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Carrie – A Estranha: 10 diferenças entre a série do Prime Video e o livro de Stephen King

A série Carrie – A Estranha, do Prime Video, preserva a garota criada por Stephen King, mas modifica profundamente sua história.

Não estamos apenas diante de Carrie com celulares.

Mike Flanagan muda o pai da protagonista, amplia Margaret, cria Emaline, transforma a mitologia dos poderes psíquicos e, principalmente, dá a Carrie White aquilo que o livro nunca lhe deu:

um futuro.

O romance original foi publicado em 5 de abril de 1974 e marcou a estreia de Stephen King como romancista.

A seguir estão as mudanças que realmente alteram o significado da história.

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1. A série acontece na era das redes sociais

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Imagem: Prime Video

A diferença mais evidente também é uma das melhores.

No livro, a crueldade escolar se espalha por rumores, fofoca e humilhação presencial.

Na série, existe uma câmera dentro de praticamente todo bolso.

Quando Carrie entra em pânico após menstruar, ela não é apenas ridicularizada.

É gravada.

O vídeo pode circular pela escola e continuar existindo quando ela chega em casa.

Flanagan transforma o cyberbullying numa extensão natural da violência imaginada por King cinquenta anos antes.

2. Ralph White morre antes de Carrie nascer no livro

Esta é uma mudança estrutural enorme.

No romance, Ralph White morre em um acidente de construção antes do nascimento de Carrie.

Ela nunca cresce com o pai.

Sua infância é marcada essencialmente pela relação abusiva com Margaret.

Na série, Ralph permanece vivo até Carrie ser adolescente.

Ele participa de sua criação e do isolamento da família.

Sua morte no início da história é justamente aquilo que expõe Carrie ao mundo exterior e obriga Margaret a matriculá-la na escola.

Em outras palavras:

no livro, Ralph é passado.

Na série, sua morte provoca a história.

3. A Carrie da série foi criada praticamente fora da sociedade

Carrie sempre foi uma garota deslocada.

Mas Flanagan radicaliza esse isolamento.

A versão interpretada por Summer H. Howell não é apenas uma adolescente impopular.

Ela passou grande parte da vida afastada da sociedade e chega à escola pública sem dominar vários códigos cotidianos da adolescência contemporânea.

Isso explica parte de sua curiosidade e inocência.

A Carrie do livro conhece o ambiente escolar há mais tempo. Ela é rejeitada por ele.

A Carrie da série quase parece estar entrando em outro país.

4. O livro é documental — e a série reaproveita essa ideia

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Imagem: Prime Video

Curiosamente, aqui a produção se distancia dos filmes para se aproximar de Stephen King.

O romance não é contado apenas como uma narrativa convencional.

King intercala os acontecimentos com reportagens, documentos, investigações e relatos escritos depois da tragédia.

Sabemos muito cedo que alguma coisa terrível aconteceu.

A tensão está em descobrir como.

Flanagan recupera esse espírito através das entrevistas com sobreviventes.

Só que existe uma reviravolta.

Aquilo que parece documentação histórica também faz parte da nova trama sobrenatural da série.

5. Emaline não existe no livro

Emaline West é criação da série.

Não existe equivalente direto da personagem no romance de Stephen King.

No início, ela parece poder ser uma amiga imaginária ou manifestação psicológica de Carrie.

O final revela que é real.

Emaline possui a capacidade de projeção astral, podendo aparecer para Carrie mesmo estando fisicamente em outro lugar.

Sua existência muda radicalmente a história.

No romance, a tragédia do baile pertence a Carrie.

Na série, outra pessoa sobrenatural interfere naquele momento.

6. O massacre deixa de ser exclusivamente de Carrie

Esta talvez seja a alteração mais controversa.

No livro, Carrie possui responsabilidade direta pela devastação.

Ela foi vítima de violência extrema.

Mas depois decide usar seus poderes contra as pessoas e contra Chamberlain.

Essa ambiguidade é parte essencial da personagem.

Ela é vítima e autora de horror ao mesmo tempo.

Na série, a presença de Emaline embaralha essa responsabilidade.

Carrie ainda utiliza os poderes.

Ainda toma decisões violentas.

Ainda mata Chris e Billy.

Mas o massacre do baile é compartilhado, incentivado ou ampliado por uma segunda presença sobrenatural.

É justamente uma das mudanças que dividiu a recepção crítica: alguns enxergaram maior complexidade; outros sentiram que Flanagan retirou parte da agência moral de Carrie.

