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Crítica de Você + Eu: Contra o Mundo | O romance é menos interessante que a liberdade de Alma

Você + Eu: Contra o Mundo, disponível no Prime Video, parece inicialmente interessado em contar uma história conhecida: uma garota criada dentro de uma vida perfeita conhece um rapaz que representa tudo aquilo que lhe ensinaram a evitar.

Mas há um filme mais interessante escondido dentro desse romance. Ele aparece quando Alma deixa de olhar para Vadim e começa, ainda que silenciosamente, a olhar para si mesma.

Porque a verdadeira rebeldia de Alma Lancaster não é se apaixonar pelo garoto errado. É descobrir que talvez não queira ser a mulher certa que sua família decidiu criar.

E é justamente quando Você + Eu: Contra o Mundo percebe isso que deixa de ser apenas mais uma adaptação jovem sobre atração proibida.

O problema é que percebe tarde demais — e abandona essa ideia cedo demais.

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Alma é muito mais interessante quando Vadim não está no centro da história

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Imagem: Prime Video

Existe uma diferença enorme entre ter uma vida confortável e ter controle sobre a própria vida.

Alma vive exatamente dentro desse intervalo.

Há dinheiro, oportunidades e uma família capaz de oferecer aquilo que, olhando de fora, parece segurança. Mas segurança também pode se transformar em prisão quando vem acompanhada da certeza de que alguém já decidiu quem você deverá ser.

É nesse aspecto que Vittoria Di Savoia encontra a melhor versão da personagem.

Sua Alma funciona menos quando precisa reagir às grandes turbulências do roteiro e muito mais nos momentos em que percebemos uma menina acostumada a administrar expectativas. Existe nela aquela cautela de quem aprendeu que desejar alguma coisa diferente pode significar decepcionar alguém.

Por isso, esconder da família sua escolha pelo cinema importa mais do que parece.

Não é simplesmente uma mentira criada para movimentar a trama.

É uma experiência de autonomia.

Alma está testando como seria possuir uma vida que pertence somente a ela.

E então aparece Vadim.

Vadim representa liberdade antes de se tornar um homem por quem Alma se apaixona

Lucas Barski recebe uma função difícil.

Vadim precisa ser personagem e símbolo ao mesmo tempo.

Para Alma, ele representa inicialmente aquilo que ela não consegue ser: alguém aparentemente pouco preocupado em corresponder às expectativas alheias. Existe uma desordem em Vadim que deveria assustá-la, mas também existe algo sedutor na possibilidade de viver sem pedir autorização.

O filme entende muito bem essa atração em nível conceitual.

Em nível emocional, nem sempre.

Barski possui presença suficiente para sustentar a imagem do rapaz fechado, imprevisível e ferido que o roteiro deseja construir. O problema está no espaço oferecido para descobrir o que existe debaixo dessa imagem.

Vadim permanece misterioso por tempo demais.

Mistério é útil quando desperta curiosidade. Torna-se uma limitação quando substitui personalidade.

Em alguns momentos, conhecemos mais aquilo que Vadim representa para Alma do que conhecemos Vadim propriamente.

E uma história de amor precisa fazer as duas coisas.

Alma e Vadim têm química, mas intimidade exige mais do que atração

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Imagem: Prime Video

Há atração entre Vittoria Di Savoia e Lucas Barski.

A proximidade física funciona. Os olhares funcionam. O filme sabe enquadrá-los como duas pessoas que querem diminuir rapidamente a distância entre seus corpos.

O problema aparece depois.

Você + Eu: Contra o Mundo consegue convencer de que Alma deseja Vadim antes de conseguir convencer de que Alma conhece Vadim.

Não é a mesma coisa.

Existe algo verdadeiro na intensidade das paixões jovens justamente porque elas frequentemente começam antes de qualquer conhecimento profundo do outro. Não seria razoável exigir uma relação cuidadosamente amadurecida de dois personagens que estão descobrindo desejo, identidade e liberdade.

Ainda assim, o roteiro pede algo maior.

O próprio título transforma os dois em uma espécie de unidade: você e eu contra o mundo.

Para chegar a esse lugar emocional, precisamos perceber em algum momento quando o desejo virou confiança, quando a curiosidade virou intimidade e quando aquela pessoa que parecia fascinante passou a ser alguém cuja ausência realmente produziria perda.

Essas transições acontecem.

Mas nem sempre são sentidas.

A história avança mais rápido do que a intimidade.

Vittoria Di Savoia é melhor quando Alma não precisa explicar o que sente

Este é o primeiro papel protagonista de Vittoria Di Savoia em um longa-metragem, e há algo curioso na escolha porque Alma exige justamente uma personagem vivendo entre aquilo que apresenta ao mundo e aquilo que guarda.

Di Savoia é mais convincente quando trabalha nesse espaço.

Há uma contenção que combina com Alma. Ela consegue transmitir o desconforto de alguém que deseja se mover, mas ainda olha para trás para verificar quem poderá desaprovar o próximo passo.

Nem todas as cenas oferecem material suficiente para essa sutileza.

Quando o roteiro transforma conflitos internos em acontecimentos que precisam ser rapidamente resolvidos, a personagem perde um pouco da ambiguidade que a torna interessante.

Ainda assim, é Alma quem deixa a marca mais consistente do filme.

E talvez exista aí uma pequena ironia: uma história vendida como o grande romance de Alma e Vadim encontra sua personalidade justamente quando permite que Alma exista sem precisar ser definida por Vadim.

O suspense deveria aumentar a sensação de perigo — mas acaba roubando espaço do romance

Existe alguém ameaçando essa relação.

