As Dez Vantagens de Morrer Depois de Você

Crítica de As Dez Vantagens de Morrer Depois de Você: viver não é trair quem partiu

As Dez Vantagens de Morrer Depois de Você, em cartaz nos cinemas, começa com uma ideia perigosa: transformar o luto de uma adolescente em uma lista de tarefas deixada pela amiga morta. O que poderia virar uma coleção de frases prontas sobre “viver intensamente” encontra algo melhor quando Diego Freitas entende que nenhuma carta resolve a ausência. As missões só funcionam porque obrigam Gabi a voltar ao mundo — e o mundo ainda dói.

Any Gabrielly conduz o filme com uma vulnerabilidade que cresce aos poucos, enquanto Giulia Be precisa fazer Julia permanecer viva na memória sem transformar a morte em espetáculo. A amizade entre as duas é o eixo que segura as partes mais melodramáticas.

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Crítica de As Dez Vantagens de Morrer Depois de Você: viver não é trair quem partiu

As-Dez Vantagens de Morrer Depois de Você
Imagem: Paris Filmes

Gabi não quer apenas cumprir os desejos de Julia. Em alguns momentos, ela usa as cartas para adiar uma pergunta mais difícil: quem ela é sem a melhor amiga?

Essa é a parte mais interessante da história. Quando alguém ocupa um lugar estrutural em nossa vida, a perda também mexe na identidade de quem fica. Gabi era “a cautelosa” porque Julia era “a corajosa”. Era a pessoa que precisava ser empurrada porque a amiga fazia o movimento.

Depois da morte, continuar repetindo essa dinâmica vira uma forma de manter Julia presente — mas também pode impedir Gabi de descobrir desejos que são realmente seus.

Any Gabrielly faz o luto parecer irregular

O melhor da atuação de Any Gabrielly está nos contrastes. Gabi pode rir durante um desafio e desabar pouco depois. Pode sentir prazer numa experiência nova e imediatamente sentir culpa por ter conseguido se divertir.

Essa irregularidade é muito mais verdadeira do que uma curva limpa de “tristeza → aceitação → felicidade”. O luto não respeita roteiro, e o filme acerta quando permite emoções contraditórias na mesma personagem.

Any ainda está amadurecendo como atriz em cinema, mas encontra uma presença emocional convincente, especialmente nas cenas em que Gabi deixa de controlar o que sente.

Giulia Be precisa existir mesmo depois de Julia morrer

Giulia Be tem menos tempo de tela, mas sua função é difícil: o público precisa entender por que Julia era tão importante antes de perdê-la.

Os flashbacks ajudam a construir uma amizade feita de implicância, intimidade e diferenças, não apenas de declarações bonitas. O filme funciona melhor quando Julia parece pessoa — impulsiva, divertida, às vezes inconsequente — e não anjo criado retroativamente pela morte.

As dez missões não “curam” Gabi — e isso é importante

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Imagem: Paris Filmes

Há um risco emocional evidente na premissa: sugerir que a depressão ou o luto podem ser vencidos com aventuras, romance e coragem individual.

O filme evita esse atalho quando mostra que Gabi também precisa das pessoas ao redor. Lorena, os pais, Lili, Toninho, Lucas e outros vínculos passam a formar uma rede que não substitui Julia, mas impede que a protagonista fique sozinha dentro da dor.

As cartas funcionam melhor como convite ao contato do que como tratamento.

A relação com a mãe dá ao filme um conflito adulto

Sheron Menezzes interpreta Marcia sem transformá-la em mãe incompreensível. Ela está assustada. Vê a filha se afastando e reage tentando organizar o que não pode controlar.

Paulo Lessa, como André, oferece outra resposta: presença com mais espaço.

Essa diferença cria um conflito familiar mais interessante do que o simples “pais não entendem adolescentes”. Todos estão tentando ajudar sem saber qual é a distância certa entre cuidado e invasão.

Lorena não existe para substituir Julia

Pâmela Germano é um dos respiros mais eficientes do filme. Lorena traz humor, energia e atrito.

A amizade funciona porque a narrativa não exige que Gabi escolha entre preservar Julia e gostar de alguém novo. Esse é um ponto simples, mas emocionalmente importante: novos vínculos não significam traição aos antigos.

Os romances são a parte mais convencional

Lucas e Nico cumprem a função de colocar Gabi diante da possibilidade de desejar, experimentar e errar. O triângulo amoroso deixa mais explícito o desafio de abrir espaço para intimidade.

Mas é também onde o longa fica mais parecido com outros dramas juvenis. O luto, a amizade e a relação familiar têm especificidade; o romance segue caminhos mais previsíveis.

A depressão aparece de forma visual

Diego Freitas usa água, escuro e sensação de afundamento para traduzir momentos em que Gabi perde a capacidade de se mover emocionalmente.

A metáfora é direta, talvez até demais em alguns momentos, mas encontra uma imagem compreensível para um público jovem sem reduzir a personagem a diagnóstico.

O mérito está em mostrar que o sofrimento pode coexistir com humor, escola, família e momentos bons. Não é preciso estar triste em cada segundo para estar profundamente ferida.

O melodrama às vezes aperta demais

As Dez-Vantagens de Morrer Depois de Você
Imagem: Paris Filmes

O filme quer emocionar e não esconde isso. Música, flashbacks e cartas chegam em sequência em alguns trechos, quase impedindo que a cena respire sozinha.

Há momentos em que um gesto simples entre Gabi e alguém que ama seria suficiente, mas a direção acrescenta mais uma camada emocional.

Para parte do público, isso será exatamente o que funciona. Para outros, pode soar calculado.

O que nos arrebatou e o que escorregou

O que nos arrebatouO que escorregou
A química de amizade entre Any Gabrielly e Giulia Be.Alguns momentos reforçam a emoção quando ela já estava clara.
O luto aparece com contradições, não como linha reta.O triângulo amoroso é mais convencional que o restante.
Lorena e os pais de Gabi ampliam a ideia de rede de apoio.Alguns desafios têm peso dramático desigual.
O filme separa seguir em frente de esquecer.Certas metáforas visuais são bastante explicativas.

Vale a pena assistir As Dez Vantagens de Morrer Depois de Você?

Sim, principalmente para quem gosta de dramas juvenis que não tratam adolescência como uma fase emocionalmente menor.

O filme não é sutil o tempo inteiro, mas tem sinceridade. E, quando encontra sua melhor forma, entende uma coisa simples e difícil: a saudade não precisa diminuir para a vida voltar a crescer.

Veredito do Coração

⭐⭐⭐⭐ 4/5

As Dez Vantagens de Morrer Depois de Você emociona porque não tenta transformar Julia numa lição. Ela continua sendo amiga, memória, ausência e amor. Gabi não vence o luto; aprende a viver com ele sem abandonar a própria vida.

AVISO: Esta crítica contém spoilers moderados sobre a função das cartas e os novos vínculos de Gabi, mas evita detalhar o encerramento. Para isso, consulte nosso Final Explicado.

O filme está em cartaz nos cinemas brasileiros. O Minha Série Favorita incentiva o consumo legal pelos canais oficiais.

Magui Schneider
Magui Schneider

Editora-chefe do Minha Série Favorita e psicóloga, com foco em análise de personagens, relações, comportamento e narrativas de séries, filmes e novelas.

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