Matthew Perry em imagem promocional do documentário Aquele Sobre Matthew Perry, da Netflix

Crítica de Aquele Sobre Matthew Perry: quando Chandler sai de cena e sobra o homem que tentava sobreviver

Aquele Sobre Matthew Perry, disponível na Netflix, poderia ter seguido o caminho mais fácil: transformar três horas em uma longa despedida a Chandler Bing. Mary Robertson escolhe algo mais difícil. Seu documentário insiste que Matthew Perry foi amado por milhões, mas não pertencia a nenhum de nós.

Essa escolha muda tudo. Em vez de organizar a história ao redor de celebridades famosas falando sobre outra celebridade, a série entrega espaço à irmã, aos amigos de décadas, a ex-companheiras e a pessoas que conheceram Perry em ambientes de recuperação. O resultado é íntimo, doloroso e, às vezes, longo demais — mas raramente oportunista.

Atenção: esta crítica aborda dependência química, uso de drogas, morte e luto.

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Crítica de Aquele Sobre Matthew Perry: Chandler não é o protagonista

Friends é inevitável. Foram dez anos, 236 episódios e um personagem que transformou Perry num rosto conhecido em quase qualquer lugar do mundo.

Mas a série entende que o perigo de um documentário sobre Matthew Perry seria fazer exatamente o que o público fez durante décadas: olhar para ele e enxergar Chandler primeiro.

Por isso, o material sobre a sitcom é importante, mas não domina toda a narrativa. O auge de Friends chega e passa antes de a série terminar. Matthew continua existindo depois de Chandler — e é justamente nessa parte da vida que o documentário mais dói.

Mia Perry Bowick é o coração do documentário

A ausência de Jennifer Aniston, Courteney Cox, Lisa Kudrow, Matt LeBlanc e David Schwimmer poderia parecer um problema. Os cinco foram convidados e decidiram não participar.

Na prática, isso impede que a série vire uma reunião sentimental de Friends e deixa espaço para Mia Perry Bowick. É uma escolha que beneficia o documentário.

Mia não fala como representante de uma marca ou como colega de elenco. Fala como irmã. E a diferença está nos detalhes: o medo durante a crise hospitalar de 2018, a tentativa de aceitar que a dependência poderia matar Matthew, o luto e a culpa de quem ama alguém sem ter poder para salvá-lo.

A série acerta ao não transformar dependência em fraqueza moral

Uma das coisas mais importantes que Robertson faz é evitar a narrativa simplista do “homem que tinha tudo e jogou tudo fora”.

Matthew Perry tinha dinheiro, fama, acesso aos melhores tratamentos e pessoas que o amavam. Nada disso torna uma doença crônica automaticamente controlável.

O documentário mostra recaídas, decisões destrutivas e danos causados aos outros, mas não precisa transformar Perry em vilão para reconhecer essas consequências. Tampouco precisa romantizá-lo para demonstrar compaixão.

O retrato psicológico é mais forte quando aceita contradições

Existe uma frase recorrente nas memórias de quem conviveu com Perry: ele queria intimidade e, ao mesmo tempo, parecia ter medo dela.

O documentário não diagnostica esse conflito de forma artificial. Prefere deixar que os relatos mostrem um homem que desejava ser amado, precisava fazer os outros rirem e frequentemente transformava humor em armadura.

A conexão com Chandler é inevitável, mas não porque personagem e ator fossem a mesma pessoa. É porque Perry reconheceu no texto de Chandler um ritmo emocional muito próximo ao seu: usar a piada para impedir que os outros cheguem perto demais da dor.

As pessoas menos famosas são as que mais importam

O documentário não depende de uma fila de grandes astros. E isso é uma virtude.

Roger Castillo e David Pressman falam sobre o amigo de antes da fama. Tim Harrington lembra de um homem que abriu a própria casa quando ele estava prestes a recair. Pessoas que dividiram tratamentos e recuperação mostram um Perry que não cabe nos tapetes vermelhos.

É nessas histórias menores que a série encontra sua tese: a parte mais importante da vida de alguém não necessariamente coincide com aquilo que o tornou famoso.

O documentário evita sensacionalismo, mas poderia ser mais enxuto

Três episódios permitem acompanhar a natureza repetitiva da dependência: tratamento, melhora, recaída, nova tentativa. Essa repetição é parte da verdade que a série quer contar.

Ao mesmo tempo, há momentos em que a estrutura parece esticada. Algumas informações retornam com pouca novidade e certos trechos poderiam ser condensados sem reduzir a dimensão emocional.

Esse excesso não compromete o conjunto, mas impede que a minissérie seja tão precisa quanto poderia.

O terceiro episódio muda de tom quando chega à morte

Quando a narrativa alcança 2023, o documentário sai parcialmente do terreno da memória e entra no da investigação criminal.

O ex-procurador E. Martin Estrada ajuda a reconstruir a rede que forneceu cetamina a Perry. É informação necessária, mas a passagem da intimidade familiar para nomes, crimes e condenações inevitavelmente parece mais seca.

Mia impede que essa parte se transforme apenas em relatório judicial. Para ela, as condenações não são manchetes: são a continuação de um luto que ganhou uma camada de traição.

O que nos arrebatou e o que escorregou

O que nos arrebatouO que escorregou
Mia Perry Bowick oferece o olhar mais íntimo e doloroso da série.Três episódios deixam alguns trechos mais repetitivos do que precisavam ser.
O documentário trata dependência como doença sem apagar responsabilidade.A transição para a investigação criminal no episódio final é necessária, mas um pouco brusca.
A ausência do elenco de Friends permite que amigos de vida ocupem o centro.Quem espera grandes revelações inéditas pode encontrar mais profundidade do que novidade.
Arquivos familiares devolvem a Matthew uma identidade anterior à fama.Algumas etapas da carreira fora de Friends recebem menos espaço do que poderiam.

O final não tenta transformar Matthew Perry em santo

A série termina perto do lugar mais delicado possível: o legado.

Perry queria ser lembrado por ajudar pessoas com dependência. O documentário respeita esse desejo, mas não precisa fingir que sua história terminou numa vitória sobre a doença.

Há uma honestidade amarga nisso. Ele ajudou outras pessoas e não conseguiu permanecer protegido daquilo que o acompanhou por décadas. As duas coisas são verdadeiras ao mesmo tempo.

Veredito do Coração

⭐⭐⭐⭐ 4/5

Aquele Sobre Matthew Perry é mais forte quando esquece que está falando sobre uma celebridade e se concentra no que significa amar alguém com uma doença que você não consegue controlar. Poderia ser mais curto. Poderia aprofundar alguns momentos da carreira. Mas acerta no essencial: Matthew Perry não era Chandler, não era apenas sua dependência e não era apenas sua morte.

Era uma pessoa que fez milhões rirem enquanto passava boa parte da vida tentando sobreviver a si mesma — e que, mesmo assim, encontrou maneiras concretas de ajudar outros a sobreviver também.

Pacto de Respeito à Arte

Esta crítica discute temas e revelações centrais dos três episódios, incluindo a morte de Matthew Perry. Para a causa oficial, a investigação da cetamina e as condenações, consulte nosso artigo de História Real.

Aquele Sobre Matthew Perry está disponível legalmente na Netflix.

Magui Schneider
Magui Schneider

Editora-chefe do Minha Série Favorita e psicóloga, com foco em análise de personagens, relações, comportamento e narrativas de séries, filmes e novelas.

Artigos: 414

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