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Segredo Obscuro é cópia de A Substância? As semelhanças e diferenças entre os dois filmes

Segredo Obscuro e A Substância são muito parecidos à primeira vista. Os dois acompanham mulheres ligadas à indústria do entretenimento, pressionadas pelo envelhecimento e atraídas por procedimentos capazes de devolver juventude. Nos dois casos, o resultado transforma o próprio corpo em horror.

Por isso, uma pergunta aparece quase imediatamente: Segredo Obscuro copiou A Substância?

A resposta é não. A cronologia de produção mostra que os projetos foram desenvolvidos de maneira independente, ainda que tenham chegado quase ao mesmo tempo a uma ansiedade cultural muito parecida.

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Segredo Obscuro foi feito antes de A Substância estrear

Max Minghella leu o roteiro de Jack Stanley para Shell ainda em 2018. O projeto já circulava publicamente em Hollywood em 2020, quando foi anunciado como uma produção em desenvolvimento.

As filmagens de Segredo Obscuro começaram em dezembro de 2023 e terminaram em 2 de fevereiro de 2024. A Substância, de Coralie Fargeat, só teria sua estreia mundial em Cannes em 19 de maio de 2024.

Isso não significa que os dois filmes não possam ser comparados. Significa apenas que a comparação precisa ser feita como encontro de ideias, não como acusação automática de cópia.

Por que eles parecem tão semelhantes?

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Porque partem do mesmo medo social. Hollywood continua tratando envelhecimento feminino de maneira diferente do masculino, e a indústria da beleza transformou esse desconforto num mercado bilionário de procedimentos, produtos, suplementos e promessas de rejuvenescimento.

A Substância e Segredo Obscuro exageram a mesma lógica até ela se tornar monstruosa. Se o valor de uma mulher depende da juventude, então o corpo vira problema a ser corrigido. Se a correção nunca é suficiente, o procedimento precisa ir cada vez mais longe.

Samantha Lake e Elisabeth Sparkle começam no mesmo lugar?

Existe uma semelhança clara. Samantha Lake, de Elisabeth Moss, é uma atriz que percebe estar sendo descartada conforme envelhece. Elisabeth Sparkle, interpretada por Demi Moore em A Substância, também vê a carreira desaparecer diante de padrões que privilegiam juventude.

Mas as duas personagens reagem de maneiras diferentes. Elisabeth Sparkle está num ponto mais extremo de ruptura com a própria imagem e aceita uma substância que cria literalmente outra versão de si mesma.

Samantha ainda quer continuar sendo Samantha. Ela não busca um duplo jovem; quer preservar a própria identidade e recuperar o lugar profissional que acredita estar perdendo.

A maior diferença está no tratamento

Em A Substância, o produto cria Sue, uma versão mais jovem de Elisabeth. As duas compartilham um único corpo biológico em ciclos alternados e entram numa relação de desejo, competição e ódio que torna a metáfora profundamente íntima.

Em Segredo Obscuro, a Shell modifica o próprio organismo da paciente. A empresa usa enzimas geneticamente alteradas associadas a criaturas com mecanismos incomuns de envelhecimento para reduzir sinais de idade.

O horror surge quando o processo continua além do previsto. Em vez de gerar outra pessoa, o corpo original passa a assumir características cada vez mais ligadas a crustáceos.

A Substância fala mais de autodestruição

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Divulgação: Imagem Filmes

O conflito de Coralie Fargeat acontece dentro da própria protagonista. Elisabeth e Sue são duas expressões de uma única pessoa, e a violência entre elas representa a forma como a personagem aprende a odiar o corpo que envelhece.

Por isso, A Substância é um filme muito mais interno. O inimigo existe na indústria e no olhar masculino, mas também passa a existir dentro da própria Elisabeth.

Ela deseja Sue, inveja Sue e tenta controlar Sue. O horror nasce dessa impossibilidade de separar quem ela é de quem gostaria de ser.

Segredo Obscuro fala mais da indústria que vende a solução

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Imagem: ONE Media Brasil

Max Minghella e Jack Stanley deslocam a crítica para uma estrutura empresarial. Samantha é insegura, mas a grande vilã não é uma versão jovem dela mesma; é uma companhia que aprende a transformar insegurança em produto.

Zoe Shannon é essencial nesse sentido. Ela vende o tratamento como autocuidado, ciência e empoderamento, enquanto a Shell esconde mortes, mutações e efeitos colaterais para proteger reputação e lucro.

O alvo principal é a comercialização da insegurança. A empresa primeiro convence mulheres de que envelhecer significa perder valor e depois cobra para oferecer uma saída.

Kate Hudson e Margaret Qualley cumprem funções totalmente diferentes

Em A Substância, Margaret Qualley interpreta Sue, a juventude idealizada que nasce literalmente do corpo de Elisabeth. A personagem funciona como desejo materializado e, depois, como concorrente.

Em Segredo Obscuro, Kate Hudson interpreta Zoe, uma mulher mais velha que aparentemente venceu o sistema. Ela é o rosto da promessa de que alguém pode permanecer jovem, rica e desejada para sempre se souber consumir a tecnologia certa.

Enquanto Sue é aquilo que Elisabeth deseja ser, Zoe é aquilo que Samantha deseja acreditar ser possível.

Kaia Gerber também muda a dinâmica

Chloe Benson representa a juventude real, não uma juventude criada artificialmente. Samantha lembra dela ainda criança e depois a encontra competindo pelos mesmos papéis.

