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Crítica de Sterling Point: a melhor história de amor da série não é um romance

Crítica de Sterling Point: entre triângulos amorosos e segredos de família, a relação entre Annie e Ramona é o verdadeiro coração da série.

Sterling Point, disponível no Prime Video, chega disfarçada de série que quer saber qual rapaz Annie vai escolher.

Não é essa a história mais interessante.

Rory e Ellis importam.

Os beijos importam.

O verão canadense ajuda bastante.

Mas o centro emocional da série de Megan Park está em duas garotas que passam boa parte da temporada tentando descobrir se podem chamar uma à outra de irmã.

É aí que Sterling Point deixa de ser apenas mais um romance jovem bonito à beira de um lago.

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Ella Rubin faz Annie parecer cansada de ser competente

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Imagem: Prime Video

Annie Jacobson é o tipo de adolescente que aprendeu cedo a organizar a vida.

Estuda.

Planeja.

Cuida.

Resolve.

E provavelmente diria que gosta disso.

Ella Rubin encontra muito bem a tensão escondida nessa personalidade.

Annie não parece simplesmente ambiciosa.

Parece uma jovem que transformou eficiência em mecanismo de sobrevivência.

Se tudo estiver sob controle, talvez nada desapareça outra vez.

O problema é que Sterling Point foi praticamente construída para retirar dela qualquer possibilidade de controle.

Ali, cartas aparecem.

Pessoas mentem.

Famílias se reorganizam.

Sentimentos não obedecem à agenda.

E Rubin é melhor justamente quando Annie tenta permanecer funcional enquanto alguma certeza desmorona por dentro.

Ramona não é apenas o mistério que Annie precisa resolver

Seria fácil transformar Ramona em uma pista com pernas.

A garota misteriosa.

A pessoa que sabe coisas.

O segredo que vai revelar o passado de Goldie.

Amélie Hoeferle impede isso.

Ramona possui raiva própria.

Humor.

Carência.

Vergonha.

E uma relação complicada com abandono que existe independentemente da investigação de Annie.

O melhor que a série faz é permitir que as duas deixem de se enxergar como respostas.

Annie não é a chave para a origem de Ramona.

Ramona não é a chave para a mãe de Annie.

Em algum momento, tornam-se apenas duas jovens descobrindo uma à outra.

É muito mais bonito.

A série entende que família não é uma equação de DNA

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Imagem: Prime Video

Sterling Point fala bastante sobre filiação.

Pais biológicos.

Pais adotivos.

Avôs.

Guardiões.

Filhos criados por pessoas que não compartilham seu sangue.

E pessoas biologicamente relacionadas que nunca tiveram a oportunidade de formar uma família.

Seria muito fácil transformar cada revelação genética numa resposta definitiva.

A série faz algo melhor.

Cada nova informação torna as relações mais confusas.

Não menos.

DNA pode explicar de onde alguém veio.

Não explica automaticamente quem esteve presente.

Essa distinção dá peso às relações de Annie, Connor, Ramona, Steven, Joe e Gordon sem reduzir parentalidade a uma surpresa de teste genético.

O triângulo amoroso funciona quando deixa de parecer competição

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Imagem: Prime Video

Há Rory.

Há Ellis.

Existe, naturalmente, a expectativa de escolha.

Mas o roteiro é mais interessante quando os dois homens representam experiências diferentes, não placares diferentes.

Rory reconhece uma parte de Annie.

Ele entende ansiedade, cobrança, expectativa e aquela sensação de que existe sempre uma próxima etapa que precisa ser conquistada.

Ellis oferece outra coisa.

Presença.

Ele não parece exigir que Annie tenha uma resposta preparada.

Talvez por isso algumas das melhores cenas entre os dois aconteçam quando quase nada está acontecendo.

Dormir na praia.

Consertar alguma coisa.

Sentar ao lado de alguém num momento ruim.

A química com Jacob Whiteduck-Lavoie não depende tanto de grandes declarações.

Depende do silêncio que Annie normalmente não consegue tolerar.

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Imagem: Prime Video

Oona e Ramona ganham um romance que não precisa explicar a própria existência

A relação entre Oona e Ramona também é tratada com uma naturalidade que faz bem à série.

Não existe um grande anúncio de que agora começará uma “trama LGBT”.

A atração aparece.

