Em Anne with an E, aclamada série de televisão canadense, o clássico da literatura infanto-juvenil de 1908, Anne of Green Gables, de Lucy Maud Montgomery, ganha um sopro de pura visceralidade e modernidade. Produzida em uma parceria histórica entre a rede pública canadense CBC e o serviço de streaming Netflix, a obra distancia-se do tom excessivamente bucólico ou idealizado de adaptações anteriores para mergulhar com coragem nas marcas psicológicas, nos traumas de infância e na busca incansável de uma jovem órfã pelo direito ao pertencimento e ao amor incondicional.
Ambientada no final do século XIX, nos cenários deslumbrantes da Ilha do Príncipe Eduardo, a produção utiliza a imaginação vulcânica e a oratória apaixonada de sua protagonista como um farol de resistência contra o preconceito, a rigidez social e o medo do diferente. Ao longo de três temporadas irretocáveis — coroadas com o prestigioso Canadian Screen Award de Melhor Série Dramática em anos consecutivos —, Anne with an E não apenas encantou audiências de todas as idades, mas também gerou uma mobilização global sem precedentes em defesa do seu legado cultural e humano.
Quem está no elenco e quais os dilemas dos personagens?

A engrenagem magnética de Anne with an E reside no trabalho de caracterização irretocável de seu elenco, liderado por atuações de extraordinária profundidade emocional que dão vida à pacata e conservadora comunidade de Avonlea:
- Anne Shirley-Cuthbert (Amybeth McNulty): A alma radiante da narrativa. Uma garota de 13 anos ruiva, sardenta, de vocabulário rebuscado e paixão desmedida por palavras difíceis e histórias dramáticas. Vítima de anos de maus-tratos, abusos físicos e negligência emocional em orfanatos e lares temporários, Anne utiliza a imaginação exuberante e a poesia como mecanismos de defesa contra o estresse pós-traumático. Sua chegada a Green Gables redefine não apenas o destino dos Cuthbert, mas reestrutura os valores morais de toda a cidade.
- Marilla Cuthbert (Geraldine James): A austera e pragmática solteirona que, ao lado do irmão, pretendia adotar um menino forte para ajudar nos trabalhos pesados da fazenda. A jornada de Marilla é um dos arcos de amadurecimento mais bonitos da televisão: a casca de rigidez moral, hábitos rígidos e sentimentos reprimidos cede gradualmente lugar a um amor materno feroz, protetor e profundamente generoso por Anne.
- Matthew Cuthbert (R. H. Thomson): O idoso tímido, quieto e de coração puríssimo que é o primeiro a ser completamente arrebatado pela loquacidade e pela doçura de Anne. Sofrendo de ansiedade social crônica e dores no coração, Matthew atua como o porto seguro e o pilar de aceitação incondicional da jovem, oferecendo o silêncio acolhedor que a garota jamais conheceu em sua infância.
- Diana Barry (Dalila Bela): A melhor amiga de alma de Anne (bosom friend). Nascida em uma família de classe alta tradicional que a prepara exclusivamente para ser uma dona de casa impecável da era vitoriana, Diana descobre ao lado de Anne o valor da independência intelectual, da imaginação e do apoio mútuo feminino.
- Gilbert Blythe (Lucas Jade Zumann): O jovem órfão de pai, inteligente, empático e de mente aberta que se torna o grande rival acadêmico e o amor definitivo de Anne. Gilbert recusa os caminhos tradicionais impostos aos homens de Avonlea para buscar a carreira na medicina, demonstrando uma maturidade e um respeito contínuos pelas ambições de Anne.
- Sebastian “Bash” Lacroix (Dalmar Abuzeid): Um homem negro vindo de Trinidad que se torna sócio de Gilbert na fazenda e na vida. A introdução de Bash e de sua esposa Mary (Cara Ricketts) no povoado de The Bog expandiu as fronteiras da série para discutir o racismo estrutural, a solidão do imigrante e a construção de comunidades de afeto no Canadá oitocentista.
- Cole Mackenzie (Cory Grüter-Andrew): Um jovem artista sensível que sofre bullying sistemático por não se enquadrar nas expectativas de masculinidade de Avonlea. Sua amizade com Anne e sua subsequente jornada de aceitação de sua homosexualidade ao lado da generosa Tia Josephine Barry (Deborah Grover) trazem um olhar tocante e poético sobre a busca por um espaço seguro no mundo.
- Jerry Baynard (Aymeric Jett Montaz): O jovem trabalhador francês-canadense contratado pelos Cuthbert, cuja simplicidade e vontade de aprender contrastam com a vivacidade dos estudantes de Avonlea.
- Rachel Lynde (Corrine Koslo): A vizinha fofoqueira, intrometida e hiper-conservadora que encarna as tradições morais da comunidade, mas que aos poucos demonstra uma lealdade e uma capacidade de proteção comunitária surpreendentes.
