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Crítica de A Substância: o verdadeiro monstro nasce quando uma mulher aprende a odiar o próprio corpo

A Substância, terror corporal de Coralie Fargeat, está disponível no Brasil na Netflix e MUBI, além de aparecer pelo canal MUBI dentro do Prime Video. Estrelado por Demi Moore, Margaret Qualley e Dennis Quaid, o filme transforma envelhecimento, desejo e misoginia em uma experiência deliberadamente grotesca — e encontra seu maior horror não em corpos deformados, mas na ideia de que uma mulher possa passar a vida inteira acreditando que só merece existir enquanto for desejada.

Elisabeth Sparkle completa 50 anos.

No mesmo dia, descobre que sua idade é considerada motivo suficiente para descartá-la.

Não importa o que construiu.

Não importa o reconhecimento.

E não importa que aquela mulher continue sendo exatamente a mesma pessoa que foi celebrada durante décadas.

Para Harvey, produtor vivido por Dennis Quaid, ela simplesmente venceu o prazo de validade.

Então Elisabeth recebe uma promessa.

Uma versão melhor de si mesma.

Mais jovem.

Mais bonita.

E mais perfeita.

Só existe uma regra: sete dias para cada uma.

O problema de A Substância nunca foi a regra.

Foi Elisabeth acreditar que Sue era outra pessoa.

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Elisabeth Sparkle não quer voltar a ser jovem — ela quer voltar a sentir que merece ser vista

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Divulgação: Imagem Filmes

Demi Moore tem um rosto que o cinema conhece há décadas.

E Coralie Fargeat sabe exatamente o peso dessa escolha.

Acompanhamos uma atriz famosa interpretando uma mulher famosa que envelheceu dentro de uma indústria que transforma juventude feminina em moeda.

Não precisamos conhecer a história profissional de Moore para que Elisabeth funcione.

Mas conhecê-la acrescenta uma camada inevitável.

Há algo profundamente cruel numa mulher observar o próprio rosto e começar a procurar nele razões para aquilo que perdeu.

Elisabeth não acordou aos 50 anos odiando a própria aparência.

Alguém ensinou esse ódio.

Primeiro existem os olhares.

Depois as decisões profissionais.

O outdoor retirado.

A demissão.

O almoço grotesco de Harvey, filmado de maneira quase repulsiva enquanto ele mastiga camarões e explica por que mulheres envelhecidas deixam de interessar à televisão.

É uma cena brilhante porque inverte completamente o objeto de repulsa.

O corpo de Elisabeth não tem nada de grotesco.

Harvey é grotesco.

Sua boca.

Sua comida.

E a sua certeza.

A maneira como fala sobre mulheres como produtos que precisam ser substituídos.

A Substância entende que o horror do envelhecimento feminino não nasce das rugas. Nasce do olhar social que ensina uma mulher a enxergá-las como evidência de fracasso.

Por isso Elisabeth aceita.

Não porque seja superficial.

Mas porque está vulnerável exatamente no ponto em que o mundo passou anos pressionando.

Sue não é a rival de Elisabeth — e essa é a tragédia que as duas se recusam a compreender

Quando Sue, interpretada por Margaret Qualley, emerge literalmente das costas de Elisabeth, acontece algo fundamental:

não nasceu outra mulher.

Nasceu outra versão da mesma mulher.

A empresa responsável pela substância repete constantemente:

“Vocês são uma.”

Mas Elisabeth e Sue passam a se comportar como inimigas.

Elisabeth inveja a juventude de Sue.

Sue despreza o corpo envelhecido de Elisabeth.

Elisabeth chama Sue de egoísta.

Sue olha para Elisabeth como uma criatura repulsiva que atrapalha sua existência.

É precisamente assim que a lógica da beleza opera.

A mulher mais velha olha para a mais jovem e sente que perdeu.

A mais jovem olha para a mais velha e sente medo de se tornar aquilo.

Enquanto as duas brigam, o sistema que criou essa competição continua intacto.

Harvey não precisa destruí-las.

Elas fazem isso sozinhas.

Elisabeth não está sendo substituída por outra mulher. Está destruindo a si mesma para conseguir continuar atendendo ao padrão que a descartou.

Esse é um dos aspectos mais cruéis do filme.

