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Crítica de Verity: Anne Hathaway entende o jogo, mas o suspense tropeça nas próprias mentiras

Verity chega aos cinemas brasileiros em 1º de outubro de 2026, colocando Anne Hathaway, Dakota Johnson e Josh Hartnett dentro de uma casa onde desejo, morte e literatura deveriam tornar impossível distinguir verdade de manipulação. Dirigido por Michael Showalter e adaptado por Nick Antosca do best-seller de Colleen Hoover, o longa tem 1h54 e assume sem pudor sua mistura de suspense psicológico, romance tóxico e thriller erótico.

A ideia é deliciosa.

Uma escritora quase falida recebe uma proposta que pode salvar sua carreira. Precisa terminar os livros de uma autora famosa que, depois de um grave acidente, já não consegue trabalhar.

Então encontra um manuscrito que talvez seja uma confissão.

Ou talvez seja ficção.

E se apaixona pelo marido da mulher sobre quem está lendo coisas monstruosas.

O problema de Verity não está em ser exagerado. Um filme desses deveria abraçar o exagero.

Está em não conseguir decidir se deseja ser perturbador, sensual, perversamente engraçado ou intelectualmente esperto. Quando tenta ser tudo ao mesmo tempo, frequentemente termina parecendo menos perigoso do que imagina.

Ainda assim, existe alguém se divertindo muito dentro daquela casa.

Seu nome é Anne Hathaway.

Anne Hathaway entende que Verity Crawford não deveria ser interpretada com moderação

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Imagem: Sony Pictures

Verity Crawford construiu uma carreira escrevendo histórias sombrias pela perspectiva de personagens moralmente perturbadores.

Depois de um acidente de carro, passa a viver aparentemente incapaz de falar ou se movimentar.

É assim que Lowen Ashleigh, interpretada por Dakota Johnson, encontra a autora quando aceita trabalhar como sua ghostwriter.

O desafio para Anne Hathaway é curioso.

Durante boa parte da narrativa presente, Verity quase não pode se expressar.

Mas continua dominando a casa.

Um olhar parece suspeito.

Um movimento pode ter acontecido.

Lowen começa a duvidar daquilo que vê.

E quando o manuscrito encontrado no escritório permite que a história volte ao passado, Hathaway finalmente recebe liberdade para construir outra Verity.

Sedutora.

Vaidosa.

Cruel.

Teatral.

Talvez monstruosa.

Talvez apenas uma escritora brilhante em fabricar monstros.

O terceiro texto crítico fornecido por você considera Hathaway praticamente a salvação do filme e destaca justamente sua capacidade de usar timing, expressão corporal e pequenas mudanças no rosto para transformar até alguns sustos em momentos eficientes.

Concordo com essa leitura.

Hathaway percebe algo que o filme deveria compreender melhor: Verity fica mais interessante quanto menos tentamos torná-la plausível.

Há um prazer quase camp em sua atuação.

Ela parece saber que está dentro de uma história na qual tudo deve ser um pouco grande demais.

E se permite brincar com isso.

Em outro filme, a escolha poderia parecer excessiva.

Aqui, é justamente o excesso que mantém alguma energia circulando.

Dakota Johnson deveria ser nossa porta de entrada — mas Lowen parece distante demais da própria obsessão

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Imagem: Sony Pictures

Lowen está financeiramente desesperada quando recebe a oportunidade.

Jeremy Crawford, interpretado por Josh Hartnett, oferece uma quantia capaz de mudar sua vida para que ela conclua a série literária da esposa.

A proposta já seria tentadora.

Jeremy também é bonito, disponível emocionalmente e vive em uma casa construída para fazer qualquer pessoa questionar suas decisões afetivas.

Lowen aceita.

Depois encontra o material que muda tudo.

Segundo a descrição oficial brasileira, ela descobre anotações autobiográficas perturbadoras atribuídas a Verity e começa a tentar separar ficção de realidade, manipulação de atração e oportunidade de obsessão.

