Profundezas, disponível na Netflix, coloca uma criatura gigantesca debaixo da água e passa seis episódios tentando nos convencer de que devemos ter medo dela.
Mas o grande acerto da série é perceber que existem coisas bem mais assustadoras em terra firme.
Uma comunidade pode morrer sem que nenhum monstro a ataque.
Basta que os peixes desapareçam.
Que os filhos partam, que as casas percam valor, e que ficar pareça irracional e sair pareça uma traição.
É nesse lugar que a série de Jesse McKeown encontra personalidade própria.
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Josh Hartnett interpreta um homem que confunde permanência com sobrevivência

Calvin Penney acredita que ficar é resistir.
Essa convicção é tão forte que quase deixa de importar se existe futuro real para Snooks Arm.
Josh Hartnett trabalha muito bem esse tipo de homem: contido, teimoso, afetivamente desajeitado.
Calvin ama os filhos.
Só nem sempre sabe amá-los sem tentar decidir por eles.
Quer manter a família junta, a cidade viva, o barco funcionando. E quer manter o passado.
É muita coisa para segurar com as duas mãos.
Por isso a criatura funciona tão bem como elemento psicológico.
O oceano obriga Calvin a encarar uma ideia que ele passa a vida tentando evitar:
nem tudo pode ser preservado.
O melhor terror de Profundezas nasce do que não vemos
Os primeiros capítulos compreendem muito bem o poder da água.
Um monstro terrestre precisa ser escondido.
O mar faz isso sozinho.
A câmera olha para uma superfície escura e nossa imaginação termina o trabalho.
Uma sombra.
Uma coisa arrastada.
Uma marca que não deveria estar num corpo humano.
Um iceberg que parece errado.
A série é particularmente eficiente enquanto ainda não temos linguagem para explicar aquilo.
Não é coincidência que parte da crítica tenha associado o projeto a Tubarão.
O medo não está apenas na criatura.
Está na espera.
E toda vez que Profundezas confia nessa espera, funciona muito bem.
Mackenzie Davis impede que a cientista vire simplesmente “a mulher que sabe das coisas”
Existe um risco enorme em personagens como Fonda.
Séries de criatura adoram introduzir um cientista para dizer:
“Isso é impossível.”
Depois:
“Meu Deus, eu estava errada.”
E finalmente:
“Precisamos matá-lo.”
Mackenzie Davis recebe material melhor.
Fonda possui curiosidade científica, mas também consciência de que estudar alguma coisa e dominá-la são coisas diferentes.
Sua relação com Calvin nunca precisa ser empurrada artificialmente para um romance.
Há proximidade, respeito, e há duas pessoas solitárias encontrando alguma coisa familiar uma na outra.
Mas a série entende que um homem e uma mulher adultos podem compartilhar seis episódios sem que todo olhar precise imediatamente virar beijo.
É refrescante.
Charlie Heaton é provavelmente o personagem mais divertido da temporada
Wade poderia ser irritante.
Frequentemente está a alguns centímetros de ser.
Charlie Heaton, porém, encontra uma combinação muito particular de carência, autoconfiança injustificada, humor e vulnerabilidade.
Wade não é apenas “o filho estranho”.
É alguém que sente que todo mundo já foi embora sem ele.
Os irmãos saíram.
O pai nunca parece confiar realmente nele.
A cidade não oferece muitas possibilidades.
Quando aparece algo — ou alguém — capaz de fazê-lo sentir escolhido, entendemos por que ele se agarra a isso.
Até quando sabemos que deveria correr.
Terra Nova não funciona como cartão-postal