Sue utiliza o corpo de Elisabeth como recurso.

Rouba horas.

Depois dias.

Finalmente meses.

Mas, em termos simbólicos, Elisabeth sempre fez isso consigo.

Sacrificou o presente em nome da versão de si que acreditava ser mais valiosa.

Demi Moore entrega uma atuação brutal justamente quando Elisabeth quase não fala

Há uma cena que resume toda a tragédia do filme.

Elisabeth se prepara para sair.

Coloca maquiagem.

Arruma o cabelo.

Olha no espelho.

Não gosta.

Muda.

Tenta novamente.

Compara-se mentalmente a Sue.

Limpa.

Recomeça.

E continua até destruir aquilo que tinha acabado de construir.

Não há monstro.

Não há sangue.

E não há órgão exposto.

Ainda assim, talvez seja uma das cenas mais violentas de A Substância.

Porque muita gente reconhece aquilo.

A roupa parecia boa até nos compararmos.

O rosto parecia normal até vermos uma fotografia.

Estávamos prontas para sair até decidirmos que alguma parte do nosso corpo precisava ser escondida.

Demi Moore faz tudo isso praticamente através do rosto e do corpo.

A Academia reconheceu sua atuação com uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz; o filme também concorreu a Melhor Filme, Direção e Roteiro Original, entre outras categorias. Moore venceu ainda o Globo de Ouro de melhor atriz em comédia ou musical.

Mas prêmio nenhum explica exatamente o que funciona aqui.

Moore permite que Elisabeth seja vaidosa sem tratá-la como ridícula.

Invejosa sem torná-la pequena.

Desesperada sem retirar sua responsabilidade.

É fácil sentir compaixão.

Também é impossível fingir que ela não participa da própria destruição.

Essa contradição sustenta o filme.

Margaret Qualley faz Sue parecer exatamente aquilo que Elisabeth acredita ter perdido

Sue é perfeita porque é construída para parecer perfeita.

Pele.

Corpo.

Cabelo.

Energia.

Sexualidade.

Ela entra numa audição e praticamente já possui o trabalho.

A câmera televisiva deseja Sue antes mesmo que alguém precise conhecê-la.

Margaret Qualley compreende muito bem que a personagem não precisa começar como vilã.

Sue está vivendo aquilo que Elisabeth queria viver.

É admirada.

Desejada.

Fotografada.

Convidada.

Celebrada.

Por que devolveria voluntariamente tudo isso depois de sete dias?

É aí que a substância deixa de ser apenas ficção científica e se aproxima de uma metáfora muito reconhecível.

Se uma pessoa construiu a própria autoestima sobre validação externa, nunca existe validação suficiente.

Sempre há mais uma festa.

Mais um corpo para impressionar.

Mais uma noite.

E mais uma semana.

Sue começa roubando algumas horas.

Depois percebe que pode pegar mais.

A fome por aprovação possui uma característica particularmente cruel: aquilo que ontem parecia suficiente hoje já não consegue nos alimentar.

E, conforme Sue cresce, Elisabeth desaparece.

Literalmente.

Vale a pena assistir a A Substância? Sim — mas o desconforto faz parte da experiência

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Divulgação: Imagem Filmes

A Substância é exagerado.

Longo.

Repetitivo de propósito.

Barulhento.

Grotesco.

E absolutamente sem interesse em sutileza quando chega ao terceiro ato.

Isso afastará parte do público.

Coralie Fargeat não quer apenas que compreendamos sua metáfora.

Quer esfregá-la na nossa cara.

Depois cobri-la de sangue.

Depois continuar quando achávamos que ela já havia chegado ao limite.

O resultado é um filme que começa como crítica ao culto à juventude e termina quase numa orgia de body horror.

Para mim, funciona.

Porque a escalada possui lógica emocional.

Elisabeth quer uma pequena correção.

Depois precisa corrigir a correção.

Depois corrigir aquilo que foi destruído pela correção anterior.

Quando percebe, o corpo já se tornou campo de batalha.

Isso é exatamente o que acontece numa cultura que vende soluções infinitas para problemas que ela própria inventou.

O olhar feminino de Coralie Fargeat não protege o corpo feminino — ele o transforma em arma

Há nudez em A Substância.

Muita.

