Todos Menos Você, disponível na Netflix, não possui qualquer interesse em convencer o público de que reinventou a comédia romântica.
Isso é uma qualidade.
Existe algo quase libertador em assistir a um filme que aceita sem constrangimento que duas pessoas bonitas podem discutir durante uma hora e meia, fingir que não se desejam e terminar correndo uma em direção à outra.
O gênero já fez isso muitas vezes.
Will Gluck sabe.
Nós sabemos.
O filme sabe que sabemos.
A questão passa a ser outra: ainda é gostoso assistir?
Na maior parte do tempo, sim.
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Sydney Sweeney e Glen Powell não precisam convencer que se odeiam

Talvez este seja o segredo e também a fraqueza de Todos Menos Você.
Bea e Ben nunca parecem realmente capazes de se odiar.
E isso destrói um pouco a premissa enquanto fortalece o romance.
Sydney Sweeney e Glen Powell funcionam melhor quando o roteiro para de exigir antagonismo e simplesmente permite que os dois ocupem o mesmo espaço.
Existe facilidade física entre eles.
Um sabe quando provocar o outro.
Powell é especialmente confortável nesse registro. Ben é construído como um homem que prefere parecer superficial a admitir que alguma coisa o atingiu de verdade, e o ator compreende muito bem como fazer arrogância parecer uma defesa.
Sweeney trabalha numa frequência mais contida. Sua Bea não possui a mesma explosão cômica, mas ganha quando a personagem precisa revelar insegurança por baixo da ironia.
O casal funciona menos como “inimigos” e muito mais como duas pessoas ofendidas demais para admitir que gostaram uma da outra.
É bem mais humano.
O filme entende que desejo também faz parte de uma comédia romântica
Há outra coisa que Todos Menos Você recupera sem pedir desculpas:
seus protagonistas desejam um ao outro.
Isso parece óbvio.
Nem sempre é.
Durante um período em que várias produções românticas passaram a tratar atração física quase como detalhe inconveniente, Gluck coloca corpos, nudez, constrangimento sexual e desejo no centro da brincadeira.
Nem tudo é elegante.
Algumas piadas insistem mais do que deveriam.
Mas existe uma sensualidade adulta que ajuda o namoro falso a fazer sentido. Se Bea e Ben fossem completamente indiferentes fisicamente, o plano seria apenas absurdo.
Como evidentemente não são, cada demonstração falsa de afeto carrega uma pergunta simples:
quanto disso ainda é atuação?
Sydney é o terceiro integrante do romance

Poucos filmes recentes foram tão descaradamente interessados em tornar uma cidade desejável.
A Austrália de Todos Menos Você é azul.
É ensolarada.
É feita de praias, barcos, casarões e horizontes impossivelmente limpos.
Não há qualquer tentativa de esconder o cartão-postal.
O exagero combina com o gênero.
Comédia romântica sempre dependeu de uma certa fantasia: apartamentos grandes demais, coincidências convenientes demais, empregos flexíveis demais, cidades bonitas demais.
Will Gluck apenas troca Nova York por Sydney e assume o artifício.
É difícil assistir à sequência no porto sem compreender que o cenário está fazendo metade do trabalho emocional.
E não há nada de errado nisso.
O roteiro é muito mais frágil quando precisa explicar por que Bea e Ben não estão juntos
A melhor cena do filme talvez seja também a mais simples:
o primeiro encontro.
Bea e Ben conversam.
Gostam um do outro.
A noite avança naturalmente.
Então chega a manhã e o roteiro precisa separá-los.
É aí que surgem os mal-entendidos.
Bea foge porque fica assustada.
Ben se sente rejeitado e fala algo cruel.
Ela escuta.
Meses de hostilidade nascem de alguns minutos em que ninguém se comporta como adulto o suficiente para fazer uma pergunta.
Isso faz parte da tradição do gênero.
Também continua sendo uma fragilidade.
O filme repete esse mecanismo mais tarde. Sempre que Bea e Ben chegam perto demais de uma conversa definitiva, aparece outra informação pela metade, outro gesto mal interpretado ou outra frase ouvida no momento errado.
Funciona porque queremos vê-los juntos.
Não porque o conflito seja especialmente convincente.
Os personagens ao redor do casal sabem exatamente em que filme estão
Uma das melhores escolhas é não transformar os coadjuvantes em pessoas realistas demais.
Halle, Claudia, Pete, Roger e os pais de Bea percebem o que está acontecendo muito antes dos protagonistas.
E começam a interferir.
Falam alto demais para serem ouvidos.
Criam situações.
Empurram duas pessoas adultas uma para a outra como se fossem crianças incapazes de reconhecer o próprio desejo.
É teatral, ridículo, e é exatamente o tom certo.
O filme perde alguma energia quando tenta dar peso emocional demais a essas manobras, mas recupera quando lembra que todos ali participam de uma grande brincadeira romântica.
Unwritten é uma piada que acaba revelando alguma coisa sobre Ben
No início, a obsessão de Ben por Unwritten parece apenas uma forma de humilhar o homem confiante interpretado por Glen Powell.
É uma ótima piada porque retira dele a pose.
O sujeito que passa o filme tentando parecer emocionalmente invulnerável precisa ouvir Natasha Bedingfield quando entra em pânico.
Mas a música cresce junto com a história.
No fim, ela já não é apenas motivo de vergonha.
É algo que o grupo inteiro abraça.
Talvez seja a síntese perfeita do filme.
Uma coisa que seria fácil considerar cafona passa a funcionar justamente porque ninguém tenta escondê-la.
Todos Menos Você vale a pena?

Vale, principalmente se você gosta de comédias românticas e não exige que cada uma delas invente uma nova maneira de duas pessoas se apaixonarem.
O roteiro é previsível.
Algumas piadas são exageradas.
A profundidade emocional nunca acompanha totalmente a atração física entre os protagonistas.
Mas Sydney Sweeney e Glen Powell têm presença suficiente para carregar a fantasia, e Will Gluck entende que uma boa rom-com também precisa permitir que o público queira estar naquele casamento, naquela praia e, por aproximadamente cem minutos, naquele mundo.
Todos Menos Você não salva o gênero.
O gênero não precisava ser salvo.
Precisava apenas de alguém disposto a fazê-lo sem vergonha.
Nota: 3,5 de 5 estrelas. ⭐⭐⭐½☆




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