Existe uma vantagem em começar um filme com um protagonista sem memória: cada porta pode esconder uma revelação. Blackout, disponível na Netflix, entende essa mecânica. O problema é que quase todas as revelações parecem ter vindo de algum thriller que já passou por ali antes.
Josh Duhamel acorda num hospital sem saber quem é. Há cartel, agentes federais, uma mulher que afirma ser sua esposa, um velho amigo impossível de confiar e uma maleta que todo mundo quer. A pergunta não é exatamente se alguém está mentindo. É qual mentira chegará primeiro.
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Josh Duhamel funciona melhor quando Cain não sabe o que está acontecendo

Duhamel tem fisicalidade suficiente para convencer nas lutas e uma presença naturalmente adequada ao herói de ação cansado. A amnésia também ajuda a atuação porque Cain pode reagir com estranhamento a quase tudo sem que isso pareça artificial.
Os melhores minutos são aqueles em que o personagem testa cada informação. Anna diz uma coisa. Eddie diz outra. McCoy apresenta uma terceira versão.
O problema começa quando o roteiro precisa transformar desconfiança em resposta.
O hospital é a melhor ideia do filme
Concentrar boa parte da história num hospital controlado por criminosos cria uma sensação interessante de clausura. Corredores estreitos, elevadores e salas improvisadas tornam cada deslocamento uma possível emboscada.
Sam Macaroni consegue algumas lutas eficientes justamente por aproveitar esse espaço limitado. Quando a ação abandona a lógica física e vira troca interminável de tiros, o filme perde personalidade.
É como se Blackout fosse mais divertido quando possui menos recursos.
A amnésia promete um mistério maior do que o roteiro consegue entregar
Cain não sabe se trabalha para o governo, para o cartel ou para outra organização. Essa dúvida poderia sustentar um suspense psicológico sobre identidade.
Em vez disso, o roteiro de Van B. Nguyen usa a perda de memória principalmente para atrasar informações.
A diferença parece pequena, mas importa. Um bom filme sobre amnésia faz o personagem questionar quem ele é. Blackout geralmente quer apenas que Cain descubra em qual lado precisa atirar.
Abbie Cornish merecia uma Anna mais complexa
Anna possui todos os elementos para ser a personagem mais interessante: aparece como esposa, esconde vínculos com a CIA, sabe lutar e claramente conhece muito mais sobre Cain do que revela.
Abbie Cornish consegue sustentar a ambiguidade enquanto o filme permite. Depois, a personagem passa a funcionar mais como aliada necessária ao clímax.
Existe até uma ideia emocional interessante na imagem que Cain guarda dela sem reconhecer o rosto. O roteiro corre rápido demais para transformar isso em algo mais profundo.
Omar Chaparro se diverte mais do que o filme permite
Eddie é o personagem que entende melhor o tipo de produção em que está. Há ameaça, exagero e uma energia quase pulp na interpretação de Omar Chaparro.
Isso ajuda porque a trama fica progressivamente mais absurda. Quando surge uma maleta contendo informações sobre pessoas que supostamente controlam estruturas de poder mundial, qualquer pretensão de realismo já ficou muito para trás.
Talvez o filme tivesse funcionado melhor se abraçasse esse exagero desde o começo.
Nick Nolte entra para confirmar que não existe lado confiável
McCoy representa o clássico agente federal que parece carregar as respostas. Nick Nolte tem presença suficiente para fazer o personagem parecer importante antes mesmo de entendermos sua função.
A revelação de que ele também quer lucrar com a maleta é previsível, mas coerente com a regra do filme: ninguém entrega a Cain uma verdade sem interesse próprio.
O problema é que, quando todos são potencialmente traidores, a surpresa começa a desaparecer.
A maleta é um MacGuffin sem muita imaginação

Durante quase todo o longa, ninguém sabe exatamente o que existe dentro dela. Isso é suficiente para fazer homens armados atravessarem um hospital inteiro.
Quando o conteúdo finalmente é explicado, encontramos uma lista de pessoas poderosas, endereços e relações secretas — uma espécie de arquivo capaz de comprometer quem controla o mundo.
É uma resposta grande demais para um mistério tão pequeno. Em vez de ampliar o filme, parece apenas colocar uma etiqueta de “conspiração global” numa história que funcionava melhor como sobrevivência local.
O que nos arrebatou / O que escorregou
| O que nos arrebatou | O que escorregou |
|---|---|
| Josh Duhamel convencendo fisicamente na ação | A amnésia serve mais para esconder informação do que explorar identidade |
| O hospital como cenário fechado | Tiros e perseguições ficam repetitivos |
| Omar Chaparro abraçando o exagero | A maleta termina numa conspiração genérica |
| A dúvida inicial sobre Anna | Abbie Cornish recebe pouco espaço dramático |
| 81 minutos que evitam alongar demais a trama | Quase toda virada parece familiar |
O filme é ruim ou só genérico?
Talvez a segunda definição seja mais justa. Há competência técnica suficiente nas lutas, Duhamel segura a tela e o ritmo de 81 minutos impede que o filme se torne insuportavelmente longo.
Mas é difícil encontrar uma ideia que pertença de fato a Blackout. Há ecos de Jason Bourne, confinamento à Duro de Matar, conspiração governamental e cartel mexicano reunidos sem uma personalidade forte o bastante para transformar referências em voz própria.
Veredito do coração
Blackout funciona como aquele filme de ação que pode preencher uma noite quando a exigência é baixa e a vontade é apenas acompanhar alguém socando criminosos enquanto tenta lembrar o próprio nome.
O problema é que a premissa prometia um suspense melhor. Cain acordar sem memória poderia revelar algo sobre identidade, culpa ou manipulação. O filme prefere revelar apenas para quem ele deve apontar a arma.
Nota: 2,5 de 5 estrelas. ⭐⭐½☆☆
Pacto de respeito à arte: esta crítica analisa roteiro, atuações e escolhas de direção sem confundir preferência pessoal com valor absoluto da obra.




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