Lupin Parte 4, disponível na Netflix, entende uma coisa que a série precisava aprender depois de três partes: Assane Diop pode ser brilhante demais para quase todo mundo, mas não pode continuar vencendo a própria família no truque.
Omar Sy continua magnético. Os golpes estão maiores, a tecnologia entra no jogo e Paris volta a funcionar como palco de espetáculo. Mas a temporada fica melhor quando para de perguntar “como ele vai escapar?” e começa a perguntar “o que ficou quebrado enquanto ele escapava?”.
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Lupin Parte 4 transforma a fama de Assane numa armadilha

Assane começa preso e, pela primeira vez, parece disposto a aceitar uma consequência. Ele quer cumprir a pena, sair e levar Raoul ao Senegal. É quase uma versão doméstica de um sonho impossível: parar.
Então alguém começa a roubar em nome de Lupin.
A ideia é ótima porque transforma a própria lenda de Assane contra ele. Durante anos, ele construiu uma identidade baseada em desaparecer, reaparecer, trocar de rosto e provar que a imagem pode mentir. Agora, deepfakes e tecnologia tornam essa lógica pública. Se qualquer rosto pode ser fabricado, como provar inocência quando sua reputação já diz que você é capaz de tudo?
Omar Sy continua sendo o truque que nunca envelhece
É difícil imaginar a série sem Omar Sy. Ele faz Assane parecer leve mesmo quando a trama exige matemática demais para explicar um golpe. Seu carisma funciona como distração narrativa: enquanto estamos olhando para o sorriso, o personagem já moveu três peças.
Na Parte 4, porém, Sy também precisa sustentar um homem cansado. Assane continua brilhante em campo, mas emocionalmente está sempre atrasado. Ele sabe prever policiais, guardiões e rivais. Não sabe prever o que quatro anos de ausência fizeram com o filho.
Raoul é a consequência que Assane não consegue despistar
É fácil olhar para a traição de Raoul no final e tratá-la como uma virada absurda. Mas a temporada trabalha justamente para mostrar que o ressentimento do filho não nasceu em oito episódios.
Raoul cresceu admirando o pai e pagando o preço dos jogos dele. Foi sequestrado. Viu Claire sofrer. Conviveu com desaparecimentos e promessas interrompidas. Quando Assane volta e imediatamente precisa correr atrás de outro mistério, o padrão recomeça.
A chegada de Adèle piora tudo porque Raoul vê o pai oferecendo atenção a uma filha recém-descoberta enquanto ele ainda carrega anos de ausência. Sua decisão é extrema, mas emocionalmente não nasce do nada.
Adèle é uma ótima ideia porque moderniza o método Lupin
Laïka Blanc-Francard chega como Adèle e introduz uma versão tecnológica do jogo. Assane sempre dependeu de observação, teatro, próteses, disfarces e manipulação humana. Adèle acrescenta drones, holografia, deepfakes e invasões digitais.
Ela não apenas imita Lupin. Atualiza Lupin.
Isso poderia transformar a temporada numa coleção de gadgets, mas a revelação familiar dá peso ao recurso. Assane não está apenas diante de alguém que copiou seus truques. Está diante de alguém que herdou sua inteligência sem ter herdado sua presença.
Claire e Benjamin são a prova de que a vida continuou
A relação entre Claire e Benjamin é uma das escolhas mais interessantes da temporada porque não existe para punir Assane.
Quatro anos são quatro anos. As pessoas que ficaram do lado de fora precisaram construir uma vida. A série permite que Claire tenha esse direito sem transformá-la em traidora e permite que Benjamin ame a mesma mulher sem destruir automaticamente a amizade com Assane.
Há dor, mas também maturidade. Isso torna o conflito muito mais humano do que um triângulo amoroso tradicional.
O olhar feminino: Claire e Adèle não existem só para orbitar Assane
A série ainda é profundamente organizada ao redor de Assane, mas a Parte 4 dá mais espaço para mulheres que sofreram as consequências de suas decisões.
Claire não está congelada no passado esperando que ele volte. Juliette retorna com escolhas próprias. Adèle entra não como interesse romântico, mas como herdeira de um conflito familiar. Sofia Belkacem deixa de ser apenas policial perseguindo Assane e se torna parte concreta do preço pago quando seus jogos escapam do controle.
A temporada não se torna subitamente uma história feminina, mas melhora quando reconhece que o homem mais carismático da sala não é a única pessoa com uma vida acontecendo.
O espetáculo ficou maior — e às vezes grande demais

Há perseguições, fugas impossíveis, Torre Eiffel, cavalo, joias históricas e tecnologia suficiente para transformar certos episódios quase em missão de espionagem.
É divertido. Também é onde a série corre o risco de perder parte da elegância que a fez funcionar no começo.
Os melhores truques de Lupin sempre foram aqueles que pareciam óbvios depois que Assane explicava. Quando a temporada depende demais de tecnologia ou de logística gigantesca, o prazer do “como não percebi?” às vezes vira simplesmente “claro, ele tinha outro plano”.
O que nos arrebatou e o que escorregou
| O que nos arrebatou | O que escorregou |
|---|---|
| Omar Sy continua irresistível como Assane. | Alguns golpes dependem de explicações e tecnologias grandes demais. |
| A transformação da fama de Lupin numa arma contra o próprio protagonista. | O espetáculo às vezes engole a elegância dos truques menores. |
| Raoul finalmente ganha conflito próprio e deixa de ser apenas “o filho a proteger”. | A radicalidade de algumas decisões de Raoul pode soar abrupta para parte do público. |
| Adèle moderniza a linguagem dos golpes e acrescenta peso familiar. | Oito episódios dão mais espaço, mas também deixam alguns desvios narrativos longos. |
O final é o melhor golpe da temporada
Assane passa a temporada inteira tentando descobrir quem está usando seu nome. No fim, o golpe mais doloroso não vem do imitador, dos guardiões ou de Pellegrini.
Vem de Raoul.
E isso funciona porque não existe disfarce capaz de resolver uma relação quebrada. Assane pode escapar de prisões, manipular câmeras e roubar um tesouro. Não consegue obrigar o filho a confiar nele.
Quando se coloca na frente do tiro para proteger Raoul, a série finalmente transforma o instinto paterno em algo maior do que promessa. O problema é que pode ser tarde demais.
Veredito do Coração
⭐⭐⭐⭐ 4/5
Lupin Parte 4 está maior, mais tecnológica e mais próxima do blockbuster, mas encontra sua melhor versão quando devolve Assane às consequências emocionais de sua própria genialidade. Omar Sy continua fazendo o impossível parecer fácil. A temporada melhora justamente quando mostra que família nunca foi um truque fácil.
Pacto de Respeito à Arte
Esta crítica contém spoilers moderados da Parte 4, especialmente sobre relações familiares. Para a identidade do imitador, a traição de Raoul e o destino de Assane, consulte nosso Final Explicado.
Lupin está disponível legalmente na Netflix. O Minha Série Favorita incentiva o consumo de filmes e séries pelos canais oficiais.




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