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Crítica de Carrie – A Estranha: Mike Flanagan encontra humanidade onde talvez devesse haver um pouco mais de raiva

Carrie – A Estranha, disponível no Prime Video, tem uma pergunta escondida atrás de todas as outras: quantas vezes uma pessoa precisa ser machucada antes que paremos de perguntar por que ela finalmente machucou alguém?

Mike Flanagan olha para Carrie White e sente compaixão.

Olha para sua mãe e procura trauma.

Olha para as garotas que a humilham e procura medo, famílias quebradas e necessidade de aceitação.

Essa capacidade de encontrar humanidade em monstros sempre foi uma das maiores qualidades do diretor.

Desta vez, também pode ser seu problema.

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Summer H. Howell nos faz querer proteger Carrie antes de temê-la

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Imagem: Prime Video

A primeira grande decisão acertada está em Summer H. Howell.

Sua Carrie não entra na escola carregando antecipadamente a aura de uma tragédia.

Ela tem curiosidade.

Sorri.

Descobre coisas.

Quer participar.

É quase doloroso perceber o quanto pequenos gestos de gentileza significam para uma menina que cresceu sem o vocabulário emocional necessário para entender o mundo.

Howell nunca transforma ingenuidade em infantilização.

Carrie simplesmente não possui determinados códigos sociais.

Quando os colegas percebem isso, alguns tentam ajudá-la.

Outros enxergam uma presa.

A crueldade funciona porque antes vimos aquilo que poderia ter sido preservado.

O celular é a atualização mais simples — e mais cruel — da história

Atualizar uma obra antiga costuma produzir resultados constrangedores.

É fácil colocar um smartphone nas mãos de um personagem e chamar isso de modernização.

Aqui funciona porque a tecnologia altera a natureza da violência.

Uma humilhação já não acaba quando alguém sai do vestiário.

Pode continuar durante o almoço.

No ônibus.

No quarto.

Às três da manhã.

Pode acumular visualizações enquanto a vítima tenta dormir.

Flanagan não está dizendo que adolescentes ficaram cruéis por causa da internet.

Está dizendo algo mais desconfortável:

a crueldade sempre existiu; agora ela ganhou permanência.

Esse talvez seja o ponto mais contemporâneo da série.

Samantha Sloyan faz Margaret White doer de um jeito diferente

Samantha Sloyan poderia facilmente repetir o tipo de fanatismo religioso que já interpretou brilhantemente em outros trabalhos.

Não faz isso.

Sua Margaret ama Carrie.

Essa frase não a absolve.

Na verdade, torna tudo pior.

Porque amor também pode ser sufocante quando uma pessoa acredita que controlar alguém é a única maneira de salvá-lo.

Sloyan encontra pequenos instantes de ternura que tornam a violência emocional posterior ainda mais perturbadora.

Há uma mulher assustada dentro de Margaret.

O problema é que Carrie precisa viver dentro desse medo.

A série entende Chris melhor — talvez até demais

A mesma lógica chega a Chris Hargensen, interpretada por Alison Thornton.

A série quer saber de onde vem sua crueldade.

Quer entender a casa, as inseguranças e o tipo de adolescência capaz de transformar humilhar alguém em uma forma de autopreservação social.

Thornton é muito boa.

Talvez boa o suficiente para expor uma fragilidade do roteiro.

Existe uma diferença entre compreender alguém e suavizar sua responsabilidade.

E Carrie – A Estranha ocasionalmente parece tão determinada a compreender todos que começa a retirar deles o direito de serem terríveis por escolha.

Essa questão fica especialmente importante quando a história se aproxima do baile.

Oito episódios dão profundidade — e também tiram pressão

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Imagem: Prime Video

Transformar Carrie em série oferece espaço que Brian De Palma nunca teve.

Sue deixa de existir apenas em função da culpa.

Chris ganha vida própria.

Tommy pode ser mais do que o garoto gentil enviado ao baile.