Esse deveria ser o território perfeito para Dakota Johnson.

Lowen não precisa ser explosiva.

Ela precisa ser alguém que vai sendo absorvida.

Uma mulher que começa observando Verity e termina quase reorganizando a própria identidade ao redor dela.

Johnson consegue transmitir curiosidade e estranhamento.

Mas falta progressão.

Em vários momentos, sua conhecida atuação contida funciona como distância emocional justamente quando a história precisava demonstrar que Lowen está se tornando incapaz de olhar para aquela família sem projetar seus próprios desejos.

O problema não é uma personagem silenciosa.

É uma obsessão que raramente parece verdadeiramente obsessiva.

Quando uma protagonista está disposta a destruir os limites entre verdade, desejo e interesse próprio, precisamos sentir que alguma coisa dentro dela está queimando. Lowen permanece morna por tempo demais.

Isso se torna especialmente evidente nas cenas com Hathaway.

Verity parece estar criando diferentes versões de si mesma mesmo quando não fala.

Lowen deveria responder tornando-se igualmente difícil de decifrar.

Não acontece com a mesma intensidade.

O manuscrito de Verity deveria ser a coisa mais assustadora da história

A grande arma narrativa do livro de Colleen Hoover permanece no centro da adaptação.

Lowen encontra um manuscrito autobiográfico escondido entre o material de Verity.

Nele, lê revelações sobre o relacionamento com Jeremy, a maternidade e acontecimentos familiares devastadores.

A versão cinematográfica transforma essas páginas em flashbacks.

Essa é uma escolha inevitável.

Ficar duas horas assistindo Dakota Johnson ler seria uma experiência bastante diferente.

Mas existe um problema.

No romance, o leitor precisa decidir quanto acredita naquilo que está lendo.

O texto é o perigo.

No cinema, quando aquilo ganha corpos, imagens e interpretações, começamos a assistir às supostas memórias como acontecimentos.

A ambiguidade muda de natureza.

O filme tenta recuperar essa dúvida lembrando constantemente que Verity é escritora.

Uma profissional especializada em entrar na cabeça de personagens terríveis.

Mas o roteiro não desenvolve suficientemente uma das ideias mais fascinantes da obra:

um escritor pode produzir uma voz convincente sem que aquela voz seja sua.

Esse deveria ser o pesadelo de Lowen.

Ela é escritora também.

Portanto, deveria compreender melhor do que qualquer outra pessoa que colocar algo no papel não significa confessar.

Ao mesmo tempo, sabe que textos podem revelar coisas que nem sempre admitimos conscientemente.

Esse conflito é muito mais interessante do que simplesmente perguntar se Verity é má.

Infelizmente, o filme frequentemente prefere a segunda opção.

A Força do Olhar Feminino e das Conexões Humanas: Lowen não quer apenas Jeremy — ela quer ocupar o lugar de Verity

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Imagem: Sony Pictures

Existe um triângulo amoroso evidente.

Lowen.

Jeremy.

Verity.

Mas considero que o relacionamento mais interessante da história nem sequer é exatamente romântico.

É aquele estabelecido entre as duas mulheres.

Lowen entra naquela casa para ocupar profissionalmente o lugar de Verity.

Vai escrever seus personagens.

Estudar suas anotações.

Imitar sua voz literária.

Dormir sob seu teto.

Conviver com seu marido.

Conhecer seu filho.

E, gradualmente, começa também a desejar partes daquela vida.

É por isso que reduzir Verity a uma história sobre uma mulher apaixonada pelo marido de outra desperdiça seu melhor conflito.

Lowen deseja tornar-se indispensável dentro de um espaço que já pertence a alguém.

Enquanto isso, Verity está fisicamente presente.

Observando.

Talvez entendendo tudo.

Existe algo quase gótico nisso.

Lowen acredita estar investigando Verity, quando talvez esteja lentamente permitindo que Verity passe a organizar a maneira como ela pensa.