Talvez uma das melhores decisões da produção tenha sido filmar no próprio lugar sobre o qual deseja falar.
Há beleza.
Mas não aquela beleza organizada para turismo.
O mar parece frio.
As pedras parecem difíceis.
As casas parecem construídas porque alguém precisava viver ali, não porque um designer queria uma composição bonita.
O elenco também trabalhou com moradores e atores locais para compreender o sotaque e a cultura da região. A Reuters destacou justamente a importância dessa presença local para a autenticidade da produção.
Isso importa porque Snooks Arm precisa parecer um lugar pelo qual alguém realmente brigaria.
E parece.
Quando a série explica demais, o medo diminui
Existe uma regra ingrata no terror:
todo mistério perde alguma coisa quando ganha nome.
Profundezas não escapa.
Quanto mais descobrimos, mais o horror cede espaço para aventura, conspiração, ecologia, relações familiares e até uma estranha comédia folclórica.
Não considero essa transformação necessariamente ruim.
Mas é perceptível.
A série das últimas horas não é exatamente a mesma dos primeiros episódios.
Quem entrar esperando terror pesado até o fim talvez se frustre.
A própria recepção crítica ficou dividida justamente aí: alguns encontraram charme nessa mistura de criatura, humor e comentário ambiental; outros sentiram que a narrativa perde tensão conforme acumula explicações e tramas.
Eu fico no meio.
Gosto mais da série quando ela é estranha do que quando tenta ser grandiosa.
A “velha bruxa” é uma boa amostra do humor estranho da série
Existe uma lenda de Terra Nova conhecida como Old Hag, associada à experiência de sentir uma presença sobre o corpo durante o sono.
A série pega essa imagem e brinca com nossas expectativas.
O que poderia virar uma sequência puramente aterrorizante passa para um território muito mais absurdo, engraçado e desconfortável.
É uma escolha que resume bem a personalidade de Profundezas.
Ela quer que tenhamos medo.
Mas não leva a própria monstruosidade tão a sério a ponto de perder o senso de humor.
Nem sempre a mistura funciona.
Quando funciona, torna a produção muito mais memorável do que um suspense marítimo genérico.
A criatura é uma metáfora melhor quando deixa de ser vilã
Sem entrar no desfecho, a série está muito mais interessada em coexistência do que em conquista.
Calvin começa a história acreditando que aquilo que existe no oceano destruiu sua vida.
A pergunta que surge depois é mais interessante:
e se aquilo também estiver apenas tentando sobreviver?
É aqui que a preocupação ambiental deixa de ser decoração.
O aquecimento do oceano, o desaparecimento dos peixes e a exploração dos recursos não são assuntos colocados ao lado da história do monstro.
São a história do monstro.
Às vezes o roteiro sublinha isso um pouco demais.
Ainda assim, há alguma elegância na ideia de que uma criatura marinha gigantesca pode ser menos predatória do que pessoas olhando para uma comunidade e calculando quanto existe de dinheiro embaixo dela.
O olhar feminino aparece mais na ciência do que no drama doméstico
Fonda é a personagem feminina mais interessante porque possui uma função própria.
Ela não existe como filha de Calvin.
Não existe como esposa.
Não existe como prêmio.
Sua relação com a criatura é intelectual, ética e eventualmente emocional.
Mary, Ruth e Jan têm funções importantes, mas boa parte da dimensão familiar continua organizada em torno de Calvin.
Isso faz sentido porque ele é protagonista.
Ainda assim, é Fonda quem oferece a série um olhar verdadeiramente diferente: enquanto os homens tendem a perguntar “como derrotamos isso?”, ela insiste primeiro em descobrir o que é isso?
A diferença parece pequena.
Salva vidas.
Profundezas vale a pena?

Sim.
Não é uma grande obra de terror.
Também não é simplesmente Tubarão com uma criatura diferente.
É uma produção esquisita, regional, por vezes engraçada e frequentemente bonita sobre pessoas tentando permanecer num lugar que talvez esteja desaparecendo.
Josh Hartnett sustenta Calvin sem procurar simpatia fácil.
Mackenzie Davis oferece inteligência sem frieza.
Charlie Heaton encontra uma comicidade muito particular.
E Terra Nova parece tão importante quanto qualquer pessoa no elenco.
O último terço talvez explique coisas que seriam mais assustadoras se permanecessem parcialmente inexplicadas.
Mas existe uma ideia muito bonita no centro da série:
às vezes passamos tanto tempo procurando o monstro no escuro que não percebemos aquilo que está destruindo nossa casa em plena luz do dia.
Nota: 3,5 de 5 estrelas. ⭐⭐⭐½☆




[…] Crítica de Profundezas: o monstro menos assustador da série talvez seja aquele que vive no mar↗ […]