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Crítica de Lobisomem: o monstro mais assustador é perceber que podemos repetir nossos pais

O momento mais triste de Lobisomem, disponível na Netflix, não é quando Blake começa a perder dentes. Também não é quando seu corpo muda tanto que Charlotte já não consegue reconhecer o homem com quem se casou. É quando percebemos que ele passou a vida inteira tentando não se tornar o próprio pai — e vai acabar obrigando a filha a sentir o mesmo medo que ele sentiu quando criança.

Leigh Whannell entende que a licantropia sempre funcionou melhor como tragédia do que como espetáculo. Por isso, seu lobisomem não espera uma lua cheia para surgir de repente. Blake adoece diante da família, aos poucos, como alguém que continua ali enquanto perde funções, linguagem, memória compartilhada e controle sobre o próprio corpo.

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Christopher Abbott faz a transformação começar antes da maquiagem

Imagem: Prime Video

Blake já está preocupado com aquilo que herdou de Grady antes de ser ferido. Há um momento em que perde a paciência com Ginger e imediatamente reconhece no próprio tom algo que associa ao pai.

Abbott interpreta esse susto com mais força do que qualquer prótese. O medo real é perceber que violência familiar não precisa ser ensinada de forma deliberada para atravessar gerações; às vezes ela reaparece num gesto que alguém jurou nunca repetir.

Quando a infecção começa, o filme apenas transforma essa ansiedade em corpo.

A melhor ideia do filme é nos colocar dentro da transformação

Whannell não tenta competir com a famosa metamorfose de Um Lobisomem Americano em Londres. Ele escolhe outra coisa: tornar o processo sensorial.

A linguagem de Charlotte se converte em ruído incompreensível. Sons pequenos ficam agressivos. A escuridão deixa de funcionar da mesma maneira. O espaço conhecido pela família passa a ser percebido de outra forma por Blake.

É uma decisão brilhante porque faz a perda de humanidade parecer menos uma mudança estética e mais uma separação progressiva. Blake ainda vê a esposa e a filha, mas já não habita exatamente o mesmo mundo que elas.

O body horror fala de doença sem transformar doença em monstro

Whannell contou que pensou em enfermidades degenerativas e na experiência de assistir uma amiga atravessar ELA enquanto escrevia. Christopher Abbott também falou sobre Alzheimer e Parkinson como referências emocionais para a transformação.

Essa inspiração poderia ser delicada demais, porque associar pessoas doentes a monstros seria um caminho cruel. O filme evita parte desse problema ao colocar o horror na experiência de perder funções e de assistir alguém amado se tornar inacessível, não na ideia de que pessoas doentes sejam perigosas por natureza.

Ainda assim, a metáfora fica desconfortável quando Blake passa efetivamente a caçar a família. É um limite que o filme nunca resolve completamente.

Julia Garner precisa atuar diante de alguém que ainda está ali — e já não está

Imagem: Prime Video

Charlotte começa a história quase como problema conjugal. Trabalha muito, parece distante e é apresentada sob o olhar de Blake, que deseja recuperar uma família idealizada.

Quando a transformação avança, Garner ganha o filme. Ela precisa decidir em cada estágio se está falando com o marido, cuidando de alguém doente ou fugindo de uma criatura.

O melhor trabalho está justamente nas transições. Charlotte demora a abandonar a esperança porque qualquer mudança física ainda deixa restos reconhecíveis de Blake diante dela.

Ginger impede o terceiro ato de virar apenas perseguição

Matilda Firth possui uma função complicada: a filha poderia existir apenas para aumentar o perigo. O roteiro lhe dá mais.

Ginger entende o pai de forma diferente da mãe porque a relação entre os dois sempre foi mais imediata. No fim, é ela quem percebe que a agressividade do lobisomem convive com sofrimento.

Quando diz que ele quer ser libertado, a criança reconhece algo que os adultos não conseguem formular. A cena transforma a morte de Blake em escolha trágica, não apenas eliminação do monstro.

Grady é o verdadeiro fantasma da casa

Sam Jaeger aparece pouco, mas Grady controla todo o filme. Blake volta ao Oregon porque o pai foi declarado morto. A casa pertence ao pai. As habilidades de sobrevivência foram ensinadas por ele. O medo da floresta nasceu com ele.

E, claro, a criatura também é ele.

A revelação funciona menos como “surpresa de roteiro” e mais como conclusão inevitável. Blake foi para casa tentando lidar com uma herança e acabou literalmente contaminado por ela.

A falta de mitologia tradicional é uma força

Não há grande explicação sobre lua cheia, prata ou maldição familiar. A comunidade fala numa criatura conhecida como “Face of the Wolf”, enquanto a abertura sugere uma possível condição infecciosa ligada à região.

Whannell prefere a incerteza. A licantropia se comporta como transmissão biológica, mas nunca recebe diagnóstico definitivo.

Isso combina com o terror do filme. Quando alguém está adoecendo de forma aterrorizante, a família não recebe imediatamente um manual dizendo o que fazer.

O desenho do monstro é menos elegante — e isso é proposital

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Imagem: Prime Video

Quem espera um lobisomem coberto de pelos, com focinho longo e silhueta clássica, pode estranhar. Blake parece doente antes de parecer lobo.

A maquiagem insiste em pele, queda de cabelo, dentes, unhas e deformação. É um corpo humano deteriorando-se e reorganizando-se, não alguém vestindo uma fantasia lupina.

Whannell citou o Coringa de Heath Ledger como inspiração para essa lógica: manter algo reconhecível no ícone, mas retirar a forma mais cartunesca que o público espera.

O que nos arrebatou / O que escorregou

O que nos arrebatouO que escorregou
A transformação contada por som e percepçãoA metáfora da doença pode ficar pesada demais no terceiro ato
Christopher Abbott fazendo medo existir antes da maquiagemCharlotte leva tempo para ganhar vida própria
Julia Garner na transição entre cuidado e sobrevivênciaA mitologia é deliberadamente vaga e pode frustrar quem quer respostas
Grady como herança literal e emocionalO confinamento perde um pouco de força na perseguição final
Efeitos práticos e body horrorO desenho do lobisomem divide opiniões

Olhar familiar: proteger não é controlar

Grady acredita que amar o filho significa torná-lo resistente a qualquer custo. Blake tenta construir o oposto: proximidade, carinho e presença.

Mas proteger também pode virar controle quando nasce do medo. O filme deixa Blake obcecado em manter Ginger segura e mostra como esse impulso pode carregar traços do mesmo pai que ele rejeita.

O verdadeiro rompimento do ciclo acontece apenas no final, quando Blake parece permitir que Charlotte faça aquilo que ele já não consegue: proteger Ginger dele próprio.

Veredito do coração

Lobisomem é menos divertido do que muitos filmes de lobisomem e mais triste do que a campanha de terror talvez faça parecer. Essa escolha vai afastar quem procura transformação espetacular, mitologia elaborada ou caça a monstros.

Mas há algo muito forte na ideia de usar um monstro de quase cem anos para falar sobre aquilo que alguém teme transmitir aos próprios filhos. Whannell não reinventa a tragédia do lobisomem; encontra uma ferida contemporânea para colocá-la dentro.

Nota: 4 de 5 estrelas. ⭐⭐⭐⭐☆

Pacto de respeito à arte: esta crítica analisa o filme, suas metáforas e escolhas de horror corporal sem reduzir experiências reais de doença a uma criatura ficcional.

Magui Schneider
Magui Schneider

Editora-chefe do Minha Série Favorita e psicóloga, com foco em análise de personagens, relações, comportamento e narrativas de séries, filmes e novelas.

Artigos: 363

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