O filme inclusive intensifica essa ligação em relação ao livro.

Uma cena íntima envolvendo as duas mulheres nasceu durante o processo criativo de Anne Hathaway e Dakota Johnson e não existe da mesma forma na obra original, segundo Michael Showalter.

A mudança é interessante porque torna explícita uma tensão já presente na premissa.

Desejo e identidade começam a se misturar.

Lowen não está simplesmente tentando entender Verity.

Há fascínio.

Competição.

Repulsa.

Curiosidade.

Talvez até inveja.

Esse é o filme que eu gostaria que Verity tivesse coragem de ser durante mais tempo.

Josh Hartnett é sedutor o suficiente para entendermos o problema — mas Jeremy permanece conveniente demais

Josh Hartnett interpreta Jeremy com uma combinação de luto, gentileza e atração cuidadosamente calculada.

É fácil entender por que Lowen olha duas vezes.

E três.

O personagem precisa sustentar uma tarefa complicada: ser simultaneamente o homem pelo qual duas mulheres parecem dispostas a reorganizar suas vidas e alguém sobre quem deveríamos manter dúvidas.

Hartnett oferece presença física e um certo cansaço emocional que funciona.

Mas Jeremy também sofre com o roteiro.

Muitas vezes, ele existe principalmente para ser desejado.

Quando a história exige que a relação com Lowen avance, ele está disponível.

Quando precisa alimentar suspeitas sobre Verity, oferece contexto.

Quando o mistério necessita de novas dúvidas, seu comportamento muda de temperatura.

O filme quer que o enxerguemos como homem enlutado e objeto de desejo.

Falta torná-lo uma pessoa tão imprevisível quanto as duas mulheres ao seu redor.

E isso prejudica o triângulo.

Porque, em algum momento, começamos a nos perguntar por que Verity e Lowen parecem tão fascinadas por Jeremy quando claramente existe uma relação psicologicamente muito mais interessante acontecendo entre elas.

Por Trás das Câmeras: Elenco e Atmosfera Audiovisual

Michael Showalter já havia dirigido Anne Hathaway em Uma Ideia de Você, de 2024.

Aqui, troca o romance pela promessa de um thriller erótico.

O roteiro é de Nick Antosca, e Hathaway também participa da produção. Dakota Johnson aparece entre os produtores executivos. O elenco inclui ainda Brady Wagner, como Crew, e Ismael Cruz Córdova.

A melhor decisão estética está na casa dos Crawford.

Bonita demais.

Organizada demais.

Fria demais.

É o tipo de residência luxuosa que progressivamente deixa de parecer confortável e começa a lembrar um cenário construído para esconder algo.

A neve e o isolamento reforçam a sensação de confinamento.

A câmera encontra corredores, portas, escadas e enquadramentos capazes de sugerir que alguém talvez esteja observando.

Funciona.

O problema é que atmosfera não substitui progressão.

Uma das críticas fornecidas por você descreve o ritmo como excessivamente lento e observa que grande parte do filme depende de Lowen lendo o manuscrito enquanto acontecimentos dramaticamente carregados são explicados.

Essa lentidão pesa especialmente porque Verity não é um suspense contemplativo.

É uma história construída sobre revelações.

Precisava avançar como alguém virando páginas às duas da manhã contra o próprio bom senso.

A adaptação raramente produz essa urgência.

Verity é fiel ao livro de Colleen Hoover?

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Imagem: Sony Pictures

Em estrutura geral, bastante.

O romance original foi publicado independentemente em 2018 e posteriormente adquirido pela Grand Central Publishing, chegando a uma edição comercial da editora em 2021. A trama acompanha Lowen recebendo o trabalho de completar os livros de Verity, mudando-se temporariamente para a casa dos Crawford e encontrando uma autobiografia inacabada com revelações perturbadoras.

Mas existem alterações.

Michael Showalter afirmou que Colleen Hoover deu liberdade para que a adaptação cortasse ou acrescentasse elementos desde que preservasse a essência da história.