7. Margaret é muito mais amorosa na série

A Margaret do livro ama a filha de uma maneira extremamente difícil de separar de abuso, repressão e fanatismo.

Flanagan muda a proporção desses elementos.

Samantha Sloyan interpreta uma mãe que demonstra carinho de maneira muito mais evidente.

Isso não torna a relação saudável.

Margaret continua impondo medo, isolamento e culpa à filha.

Mas existe uma tentativa consciente de mostrar que ela acredita estar protegendo Carrie.

É uma mudança enorme de perspectiva.

No livro, o horror está frequentemente em Carrie viver com uma mãe que parece ser seu primeiro carrasco.

Na série, o horror está também na possibilidade de alguém destruir uma filha enquanto está convencida de que a ama.

8. Margaret possui telecinese na série

No romance, a existência de outras pessoas com capacidades semelhantes aparece através da discussão sobre hereditariedade e de acontecimentos anteriores na família.

Mas Margaret não se torna uma telecinética ativa no clímax da maneira mostrada pelo Prime Video.

A série modifica isso.

Quando a casa desaba, Margaret utiliza seus próprios poderes para sobreviver.

Isso transforma a relação entre mãe e filha.

Carrie deixa de ser simplesmente aquilo que Margaret teme.

Ela passa a representar algo que a própria Margaret também carregava.

9. A morte de Margaret é completamente diferente

No livro, Margaret tenta matar Carrie.

Carrie reage.

E usa seus poderes para parar o coração da própria mãe.

Na série, Margaret sobrevive ao confronto com Carrie.

Quem finalmente para seu coração é a misteriosa personagem de Kate Siegel.

É uma inversão muito interessante.

Flanagan preserva a imagem do coração interrompido por telecinese.

Mas entrega esse ato a outra personagem.

Carrie deixa de ser diretamente responsável pela morte da mãe.

10. Carrie morre no livro — e sobrevive na série

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Aqui está a mudança que altera tudo.

No romance, Carrie fica mortalmente ferida.

Sue Snell consegue encontrá-la.

As duas estabelecem uma ligação mental, e Carrie finalmente percebe que Sue não participou da armadilha contra ela.

Então Carrie morre.

O livro continua depois de sua morte, mostrando consequências, investigações e a possibilidade de que outras pessoas possam manifestar poderes parecidos.

Na série?

Carrie vive.

Emaline a retira dos escombros.

As duas entram num carro.

E vão embora.

Não é uma pequena mudança de final.

É a decisão que transforma aquilo que sempre foi uma tragédia fechada em uma história potencialmente serializada.

Existe uma organização de pessoas com poderes no livro?

Não dessa maneira.

O romance discute cientificamente a telecinese depois da tragédia e sugere que Carrie não é necessariamente um caso único.

A famosa conclusão apresenta indícios de outra criança com habilidades semelhantes.

Flanagan pega essa pequena abertura e constrói algo muito maior.

Na série existem pessoas com poderes conscientes da existência umas das outras.

Algumas observam Carrie.

Outras parecem interferir na investigação.

Existe conflito entre diferentes figuras sobrenaturais.

Isso já não é simplesmente adaptação.

É expansão de universo.

A série é fiel ao espírito do livro?

Depende do que entendemos como fidelidade.

Os acontecimentos mudam bastante.

O final muda radicalmente.

Personagens que não existiam entram na trama.

Carrie sobrevive.

Mas várias obsessões do romance continuam ali:

vergonha;

puberdade;

violência religiosa;

crueldade coletiva;

exclusão;

culpa;

e a pergunta sobre o que acontece quando uma comunidade participa da destruição de alguém e depois tenta fingir que a tragédia surgiu do nada.

Mike Flanagan não fez uma reprodução de Carrie.

Ele fez exatamente aquilo que prometeu:

desmontou as peças.

E construiu outra história.

A grande diferença é que Stephen King escreveu uma tragédia sobre uma garota que o mundo percebeu tarde demais.

Flanagan termina perguntando o que aconteceria se essa garota tivesse conseguido escapar.

Agora, se houver segunda temporada, ele terá que responder.


Carrie – A Estranha está disponível legalmente no Prime Video. O romance original de Stephen King foi publicado em 1974. O Minha Série Favorita incentiva o consumo legal das obras e o respeito aos seus criadores.

Magui Schneider
Magui Schneider

Editora-chefe do Minha Série Favorita e psicóloga, com foco em análise de personagens, relações, comportamento e narrativas de séries, filmes e novelas.

Artigos: 276

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