Adultos recebem contradições.

A escola se torna uma comunidade.

Isso enriquece a tragédia.

Mas também produz um efeito curioso.

Carrie sempre foi uma história com sensação de inevitabilidade.

Uma garota é empurrada.

Empurrada.

Empurrada.

Até não existir mais espaço.

A expansão para oito episódios por vezes reduz essa pressão.

Há desvios, novas mitologias, histórias paralelas e pistas de um universo sobrenatural maior.

Algumas são fascinantes.

Outras fazem desejar que a série voltasse simplesmente para aquela menina sentada sozinha.

O terror mais eficiente não é sobrenatural

Carrie consegue mover objetos.

Isso nunca foi a coisa mais assustadora sobre Carrie.

A parte aterrorizante é reconhecer que quase tudo necessário para produzir a tragédia existia antes dos poderes.

A necessidade adolescente de pertencer.

O prazer de humilhar alguém mais vulnerável.

Adultos que percebem tarde demais.

Uma mãe convencida de que sofrimento é proteção.

O medo de ser diferente.

Nesse sentido, Flanagan entende King muito bem.

A telecinese apenas torna visível uma violência que já estava acontecendo.

A estrutura documental é uma ótima ideia

Uma das escolhas mais inteligentes é recuperar, de outra maneira, o caráter retrospectivo do romance.

A série nos mostra testemunhos, relatos e sobreviventes tentando explicar o que aconteceu.

Sabemos que algo terrível virá.

A pergunta nunca foi “vai acontecer?”.

É:

como deixaram chegar até ali?

Essa estrutura transforma a temporada quase numa investigação sobre responsabilidade.

Cada pessoa tem uma versão.

Cada pessoa procura um ponto em que poderia ter feito alguma coisa diferente.

E talvez essa seja a parte mais fiel ao espírito do livro, mesmo quando a série está inventando acontecimentos completamente novos.

O problema chega quando Flanagan tenta salvar Carrie de Carrie

Existe uma parte mais difícil da personagem que adaptações precisam enfrentar.

Carrie é vítima.

Mas a história também precisa permitir que ela se torne assustadora.

Raiva não é apenas uma coisa imposta de fora.

Existe nela.

Ao tornar a protagonista cada vez mais protegida pela linguagem da empatia e dividir determinadas responsabilidades com uma mitologia sobrenatural maior, a série corre o risco de retirar algo fundamental:

a possibilidade de Carrie fazer coisas terríveis porque está furiosa.

Não porque alguém a controlou.

Não porque o sistema fez tudo.

Porque chegou o momento em que ela quis ferir.

É moralmente desconfortável.

E deveria ser.

Algumas das críticas mais negativas à série apontaram justamente essa perda de ambiguidade.

Vale a pena assistir Carrie – A Estranha?

Muito.

Principalmente porque esta versão possui uma razão concreta para existir.

Summer H. Howell encontra uma Carrie delicada sem torná-la frágil. Samantha Sloyan constrói provavelmente a Margaret emocionalmente mais complexa entre as adaptações. Alison Thornton consegue fazer Chris ser simultaneamente compreensível e detestável.

A atualização para a era das redes sociais não parece uma decoração contemporânea.

Ela muda a violência.

O excesso está na tentativa de expandir Carrie para algo maior do que Carrie.

Flanagan claramente enxerga um universo além daquela escola.

Eu ainda não sei se precisava enxergá-lo.

Porque a história continua sendo mais devastadora quando cabe entre duas pessoas:

uma garota desesperada para ser amada

e um mundo que percebe tarde demais o que fez com ela.

Nota: 4 de 5 estrelas. ⭐⭐⭐⭐☆

Magui Schneider
Magui Schneider

Editora-chefe do Minha Série Favorita e psicóloga, com foco em análise de personagens, relações, comportamento e narrativas de séries, filmes e novelas.

Artigos: 295

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