Mas algo muda conforme observamos quem está olhando.

Quando Harvey e a indústria observam Sue, seu corpo é fragmentado.

Bunda.

Seios.

Pernas.

Boca.

A linguagem visual imita a objetificação até levá-la ao absurdo.

Já quando Fargeat filma o corpo deteriorado de Elisabeth, também não oferece pudor.

Só que a finalidade muda.

Não estamos sendo convidados a desejar.

Estamos sendo obrigados a encarar.

Coralie Fargeat já declarou que seus filmes lidam com a maneira como corpos femininos são escrutinados, fantasiados e criticados no espaço público e definiu A Substância como uma obra política construída através do excesso e do gore.

Essa decisão aparece em cada enquadramento.

A diretora não tenta tornar o envelhecimento bonito para convencer alguém de que deveria ser aceito.

Essa seria outra prisão.

Ela pergunta por que uma mulher precisa continuar bonita para ter o direito de existir.

É diferente.

E muito mais radical.

Harvey é quase uma caricatura porque o sistema que representa também é absurdo

Dennis Quaid interpreta Harvey no volume máximo.

Ele sorri demais.

Mastiga demais.

Fala alto.

Ocupa espaço.

Parece saído de uma caricatura.

Funciona porque Harvey não precisa ser psicologicamente complexo.

Ele é uma lógica.

Mulheres envelhecem.

Mulheres são substituídas.

Público quer novidade.

Fim.

Não existe ódio pessoal por Elisabeth.

E isso talvez seja ainda pior.

Ela é descartada sem rancor.

Como equipamento antigo.

Fargeat deixa muito claro que Harvey não precisa mais aparecer quando Elisabeth começa a se destruir.

O trabalho dele já foi realizado.

A mensagem entrou.

Agora vive dentro dela.

Elisasue é grotesca porque finalmente torna visível aquilo que Elisabeth sentiu durante todo o filme

O terceiro ato abandona qualquer intenção de contenção.

Elisabeth tenta eliminar Sue.

Hesita.

Sue acorda.

E destrói o corpo original do qual depende para continuar existindo.

É o ponto final da guerra contra si mesma.

Então Sue começa a desmoronar.

Tenta utilizar novamente o ativador.

E nasce Monstro Elisasue.

Há seios deslocados.

Rostos.

Carne.

Dentes.

Membros.

Uma mistura impossível de Elisabeth e Sue.

Só que talvez seja a primeira vez em que as duas realmente estejam unidas.

A criatura tenta ir ao programa de Ano Novo.

Coloca um vestido.

Cria uma máscara com o rosto de Elisabeth.

Ainda quer ser vista.

Ainda quer aplauso.

Essa parte é devastadora sob toda a quantidade absurda de sangue.

Mesmo depois de perder completamente a forma humana, Elisabeth ainda acredita que precisa subir ao palco para finalmente receber amor.

Então a plateia reage com horror.

Porque aquele mesmo público disposto a consumir o corpo perfeito não tolera o corpo que mostra o preço daquela perfeição.

O sangue lançado sobre todos não é apenas choque.

É vingança visual.

Durante duas horas, corpos femininos foram julgados.

No fim, eles cobrem literalmente quem estava olhando.

Por trás das câmeras: maquiagem, som e arquitetura fazem o corpo parecer uma prisão

A produção visual é extraordinária.

Os corredores.

O banheiro branco.

A sala de Elisabeth.

Os figurinos amarelos.

O azul intenso de Sue.

Os vermelhos.

Tudo parece artificialmente controlado.

Quase não existe mundo normal fora daquela obsessão.

A fotografia de Benjamin Kracun, o design de produção de Stanislas Reydellet e a música de Raffertie transformam essa realidade numa espécie de pesadelo publicitário. Cannes registra também Fargeat como montadora do filme ao lado de Jérôme Eltabet e Valentin Féron.

E então existe a maquiagem.

A Substância venceu o Oscar de Melhor Maquiagem e Penteados, prêmio entregue a Pierre-Olivier Persin, Stéphanie Guillon e Marilyne Scarselli.

Merecidamente.

Não apenas pela dificuldade técnica.

As transformações contam a história.

Cada deformação do corpo de Elisabeth é a materialização de uma violação de limites.

