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Crítica de Uma Chamada Perdida: a ligação ainda assusta, mas o remake perdeu parte da alma do original

Uma Chamada Perdida, disponível em streaming no Brasil, tem uma ideia que continua funcionando quase vinte anos depois: receber no próprio celular uma mensagem gravada no futuro com o som da própria morte. É simples, imediatamente compreensível e muito adequada a um tipo de medo que mudou de aparelho, mas não desapareceu — o de receber uma notificação que gostaríamos de nunca ter aberto.

O remake de 2008, dirigido por Eric Valette, sabe explorar essa premissa em alguns momentos eficientes. O problema é que transforma uma história originalmente estranha, triste e ambígua em algo mais explicado, mais limpo e, paradoxalmente, menos assustador.

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A melhor coisa de Uma Chamada Perdida ainda é a própria chamada

Imagem: Warner Bros. Pictures Brasil

Existe alguma coisa profundamente incômoda em ouvir sua própria voz dizendo palavras que você ainda não disse. O filme entende isso. As primeiras mortes funcionam porque o espectador aprende rapidamente as regras: uma mensagem chega, há uma data, existe um som de morte e ninguém consegue impedir o horário de chegar.

O celular, objeto banal e íntimo, passa a parecer contaminado. É um medo muito ligado à época em que o filme foi feito, quando toques personalizados e correio de voz tinham uma presença cotidiana maior, mas a sensação sobreviveu perfeitamente à era das notificações.

Shannyn Sossamon dá a Beth mais fragilidade do que o roteiro oferece

Shannyn Sossamon interpreta Beth como alguém que já conhecia o medo antes de qualquer telefone tocar. O passado de abuso materno impede que a investigação sobrenatural seja apenas uma sequência de pistas. Quando Beth encontra a família Layton, ela reconhece ali uma forma de violência que entende pessoalmente.

Essa aproximação poderia ter se tornado o coração do filme. Há uma conexão forte entre duas histórias de crianças feridas dentro de casa e adultos que não perceberam a verdade a tempo.

Mas o roteiro prefere avançar para a próxima aparição sobrenatural antes de permanecer tempo suficiente nessa ferida.

O olhar feminino encontra vítimas, mães e filhas — mas não aprofunda nenhuma delas

A trama é cheia de mulheres marcadas por violência: Beth, sua mãe, Marie, Laurel, Ellie e as jovens que recebem as chamadas. Isso poderia produzir uma reflexão mais forte sobre ciclos de abuso, proteção e silêncio.

Em vez disso, o remake frequentemente usa essas relações como mecanismo de mistério. Primeiro suspeitamos de Marie. Depois descobrimos Ellie. Beth reconhece traços de sua própria infância. Tudo isso existe, mas quase sempre a serviço da próxima revelação.

É uma pena porque o filme tem, escondida dentro da estrutura de terror comercial, uma história muito mais triste do que assustadora.

Edward Burns funciona melhor como aliado do que como investigador

Imagem: Warner Bros. Pictures Brasil

Edward Burns interpreta Jack Andrews, o único policial que acredita em Beth. A motivação é simples e eficiente: sua irmã morreu dentro da mesma corrente de chamadas.

A parceria entre Jack e Beth evita transformar a protagonista na mulher “histérica” que precisa convencer todos os homens ao redor. Pelo menos alguém escuta.

Por outro lado, a investigação é conduzida com uma praticidade que reduz parte do mistério. Cada pista conduz quase imediatamente à seguinte, e a história raramente permite que o horror permaneça inexplicável por muito tempo.

O remake explica demais aquilo que o J-horror deixava apodrecer no silêncio

A comparação com o filme de Takashi Miike é inevitável. O original japonês também tinha humor estranho, melodrama e uma trama bastante elaborada, mas preservava uma sensação de desconforto que não dependia tanto de monstros aparecendo em quadro.

A versão de Valette acrescenta imagens sobrenaturais, figuras distorcidas e manifestações mais explícitas. O resultado pode funcionar para quem prefere sustos visuais, mas enfraquece a ideia mais assustadora da história: talvez não exista nenhuma explicação capaz de nos proteger.

O programa de TV é o momento mais absurdo — e talvez o mais divertido

Quando uma possível vítima é colocada diante das câmeras de um programa televisivo para tentar impedir a morte anunciada, Uma Chamada Perdida flerta com uma sátira da exploração midiática.

A cena é exagerada, barulhenta e quase parece pertencer a outro filme. Ainda assim, há alguma coisa interessante na ideia de transformar a iminência de uma morte em espetáculo ao vivo, cercado por especialistas e câmeras que continuam incapazes de controlar o sobrenatural.

Elenco e atmosfera: o som assusta mais do que a imagem

O toque da chamada é mais memorável do que boa parte das criaturas digitais. Isso diz muito sobre onde o filme funciona melhor. Som, expectativa e repetição constroem uma ameaça; quando a produção tenta materializar demais o medo, ele perde força.

Sossamon sustenta a vulnerabilidade de Beth, Burns oferece uma presença estável e Ana Claudia Talancón ganha uma das sequências mais tensas do longa. O elenco não é o problema. O excesso de explicação é.

O que nos arrebatou e o que escorregou

O que nos arrebatouO que escorregou
A premissa continua excelente: ouvir no celular a própria morte futura.O remake explica e mostra demais, reduzindo parte da inquietação.
O toque e o desenho de som criam uma identidade forte.As imagens sobrenaturais são menos assustadoras do que o que imaginamos.
Shannyn Sossamon encontra vulnerabilidade em Beth.O trauma familiar da protagonista poderia ter sido explorado com mais profundidade.
A ligação entre Marie, Laurel e Ellie guarda uma boa reviravolta.Comparado ao original japonês, o final é mais simples e menos perturbador.

Uma Chamada Perdida ainda vale a pena?

Vale para quem gosta da fase dos remakes americanos de J-horror dos anos 2000 e para quem prefere um terror sobrenatural com regras claras, investigação e mortes marcadas pelo relógio.

Quem já viu o original de Takashi Miike provavelmente perceberá o que se perdeu na tradução. Mas existe um prazer muito específico em revisitar esse tipo de horror tecnológico: celulares de outra época, mensagens de voz e uma ansiedade que hoje seria substituída por uma notificação na tela.

Veredito do Coração

⭐⭐⭐ 3/5

Uma Chamada Perdida tem uma premissa melhor do que sua execução, mas ainda conserva cenas eficientes e uma ideia que envelheceu melhor do que muitos dos efeitos. O telefone mudou. O medo de receber uma mensagem impossível, não.

Magui Schneider
Magui Schneider

Editora-chefe do Minha Série Favorita e psicóloga, com foco em análise de personagens, relações, comportamento e narrativas de séries, filmes e novelas.

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