriller sobre uma investigação histórica.
Nenhuma recebe tempo suficiente para atingir todo o potencial.
A linha de Harvard é mais provocativa porque nos coloca diante de uma pergunta ética real.
A investigação funciona como mecanismo narrativo, mas raramente produz grande suspense porque já conhecemos seu resultado.
E talvez o filme pudesse assumir isso de maneira mais corajosa.
Não precisamos perguntar quem é o Unabomber.
Precisamos perguntar por que continuamos procurando uma explicação simples para aquilo que ele fez.
Entre 1978 e 1995, Kaczynski realizou uma campanha de atentados que matou três pessoas e feriu 23. O FBI o prendeu em abril de 1996 depois de quase duas décadas de investigação.
Nenhuma experiência universitária transforma automaticamente uma pessoa em alguém que escolhe construir e enviar bombas.
O filme sabe disso intelectualmente.
Mas, dramaticamente, às vezes parece esquecer.
O raio-X do Minha Série Favorita
| O que nos arrebatou | O que escorregou |
|---|---|
| Russell Crowe e a ambiguidade de Henry Murray | A relação entre os experimentos e a radicalização é simplificada demais |
| A atmosfera das sequências em Harvard | As duas linhas temporais parecem pouco integradas |
| A decisão de mostrar Kaczynski ainda adolescente | Jacob Tremblay nem sempre consegue transmitir a transição para algo mais ameaçador |
| A discussão sobre ética em pesquisas psicológicas | Joanne Miller é uma personagem funcional demais |
| O cuidado em evitar transformar os atentados em espetáculo | A investigação do FBI segue caminhos bastante convencionais |
O veredito do coração: Unabomber merece entrar na sua lista da Netflix?

- NOTA: 3 de 5 estrelas. Selo Minha Série Favorita: um drama intrigante sobre radicalização que faz a pergunta certa, mas se apressa demais para encontrar uma resposta.
Unabomber tem uma premissa muito mais interessante do que o filme que finalmente entrega.
Russell Crowe encontra a figura mais complexa da história.
Jacob Tremblay transmite juventude e inadequação, embora não consiga preencher sozinho as lacunas deixadas pelo roteiro.
Shailene Woodley faz o possível com uma personagem criada para organizar uma investigação muito mais ampla do que o longa admite.
Recomendo especialmente para quem gosta de dramas baseados em fatos reais, histórias criminais e produções sobre psicologia, radicalização e investigações do FBI.
Mas assistiria com uma ressalva importante.
A experiência de Kaczynski em Harvard é documentada.
A relação causal entre aquela experiência e seus crimes, não.
E talvez seja justamente aí que uma obra sobre um homem como ele precise ser mais cuidadosa.
Compreender contexto é necessário.
Buscar fatores que contribuíram para uma trajetória também.
Mas existe um momento em que procurar a origem de alguém pode nos fazer esquecer algo fundamental:
nenhuma ferida explica completamente a decisão de transformar outras pessoas em vítimas.


