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Crítica de Os Bombeiros: o filme é melhor quando seus heróis parecem apenas trabalhadores exaustos

Os Bombeiros, disponível no Looke via Prime Video, poderia facilmente transformar homens entrando em prédios em chamas em super-heróis.

Ainda bem que não faz isso.

O melhor do filme de Kwak Kyung-taek está justamente na ausência da capa. São homens cansados. Suados. Alguns assustados. Outros irritados. Há contas, esposas, filhos, piadas ruins no quartel e equipamentos que deveriam protegê-los, mas nem sempre conseguem.

Quando a sirene toca, nada disso desaparece.

Eles apenas levantam.

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Joo Won não interpreta um homem naturalmente corajoso — e essa é uma ótima escolha

Cheol-woong não chega ao Corpo de Bombeiros com a segurança de quem nasceu para aquilo.

Ele hesita.

Erra.

Tem medo.

Questiona decisões dos superiores e, principalmente, não aceita imediatamente a lógica segundo a qual salvar alguém pode exigir colocar outra pessoa em risco.

Joo Won entende bem essa fragilidade.

Seu personagem funciona porque a transformação não consiste em deixar de sentir medo. Ele aprende que coragem e medo podem ocupar o mesmo corpo.

É uma diferença pequena na superfície, enorme para a história.

Seria muito fácil escrever Cheol-woong como o novato que simplesmente aprende a obedecer ao veterano.

O filme faz algo um pouco melhor.

Ele o obriga a descobrir sozinho que tipo de bombeiro deseja ser.

Jin-seop é admirável — e também desconfortável

O contraponto é Jin-seop.

Kwak Do-won oferece ao personagem uma rigidez que incomoda antes de comover.

Jin-seop atravessa limites.

Insiste.

Volta quando talvez devesse sair.

E essa disposição para permanecer dentro de uma estrutura em chamas pode ser interpretada tanto como coragem extraordinária quanto como uma maneira perigosa de exigir heroísmo de pessoas que trabalham ao seu lado.

É esse desconforto que mantém a primeira metade viva.

O roteiro perde alguma sutileza quando precisa deixar mais clara sua posição sobre o personagem, mas não elimina completamente a pergunta:

quantas vidas um bombeiro pode arriscar para salvar uma?

Não existe resposta confortável.

O filme sabe disso.

O fogo parece perigoso porque os atores também precisavam respeitá-lo

Há uma diferença física perceptível nas cenas de incêndio.

As chamas não parecem uma camada adicionada posteriormente ao quadro. Elas iluminam rostos, mudam a maneira como os atores se movimentam e transformam corredores em lugares onde permanecer alguns segundos a mais parece realmente desagradável.

Isso não aconteceu por acaso.

Kwak Kyung-taek combinou fogo real e efeitos digitais, enquanto os atores trabalharam em cenários aquecidos carregando equipamentos pesados.

O resultado não é necessariamente espetacular no sentido tradicional.

É sufocante.

Máscaras escondem rostos. Comunicação falha. O som da respiração ganha importância. Corpos ocupam corredores estreitos com dificuldade.

Em vez de transformar o incêndio numa sequência elegante, o filme frequentemente o transforma em desorientação.

É a decisão certa.

O filme acerta quando fala de abandono sem fazer discurso

Talvez os momentos mais revoltantes nem sejam aqueles em que alguém está cercado pelo fogo.

São os detalhes.

Uma peça inadequada.

Um equipamento gasto.

Um carro estacionado onde não deveria estar.

Uma estrutura antiga.

Uma equipe que precisa compensar com o próprio corpo aquilo que deveria ter sido resolvido por investimento, fiscalização e prevenção.

Quando Os Bombeiros deixa esses elementos entrarem naturalmente na rotina, sua crítica social é poderosa.

Quando resolve verbalizar demais o problema, perde alguma força.

Porque não precisamos que alguém explique longamente a precariedade depois de assistir a um profissional entrar num incêndio com algo que claramente não parece suficiente para protegê-lo.

A imagem já disse tudo.