Seu corpo registra aquilo que Sue tenta fingir que não aconteceu.

A maquiagem não decora o horror.

É o horror.

De Cannes ao Oscar, A Substância encontrou reconhecimento sem perder a própria estranheza

O filme estreou em competição no Festival de Cannes de 2024, onde Coralie Fargeat venceu o prêmio de Melhor Roteiro.

Meses depois, chegou ao Oscar concorrendo inclusive a Melhor Filme, Melhor Direção, Melhor Atriz e Melhor Roteiro Original, além de vencer a categoria de maquiagem e penteados.

Isso é particularmente curioso para uma obra que termina com uma criatura monstruosa despejando litros de sangue sobre uma plateia.

Mas talvez seja também parte de sua força.

A Substância não precisou domesticar o terror corporal para transformar sua discussão sobre envelhecimento em algo universal.

Fez justamente o contrário.

Levou tudo até o limite.

O raio-X do Minha Série Favorita

O que nos arrebatouO que escorregou
Demi Moore numa das atuações mais corajosas de sua carreiraA duração e a repetição deliberada podem cansar
Margaret Qualley construindo Sue como desejo e ameaça ao mesmo tempoA metáfora é tão explícita que quase não deixa espaço para interpretação
O corpo feminino usado como linguagem políticaO terceiro ato pode ultrapassar o limite de parte do público
A cena de Elisabeth diante do espelhoHarvey é deliberadamente unidimensional
Maquiagem e efeitos físicos extraordináriosAlgumas ideias são marteladas muito além do necessário
O final com Elisasue e a plateia coberta de sangueQuem não tolera body horror provavelmente encontrará uma experiência difícil

O veredito do coração: A Substância merece todo o impacto que causou?

  • NOTA: 5 de 5 estrelas. Selo Minha Série Favorita: um pesadelo feminista sobre uma mulher que descobre tarde demais que nunca existiu uma versão “melhor” dela — apenas uma versão que o mundo desejava consumir por mais algum tempo.

A Substância é excessivo porque o problema que deseja mostrar também é.

Uma mulher não deveria precisar acordar um dia parecendo um monstro para perceber que passou anos se tratando como um.

Elisabeth e Sue são a mesma pessoa.

O filme repete isso.

A empresa repete isso.

Nós sabemos disso.

Elas se recusam a aceitar.

Porque reconhecer a unidade significaria perceber que cada violência cometida contra a outra foi violência contra si mesma.

Essa é a tragédia.

Não a droga.

Não Harvey.

Nem mesmo Hollywood.

É Elisabeth ter internalizado tão profundamente aquilo que disseram sobre seu valor que começa a considerar a própria existência um problema a ser corrigido.

Demi Moore entende isso com uma entrega impressionante.

Margaret Qualley torna a juventude de Sue quase agressiva.

Dennis Quaid transforma misoginia institucional numa criatura que mastiga camarões.

E Coralie Fargeat dirige tudo como se elegância e repulsa nunca tivessem sido opostas.

Recomendo A Substância para quem gosta de terror psicológico, body horror, cinema feminista, sátiras sobre Hollywood e filmes dispostos a levar uma metáfora até suas consequências mais grotescas.

Mas não indicaria casualmente para quem é sensível a violência gráfica, mutilação, sangue, agulhas ou transformações corporais.

É pesado.

É desconfortável.

E precisa ser.

Porque talvez a frase mais assustadora de toda a história nunca seja pronunciada por nenhum personagem.

Está escondida naquilo que Elisabeth acredita:

“Se eu pudesse me tornar outra mulher, talvez finalmente conseguisse amar a mim mesma.”

A Substância passa duas horas e vinte minutos demonstrando por que essa promessa nunca poderia terminar bem.

Pacto de Respeito à Arte — Minha Série Favorita

No Minha Série Favorita, acreditamos que valorizar uma obra também significa respeitar o trabalho de quem a construiu.

No Brasil, A Substância está atualmente disponível por assinatura na Netflix e MUBI. Também pode ser acessado através do canal MUBI dentro do Prime Video; Apple TV e Amazon Video oferecem modalidades digitais de aluguel ou compra, sujeitas às condições da conta. A disponibilidade foi conferida em 5 de outubro de 2026.

Magui Schneider
Magui Schneider
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