Essa situação dá ao etarismo uma dimensão geracional muito concreta. Chloe não precisa fazer nada contra Samantha; apenas existir jovem já é suficiente para que a indústria coloque as duas em lados opostos.

Quando Chloe também procura a Shell, o filme mostra que nem juventude real é suficiente. O mercado da aparência precisa que todas continuem inseguras, inclusive mulheres que já possuem aquilo que outras desejam recuperar.

Qual dos dois é mais body horror?

A Substância é mais radical e mais constante. Coralie Fargeat constrói todo o filme em torno da materialidade do corpo: agulhas, fluidos, pele, dentes, feridas, deformações e uma transformação final deliberadamente excessiva.

Segredo Obscuro demora mais para chegar ao grotesco. Durante boa parte do tempo, funciona como sátira de Hollywood e thriller corporativo. O horror corporal cresce aos poucos até explodir com a transformação de Chloe.

O resultado de Minghella é mais camp e mais próximo de uma comédia de estúdio com ficção científica. Fargeat quer provocar repulsa física e emocional de maneira muito mais agressiva.

O monstro final também diz coisas diferentes

A Substância chega ao Monstro Elisasue, uma fusão grotesca que leva ao limite a impossibilidade de Elisabeth conciliar as duas versões de si mesma. O corpo final reúne beleza desejada e corpo rejeitado numa imagem impossível de separar.

Em Segredo Obscuro, Chloe vira um enorme crustáceo porque o mecanismo científico do tratamento perde controle. É uma piada visual levada ao extremo: mulheres procuram uma nova “casca” e uma delas termina literalmente presa numa carapaça.

As duas criaturas são monstruosas, mas representam problemas diferentes. Uma nasce da guerra contra si mesma; a outra, de um sistema comercial que experimenta em corpos e chama vítimas de efeitos colaterais.

Os filmes têm o mesmo tipo de humor?

Não. A Substância possui humor, mas ele é agressivo, desconfortável e frequentemente nasce do excesso grotesco. O espectador ri porque a situação ultrapassa qualquer limite razoável.

Segredo Obscuro é mais assumidamente uma comédia sombria. Minghella sempre falou do projeto como entretenimento e como homenagem a filmes de estúdio dos anos 1980 e 1990.

Zoe é camp, diálogos são propositalmente absurdos e até a transformação em lagosta possui uma energia de criatura de filme B. A intenção é divertir ao mesmo tempo que provoca.

Death Becomes Her é uma referência mais direta para Segredo Obscuro

O próprio Max Minghella cita A Morte Lhe Cai Bem como uma influência importante. O clássico de 1992 também mistura obsessão pela juventude, rivalidade, tecnologia milagrosa, corpos que se recusam a envelhecer e humor grotesco.

Minghella também menciona Paul Verhoeven e um tipo de cinema de estúdio que marcou sua infância. Isso ajuda a explicar por que Segredo Obscuro parece menos austero do que A Substância.

Seu DNA cinematográfico está muito ligado ao camp, à sátira e ao prazer de um filme de gênero que sabe que é absurdo.

Qual deles faz uma crítica mais forte ao etarismo?

A Substância é mais contundente porque transforma a violência cultural contra mulheres envelhecidas numa violência que Elisabeth internaliza completamente. A personagem passa a olhar para si mesma com o mesmo desprezo que o mundo ensinou.

Segredo Obscuro oferece uma crítica interessante, mas mais externa. Samantha consegue identificar que o sistema é absurdo e eventualmente rejeitar a lógica de Zoe.

Isso torna o filme mais esperançoso, porém menos devastador. Em A Substância, não existe uma saída simples porque o olhar que destrói Elisabeth já vive dentro dela.

Segredo Obscuro tenta ser A Substância?

Não há base cronológica para afirmar isso. O roteiro de Jack Stanley já existia anos antes, e o filme terminou de ser rodado meses antes da estreia pública do longa de Coralie Fargeat.

O que aconteceu é mais interessante: dois projetos independentes perceberam ao mesmo tempo que envelhecimento, procedimentos estéticos, biohacking e a pressão pela juventude haviam se tornado terreno perfeito para o terror corporal.

A coincidência talvez diga mais sobre a cultura que produziu esses filmes do que sobre qualquer relação entre eles.

Qual vale mais a pena?

Para quem busca body horror mais intenso, uma metáfora mais cruel e uma obra que leva a ideia até consequências realmente desconfortáveis, A Substância é o filme mais poderoso.

Quem prefere uma experiência mais leve, satírica e divertida pode responder melhor a Segredo Obscuro. Elisabeth Moss e Kate Hudson têm uma dinâmica mais próxima de comédia sombria, e o filme quer entreter tanto quanto criticar.

VEJA NOSSAS CRÍTICAS SOBRE AS PRODUÇÕES:

Não precisam ser rivais. Na verdade, assistidos juntos, eles mostram duas respostas diferentes para a mesma pergunta: o que acontece quando uma cultura convence mulheres de que envelhecer significa perder o direito de ocupar espaço?

Segredo Obscuro está disponível legalmente em plataformas oficiais. A comparação considera as duas obras como produções independentes com temas semelhantes.

Magui Schneider
Magui Schneider

Editora-chefe do Minha Série Favorita e psicóloga, com foco em análise de personagens, relações, comportamento e narrativas de séries, filmes e novelas.

Artigos: 344

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