O filme também transforma alguns detalhes familiares e introduz momentos que não aparecem originalmente no livro, inclusive a aproximação física entre Lowen e Verity citada anteriormente.

Não considero a fidelidade o problema.

Na verdade, talvez Verity precisasse se afastar ainda mais do livro.

Cinema e literatura produzem ambiguidade de maneiras diferentes.

Quando a adaptação simplesmente reproduz acontecimentos, herda também fragilidades estruturais que poderiam ter sido reconstruídas.

O próprio terceiro texto enviado por você considera que Showalter permanece preso demais às batidas do romance, limitando a possibilidade de transformar o material em algo verdadeiramente divertido ou camp.

É uma leitura que faz sentido.

O filme parece perceber o absurdo.

Mas raramente confia nele.

O Raio-X do Minha Série Favorita

O que nos arrebatouO que escorregou
Anne Hathaway entendendo exatamente o tipo de filme em que estáO ritmo lento para uma história construída sobre revelações
A casa dos Crawford como espaço de ameaça e desejoDakota Johnson excessivamente distante em momentos decisivos
A tensão psicológica entre Verity e LowenJeremy recebe menos complexidade do que o triângulo precisava
Algumas escolhas assumidamente exageradasReviravoltas levantam perguntas que o roteiro não responde bem
A premissa sobre ficção, confissão e autoriaA adaptação explora pouco o que significa uma escritora interpretar o texto de outra
O potencial de thriller eróticoO filme hesita entre camp, suspense sério e melodrama

Vale a pena assistir a Verity?

  • NOTA: 2,5 de 5 estrelas. Selo Minha Série Favorita: um suspense com uma premissa irresistível, uma Anne Hathaway deliciosamente perigosa e um roteiro que jamais se torna tão perturbador quanto acredita ser.

Eu queria gostar mais de Verity.

A casa é ótima.

A premissa é excelente.

Anne Hathaway claramente decidiu aproveitar cada segundo em que poderia ser ameaçadora, sensual ou simplesmente estranha.

Josh Hartnett compreende a função sedutora de Jeremy.

E existe uma ideia genuinamente interessante na relação entre duas escritoras que começam a invadir o espaço uma da outra.

Mas o longa nunca encontra totalmente sua identidade.

É sério demais para abraçar completamente o prazer do absurdo.

Superficial demais para ser um estudo psicológico realmente perturbador.

E pouco sensual para funcionar plenamente como thriller erótico.

Dakota Johnson possui momentos interessantes, especialmente quando Lowen ainda observa aquela família com distância.

Mas, conforme a personagem precisa ser consumida pela obsessão, sua contenção deixa de parecer escolha e começa a diminuir a temperatura do filme.

Anne Hathaway segue pelo caminho contrário.

Quanto mais absurda a situação fica, mais ela parece entender o que deveria fazer.

É por isso que Verity permanece minimamente divertido mesmo quando a lógica começa a desmoronar.

Recomendo principalmente para leitoras de Colleen Hoover, fãs de Anne Hathaway e quem gosta de thrillers domésticos recheados de desejo, segredos e personagens pouco confiáveis.

Não espere outro Garota Exemplar.

Talvez seja justamente essa comparação que mais prejudique o filme.

Verity funciona melhor quando esquecemos a possibilidade de grande sofisticação e aceitamos entrar naquela casa apenas para observar três pessoas bonitas tomarem decisões progressivamente piores.

Ainda assim, a pergunta no centro da história continua ótima: se uma escritora descreve algo monstruoso com detalhes suficientes para nos fazer acreditar, isso revela quem ela é — ou apenas prova que sabe escrever?

A verdade mais interessante de Verity talvez seja justamente esta: quando desejamos muito acreditar numa determinada versão de alguém, qualquer texto pode começar a parecer uma confissão.

Magui Schneider
Magui Schneider
Artigos: 214

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