As duas se aproximam.

Se machucam.

Reagem com inseguranças bastante reconhecíveis.

A sexualidade não é apagada.

Também não é transformada na única coisa que define essas personagens.

Bo Bragason dá a Oona uma leveza que, aos poucos, revela medo de abandono. Quando isso finalmente colide com a necessidade de Ramona de descobrir um mundo maior do que Sterling Point, o romance encontra sua parte mais dolorosa.

A improvisação dá vida — e às vezes bagunça a série

Megan Park encorajou os atores a improvisar.

Isso aparece.

Há diálogos que parecem acontecer pela primeira vez diante da câmera.

Personagens se atropelam.

Algumas piadas parecem ter sido descobertas no momento.

Esse frescor ajuda muito uma série adolescente.

Também cobra um preço.

Nem toda cena encontra o mesmo ritmo.

Às vezes o episódio parece abandonar uma ideia que havia acabado de apresentar.

Há momentos em que a espontaneidade começa a se confundir com falta de acabamento.

Curiosamente, prefiro esse risco ao oposto.

É melhor assistir a jovens que parecem um pouco desorganizados do que a adolescentes que falam como roteiristas adultos tentando provar que conhecem a geração deles.

Sterling Point sabe que juventude também pode ser leve

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Imagem: Prime Video

Existe uma tendência em séries adolescentes recentes de provar maturidade acumulando violência, abuso, drogas, morte e sofrimento.

Sterling Point não ignora dor.

Há luto.

Abandono.

Famílias escondendo verdades.

Ansiedade.

Mas existe também água.

Sol.

Festas.

Pessoas fazendo coisas idiotas porque têm 17 anos.

A série acredita que amadurecimento não precisa acontecer somente depois de um trauma extremo.

Às vezes acontece numa conversa longa demais no píer.

Essa escolha torna o drama mais acolhedor sem torná-lo vazio.

O mistério familiar é eficiente, embora algumas respostas dependam demais do silêncio

A temporada precisa esconder coisas.

É parte da proposta.

Nem sempre esconde de maneira elegante.

Existem momentos em que uma resposta poderia surgir se alguém simplesmente fizesse a pergunta mais óbvia para a pessoa certa.

Isso gera tensão artificial.

O roteiro também depende bastante de cartas, gravações, documentos e revelações adiadas.

Quando funciona, temos a sensação gostosa de montar uma história familiar pedaço por pedaço.

Quando não funciona, sentimos a mão dos roteiristas retirando uma informação da sala porque ainda faltam três episódios.

É a principal fragilidade de uma temporada que, emocionalmente, costuma ser muito mais sofisticada do que seu mistério.

O Canadá não é apenas cenário de férias

Muskoka é fotografada como um lugar bonito.

Seria estranho não fazer isso.

Mas o valor da paisagem está na maneira como ela muda o ritmo dos personagens.

Na cidade, Annie sabe qual é o próximo passo.

Na ilha, existe tempo.

Tempo para ficar sem resposta, para perceber outra pessoa, e para sentir saudade de alguém que ela achava que conhecia.

A série entende algo muito simples sobre adolescência:

alguns verões parecem durar anos quando estamos vivendo.

Vale a pena assistir Sterling Point?

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Imagem: Prime Video

Sim.

E não porque reinventou o drama jovem.

Ela utiliza muitos elementos conhecidos: ilha paradisíaca, triângulo amoroso, segredos familiares, pais que mentiram, festas e um verão capaz de mudar tudo.

A diferença está na delicadeza com que observa os personagens depois das grandes revelações.

Ella Rubin e Amélie Hoeferle são o coração da série.

Podemos discutir Rory ou Ellis.

Podemos torcer por Ramona e Oona.

Mas a relação que realmente transforma a temporada é aquela entre Annie e Ramona.

Duas jovens passam oito episódios tentando entender de onde vieram.

E acabam descobrindo que talvez família seja menos sobre encontrar a resposta certa

e mais sobre decidir quem você quer levar junto quando a resposta finalmente chega.

Nota: 4 de 5 estrelas. ⭐⭐⭐⭐☆

Magui Schneider
Magui Schneider

Editora-chefe do Minha Série Favorita e psicóloga, com foco em análise de personagens, relações, comportamento e narrativas de séries, filmes e novelas.

Artigos: 301

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