No papel, é uma ótima escolha.

A ameaça deveria fazer algo além de criar expectativa. Ela poderia funcionar como manifestação externa de tudo aquilo que Alma e Vadim já carregam internamente: segredos, medo de exposição, famílias, passado e a possibilidade de perder aquilo que acabaram de encontrar.

Só que Você + Eu: Contra o Mundo não integra completamente essas duas histórias.

Durante alguns momentos, estamos acompanhando um romance de formação. Em outros, parece que outro filme bate à porta exigindo que nos lembremos de que existe um perigo maior circulando por ali.

O suspense entra e sai.

E, ao fazer isso, ocupa minutos que poderiam aprofundar justamente aquilo cuja destruição deveríamos temer: o vínculo entre Alma e Vadim.

É um paradoxo.

Quanto mais o roteiro tenta convencer de que existem forças dispostas a separar os dois, mais evidente fica a necessidade de construir melhor aquilo que está sendo ameaçado.

O perigo é maior quando sabemos exatamente o que está em jogo.

O filme quer falar sobre liberdade, mas confunde liberdade com fuga algumas vezes

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Imagem: Prime Video

Essa talvez seja a parte mais interessante de Você + Eu: Contra o Mundo.

Alma deseja liberdade.

Vadim parece livre.

São coisas diferentes.

Aos poucos, percebemos que fugir de vínculos não significa necessariamente estar livre deles. Algumas pessoas carregam justamente aquilo de que tentam escapar.

A família de Alma exerce controle pela proximidade. O passado de Vadim exerce controle mesmo à distância.

Isso poderia aproximá-los de uma maneira muito mais profunda do que simplesmente “somos diferentes e nos desejamos”.

Ambos estão tentando descobrir quem são quando retiramos as pessoas que lhes disseram quem deveriam ser.

Existe um ótimo romance escondido aí.

Um romance sobre duas pessoas que se reconhecem não porque são opostas, mas porque estão igualmente tentando sobreviver às versões de si mesmas construídas pelos outros.

O roteiro toca nessa ideia.

Nunca permanece nela tempo suficiente.

A direção de Manon Gaurin encontra beleza com mais facilidade do que profundidade

Visualmente, o filme sabe exatamente o universo que deseja habitar.

Manon Gaurin trabalha com uma linguagem jovem, atraente e romântica. Há uma preocupação evidente em construir imagens capazes de transmitir intensidade mesmo quando o roteiro não consegue fazê-lo sozinho.

Funciona muitas vezes.

Em outras, essa beleza começa a parecer compensação.

Música, enquadramentos e montagem tentam elevar determinadas emoções antes que os personagens tenham produzido essas emoções por conta própria.

Não é um problema desejar beleza num romance. Pelo contrário.

Romances vivem também de fantasia.

Mas uma imagem bonita potencializa aquilo que já existe; dificilmente substitui aquilo que ainda não foi construído.

E Você + Eu: Contra o Mundo frequentemente parece estar a uma ou duas cenas de conversa de se tornar significativamente melhor.

Faltava um pouco menos de urgência.

Um silêncio maior.

Uma conversa que pudesse continuar depois da primeira resposta.

Um momento em que Alma e Vadim simplesmente existissem juntos sem que o roteiro precisasse empurrá-los para o próximo acontecimento.

O maior problema de Você + Eu: Contra o Mundo é querer chegar rápido demais ao “contra o mundo”

Talvez seja esta a síntese do filme.

Ele tem pressa de transformar Alma e Vadim em uma grande história.

E uma grande história de amor não precisa necessariamente de muito tempo. Há filmes capazes de construir intimidade em minutos.

Precisa, porém, de escolhas.

Pequenos gestos.

Contradições.

Descobertas.

Aquela sensação de que duas pessoas começaram a enxergar uma na outra coisas que ninguém mais percebe.

Você + Eu: Contra o Mundo possui fragmentos disso.

O suficiente para que entendamos por que Alma é atraída por Vadim. O suficiente para que alguns momentos entre os dois funcionem. E o suficiente, inclusive, para desejar que a história diminuísse a velocidade e permanecesse ali.

Só não é suficiente para transformar cada declaração de intensidade emocional em algo igualmente intenso para quem assiste.

Vale a pena assistir Você + Eu: Contra o Mundo?

Sim, especialmente para quem gosta de romances jovens, personagens de universos sociais diferentes e histórias em que amar alguém também significa confrontar expectativas familiares.

Mas eu entraria no filme por Alma.

O romance entrega momentos agradáveis e Vittoria Di Savoia e Lucas Barski conseguem produzir atração juntos, embora o roteiro não lhes ofereça tempo suficiente para transformar toda essa atração em intimidade.

O suspense é a parte mais frágil. Surge como promessa de perigo, mas nunca se mistura ao romance de maneira completamente orgânica.

Ainda assim, há alguma coisa sincera na história de uma jovem que percebe que viver segundo os desejos dos outros também pode ser uma forma silenciosa de desaparecer.

É nesse ponto que Alma me interessa.

Não quando escolhe Vadim.

Mas quando finalmente considera a possibilidade de escolher a si mesma.

E talvez Você + Eu: Contra o Mundo fosse um filme muito melhor se tivesse confiado um pouco mais nessa garota — e um pouco menos na necessidade de colocar o mundo inteiro contra ela.

Nota: 3 de 5 estrelas. ⭐⭐⭐☆☆

Magui Schneider
Magui Schneider

Editora-chefe do Minha Série Favorita e psicóloga, com foco em análise de personagens, relações, comportamento e narrativas de séries, filmes e novelas.

Artigos: 265

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