Ficha Técnico-Editorial de Anne with an E
| Informação | Detalhe |
| Título Nacional / Original | Anne with an E (Brasil) / Ana com A (Portugal) / Anne (1.ª Temp. CBC) |
| Criadora e Showrunner | Moira Walley-Beckett |
| Baseado em | Romance Anne of Green Gables (1908), de Lucy Maud Montgomery |
| Direção de Destaque | Niki Caro, Patricia Rozema, Amanda Tapping, Helen Shaver, Sandra Goldbacher |
| Elenco Principal | Amybeth McNulty, Geraldine James, R. H. Thomson, Dalila Bela, Lucas Jade Zumann, Aymeric Jett Montaz, Corrine Koslo, Dalmar Abuzeid, Cory Grüter-Andrew |
| Empresas Produtoras | Northwood Entertainment, Canadian Broadcasting Corporation (CBC) / Netflix |
| País de Origem / Idioma | Canadá / Inglês |
| Temporadas / Episódios | 3 temporadas / 27 episódios (Concluída) |
| Onde Assistir | Netflix |
Trama: As três fases do despertar em Green Gables
A estrutura narrativa de Anne with an E organiza sua escalada dramática através da transição da infância negligenciada para a pré-adolescência e o amadurecimento consciente:
1.ª Temporada: O Engano Abençoado e a Luta pelo Pertencimento
A história tem início quando o idoso Matthew Cuthbert chega à estação de trem de Bright River esperando encontrar um garoto órfão para auxiliar na fazenda de Green Gables. Em seu lugar, encontra a jovem Anne Shirley, segurando sua mala desgastada e transbordando poesia.
Inicialmente rejeitada por Marilla por não atender às necessidades práticas da casa, Anne convence os irmãos a dar-lhe uma chance. A primeira temporada foca no processo penoso de superação dos traumas do orfanato, no preconceito dos moradores de Avonlea contra crianças “adotadas” e na consolidação da nova família Cuthbert.
2.ª Temporada: A Expansão do Mundo e a Descoberta da Alteridade
No segundo ano, a série expande seu escopo para além das fronteiras de Green Gables. A chegada de golpistas em busca de ouro em Avonlea testa a ingenuidade da comunidade, enquanto a viagem de Gilbert a bordo de um navio a vapor introduz a figura de Bash.
A narrativa aprofunda-se em debates fundamentais: o preconceito racial enfrentado por pessoas negras no Canadá pós-abolição, a descoberta da identidade artística e homossexual de Cole, e a luta da nova professora, Miss Muriel Stacy (Joanna Douglas), para introduzir métodos pedagógicos modernos, o feminismo e a liberdade de pensamento para as garotas da escola.
3.ª Temporada: Origens, Identidade e a Busca pela Verdade
A temporada final foca na busca de Anne por suas raízes biológicas ao completar 16 anos. O enredo aborda com sensibilidade e coragem histórica um dos capítulos mais sombrios da história canadense: a criação das “escolas residenciais” e o apagamento cultural dos povos originários, retratado através da trágica opressão sofrida pela jovem indígena Ka’kwet (Kiawentiio) e sua família Mi’kmaq.
Em paralelo, acompanha-se a transição dos jovens para a universidade Queen’s College, a luta pelo jornalismo livre e pela liberdade de expressão liderada por Anne, e o desabrochar definitivo e emocionante do sentimento romântico entre Anne e Gilbert.
A Atmosfera Visual e Sonora
A direção artística de Anne with an E definiu uma das identidades visuais mais arrebatadoras da televisão contemporânea. Liderada no episódio piloto pela aclamada diretora Niki Caro (Encantadora de Baleias), a fotografia da série abandona a iluminação estática e de estúdio para priorizar a luz natural, as cores vivas das estações do ano na Ilha do Príncipe Eduardo e cenários reais. A câmera passeia pelas florestas de bétulas, pelas falésias de terra vermelha e pelos campos de flores selvagens com uma poesia contemplativa que simula o próprio olhar maravilhado de Anne sobre a natureza.
O design de produção e os figurinos prezam pelo hiperrealismo de época: as roupas desgastadas e sem corte de Anne no início contrastam com os vestidos feitos à mão por Marilla conforme a jovem ganha dignidade e lar. A trilha sonora original, composta por Amin Bhatia e Ari Posner, combina instrumentos acústicos, violinos e arranjos folclóricos que pontuam a melancolia e a alegria do interior canadense. O tema de abertura — a canção “Ahead by a Century”, da icônica banda de rock canadense The Tragically Hip —, traz uma ponte temporal perfeita entre o século XIX e o presente, ressaltando o caráter visionário das ideias da protagonista.
Vale a pena assistir a Anne with an E?
Vale cada segundo. Anne with an E é uma das produções mais completas, emocionantes, sensíveis e necessárias da história do streaming mundial. Ao se recusar a amenizar os aspectos duros da vida histórica para focar no poder da empatia, da educação, da sororidade e do respeito às diferenças, a série criada por Moira Walley-Beckett entregou uma obra-prima que transcendeu o formato de adaptação literária.
Com uma interpretação histórica e inesquecível de Amybeth McNulty e um elenco em estado de graça, é uma maratona obrigatória e transformadora que aquece o coração e enriquece a alma.
Recomendação Prática
- Para quem é: Indicado para fãs de dramas históricos, adaptações literárias maduras, histórias sobre amadurecimento (coming-of-age), apaixonados por poesia, natureza, causa feminista, diversidade e produções acolhedoras de imensa carga emocional.
- Pontos Fortes: Atuação monumental de Amybeth McNulty e Geraldine James, roteiro afiado e corajoso de Moira Walley-Beckett, fotografia e direção de arte deslumbrantes, e abordagem responsável sobre racismo, homofobia e direitos dos povos originários.
- Como maratonar: Mantenha os lenços por perto. Aprecie sem pressa os momentos de contemplação da natureza e as conversas intimistas ao redor da mesa de jantar em Green Gables; é ali que a verdadeira mágica das conexões humanas é tecida.