Yoo Jae-myung encontra uma das emoções mais difíceis do filme

No meio de personagens destinados a entrar no fogo, Yoo Jae-myung recebe uma missão diferente.

In-gi precisa ficar do lado de fora.

É ele quem observa.

Quem comanda.

Quem manda recuar.

E quem precisa conviver com o fato de que uma ordem pode chegar tarde demais.

Há uma cena no hospital em que o personagem precisa conter aquilo que sabe enquanto tenta proteger emocionalmente outra pessoa.

O próprio diretor contou que aquela sequência foi filmada no primeiro dia de gravações e que a interpretação de Yoo Jae-myung o emocionou atrás das câmeras.

Faz sentido.

Não existe explosão emocional.

Existe um homem tentando permanecer funcional quando já gostaria de desabar.

As mulheres estão próximas da dor, mas raramente no centro da história

Aqui está uma limitação que vale mencionar.

Lee Yoo-young, como Seo-hee, consegue escapar um pouco da função puramente doméstica porque está integrada ao trabalho de emergência.

Já Jang Young-nam, como Do-soon, carrega sobretudo a perspectiva de quem ama alguém que pode simplesmente não voltar para casa.

São duas posições importantes.

Mas o roteiro é muito mais interessado na irmandade construída entre os homens do quartel.

As mulheres frequentemente recebem a espera, a preocupação ou as consequências emocionais.

Não chega a enfraquecer o filme, mas reduz a amplitude de uma história que poderia olhar com mais atenção para quem também vive, diariamente, a profissão do outro.

O filme quase cai no melodrama — e recua no momento certo

Uma história baseada na morte de bombeiros reais poderia facilmente ser construída para obrigar o público a chorar.

Música crescente.

Discursos.

Famílias em desespero.

Longas despedidas.

Kwak Kyung-taek escolhe uma saída mais contida.

Até o funeral no fim privilegia a tentativa de segurar o choro.

Joo Won contou que chegou a preparar versões emocionalmente mais explosivas daquela cena, mas diretor e ator decidiram que seria melhor deixar parte da tristeza para o público.

Foi uma boa decisão.

O filme já possui uma tragédia suficientemente grande.

Não precisa enfeitá-la.

O problema de Os Bombeiros é quando o roteiro precisa preparar a tragédia

Nem tudo funciona com a mesma naturalidade.

Algumas histórias particulares parecem claramente construídas para que saibamos exatamente o que cada pessoa está prestes a perder.

Um futuro casamento.

Uma aposentadoria.

Uma mudança de função.

Uma família esperando em casa.

Quando muitos desses elementos se acumulam perto demais do clímax, sentimos um pouco a engrenagem do roteiro.

É aquela velha preparação dramática que praticamente coloca uma placa sobre o personagem dizendo: “lembre-se disso quando alguma coisa acontecer”.

O curioso é que Os Bombeiros não precisava tanto disso.

Conhecer aquelas pessoas trabalhando já bastava.

Vale a pena assistir Os Bombeiros?

Vale.

Mas não porque seja uma celebração confortável de heroísmo.

O filme funciona porque existe algo quase incômodo em perceber que boa parte daquilo que chamamos de heroísmo, para aquelas pessoas, era simplesmente mais um dia de trabalho.

Joo Won conduz bem a mudança de Cheol-woong. Kwak Do-won dá peso às contradições de Jin-seop. Yoo Jae-myung encontra humanidade no homem que precisa assistir a tudo do lado de fora.

E Kwak Kyung-taek toma sua melhor decisão quando não transforma os mortos em santos perfeitos.

Eles reclamam.

Discutem.

Têm medo.

Querem ir embora.

Depois a sirene toca.

E eles vão.

É justamente por parecerem tão humanos que sua coragem dói mais.

Nota: 4 de 5 estrelas. ⭐⭐⭐⭐☆

Magui Schneider
Magui Schneider

Editora-chefe do Minha Série Favorita e psicóloga, com foco em análise de personagens, relações, comportamento e narrativas de séries, filmes e novelas.

Artigos: 265

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