A Morte do Demônio: Em Chamas, disponível na HBO Max, entende que uma família não precisa de possessão demoníaca para ser assustadora. Sébastien Vaniček começa com ressentimento, negação e violência doméstica; só depois libera os Deadites. Quando o sangue finalmente toma conta da casa, o horror sobrenatural encontra um terreno emocional que já estava apodrecido.
O resultado é menos engraçado que os filmes clássicos de Sam Raimi e mais cruel do que A Ascensão. Nem tudo funciona com a mesma força, mas Souheila Yacoub dá ao massacre uma protagonista que continua humana mesmo quando o filme exige que ela atravesse níveis absurdos de violência.
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Crítica de A Morte do Demônio: Em Chamas: os sogros já eram o inferno
A premissa pode ser resumida como piada de terror: uma mulher perde o marido e precisa passar alguns dias com a família dele.
Vaniček leva essa ideia a sério. Alice não é a viúva que os Price esperam. Ela sabe coisas sobre William que os pais recusam. A morte preserva para eles o filho idealizado; para Alice, preserva um relacionamento do qual ela queria sair.
Quando os Deadites começam a usar essas feridas contra os sobreviventes, a possessão deixa de ser apenas mecanismo para cenas grotescas.
Souheila Yacoub recusa a “final girl” perfeita

Souheila Yacoub faz Alice irritada, exausta e emocionalmente contraditória.
A atriz contou que não queria interpretar nem uma vítima passiva nem uma heroína pronta para vencer tudo. Isso aparece na tela. Alice demora a nomear o abuso, ainda carrega afeto pelo marido e também sente alívio por estar livre dele.
É uma complexidade importante porque relações abusivas raramente se organizam numa narrativa limpa de “nunca amei” ou “sempre soube”.
Hunter Doohan e Luciane Buchanan dão peso à família antes da carnificina
Hunter Doohan encontra em Joseph uma mistura de culpa, fragilidade e necessidade de aprovação. Luciane Buchanan dá a Thya uma presença mais externa ao clã, capaz de perceber coisas que os Price naturalizaram.
Isso faz diferença quando os personagens começam a ser possuídos. O filme consegue transformar traços anteriores em formas específicas de crueldade Deadite.
O gore é impressionante porque parece ter peso
Vaniček, vindo de Infested, demonstra prazer evidente em imaginar formas novas de destruir corpos.
Headrests, ferramentas de jardim, lâminas, dentes, olhos e membros passam a ser matéria-prima. O uso combinado de efeitos práticos e digitais mantém textura onde muitos filmes de terror deixam tudo limpo demais.
Não é violência para espectadores sensíveis. O filme quer fazer o corpo reagir antes da cabeça.
Os Deadites ganham personalidades mais específicas

Uma das melhores ideias é fazer cada possuído continuar carregando a crueldade particular daquela relação.
Em vez de todos virarem simplesmente versões iguais do mesmo demônio, a possessão amplifica dinâmicas familiares. O pai, a mãe, o irmão e a namorada atacam física e emocionalmente de maneiras diferentes.
Falta a alegria perversa de Sam Raimi
Esse também é o limite.
A franquia nasceu misturando horror genuíno com uma energia quase cartunesca, principalmente em Uma Noite Alucinante 2. Vaniček prefere sofrimento, ressentimento e violência física mais realista.
Existem piadas escuras e momentos de absurdo, mas o filme nunca dança com a própria carnificina como Raimi fazia.
Isso é necessariamente um problema?
Não. A franquia sobrevive justamente porque os capítulos recentes deixaram de tentar fabricar outro Ash Williams.
Em Chamas tem personalidade quando pensa em casamento, abuso e lealdade familiar. Fica menos específico quando precisa apenas cumprir a escalada obrigatória de mutilações.
O filme funciona melhor na fúria do que na mitologia
Quando personagens gritam verdades uns para os outros ou tentam sobreviver numa sala pequena, a direção é visceral.
Quando o roteiro precisa explicar objetos, regras e passados ligados à mitologia, o ritmo perde força. O próprio conceito do Kandarian Dagger é interessante para fãs, mas a exposição pesa mais do que o filme gostaria.
O que nos arrebatou e o que escorregou
| O que nos arrebatou | O que escorregou |
|---|---|
| Souheila Yacoub cria uma sobrevivente contraditória e humana. | A mitologia é explicada de forma menos interessante que o drama familiar. |
| Os efeitos têm textura, peso e criatividade desagradável. | A escalada de gore pode perder impacto pela repetição. |
| Os Deadites exploram relações específicas em vez de parecerem todos iguais. | Quem ama o humor de Raimi pode sentir falta da energia anárquica. |
| O abuso de William dá sentido emocional ao título e aos votos matrimoniais. | Alguns coadjuvantes existem menos como pessoas do que como futuras mortes. |
Vale a pena assistir A Morte do Demônio: Em Chamas?

Sim, especialmente para quem gostou da fase mais séria iniciada em 2013 e aprofundada por A Ascensão.
Vaniček não supera a inventividade cômica de Raimi, mas encontra uma razão própria para manter os Deadites vivos: famílias também sabem usar amor, culpa e memória como armas.
Veredito do Coração
⭐⭐⭐⭐ 4/5
A Morte do Demônio: Em Chamas é brutal, desagradável e mais emocional do que sua montanha de vísceras sugere. O melhor terror não está apenas no corpo possuído — está na ideia de que morrer não necessariamente encerra aquilo que uma relação fez com você.
Pacto de Respeito à Arte
A Morte do Demônio: Em Chamas está disponível na HBO Max e em lojas digitais. O Minha Série Favorita incentiva o consumo legal pelos canais oficiais.



