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Crítica de Uma Segunda Chance: o romance é bonito, mas a maternidade é a história que realmente importa

Há uma versão de Uma Segunda Chance, disponível no Prime Video, que poderia ter sido apenas sobre uma mulher se apaixonando pelo melhor amigo do namorado morto. É uma premissa suficientemente melodramática para sustentar duas horas sozinha.

Felizmente, Maika Monroe parece atuar em outro filme. Toda vez que Kenna olha para Diem sem poder se aproximar, o romance com Ledger diminui de tamanho. O que está em jogo não é encontrar um novo homem. É descobrir se uma mulher que já cumpriu uma pena criminal ainda terá o resto da vida usado como continuação dessa sentença.

Maika Monroe não pede que a gente goste de Kenna imediatamente

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Imagem: Prime Video

Esse é talvez o maior acerto da atuação. Kenna volta à cidade defensiva, cansada e pouco interessada em fazer uma apresentação simpática de si mesma. Ela sabe que será julgada antes de falar e parece ter desistido de tentar controlar a primeira impressão.

Monroe usa muito bem essa dureza. Conhecida por personagens cercadas de ameaça em filmes como Corrente do Mal e Longlegs, ela traz para Kenna uma vigilância que parece aprendida na prisão. A personagem mede ambientes, espera rejeição e raramente acredita quando alguém oferece gentileza.

Isso funciona melhor do que transformá-la numa vítima perfeitamente agradável. Kenna tomou decisões ruins. O filme só pede que essas decisões não sejam confundidas com a totalidade de quem ela é.

O acidente é mais forte quando deixa de ser “a grande revelação”

Durante boa parte do filme, o que aconteceu com Scotty é mantido como uma informação incompleta. Sabemos que houve um acidente, que Kenna foi condenada e que os Landry acreditam que ela abandonou o rapaz ainda vivo.

Quando finalmente ouvimos o relato inteiro, a trama tenta reorganizar nossa opinião sobre ela. Funciona emocionalmente, mas há algo um pouco calculado nessa estrutura: o filme precisa esconder detalhes para que a protagonista pareça mais culpada do que realmente foi.

Seria talvez mais interessante confiar desde cedo na complexidade. Kenna dirigiu depois de consumir droga, perdeu o controle do carro, acreditou que Scotty estava morto e saiu procurando ajuda. Nada disso precisa ser simplificado em inocência absoluta para produzir empatia.

Lauren Graham entende que Grace não é a vilã

Grace Landry poderia facilmente ser escrita como avó cruel que impede uma mãe biológica de reencontrar a filha. Lauren Graham resiste a essa leitura.

Grace perdeu o único filho. Depois recebeu uma neta recém-nascida e precisou construir uma família enquanto acreditava que a mulher responsável pela morte de Scotty havia desistido dele no acostamento.

Quando ela recusa Kenna, existe injustiça. Também existe medo. Permitir a aproximação significa correr o risco de perder Diem emocionalmente para alguém que Grace nunca conseguiu deixar de associar à morte do filho.

É justamente por isso que a mudança de postura no final funciona quando nasce das cartas e não de um discurso conveniente.

Bradley Whitford deixa Patrick mais difícil de perdoar — e isso ajuda

Patrick reage com mais violência. Sua raiva contra Kenna e depois contra Ledger não possui o mesmo cuidado de Grace. Há momentos em que parece incapaz de aceitar qualquer narrativa que desorganize o lugar onde colocou a culpa.

Whitford, porém, encontra algo reconhecível nessa teimosia. Patrick construiu a sobrevivência ao redor de uma certeza: Kenna destruiu sua família. Se essa certeza estiver incompleta, ele terá de admitir que passou anos punindo uma mulher que também estava destruída.

O filme poderia aprofundar mais esse processo, mas o personagem ganha densidade justamente porque a reconciliação não parece tão fácil para ele.

Tyriq Withers tem química com Maika Monroe, mas Ledger é fácil demais

Ledger Ward é bonito, protetor, emocionalmente disponível e praticamente um pai para Diem. O roteiro oferece poucas razões para não gostar dele, e esse excesso de decência às vezes transforma o personagem em ferramenta de cura.

Withers compensa parte disso com uma presença delicada. Sua relação com Kenna não funciona apenas porque os dois se desejam, mas porque ele é a primeira pessoa ligada a Scotty capaz de dizer que sente muito pela perda dela.

É uma frase simples. Para Kenna, é quase revolucionária. Durante anos, ninguém reconheceu que ela também tinha direito de sofrer.

O filme é melhor quando não transforma perdão em absolvição

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Imagem: Prime Video

Kenna não recebe uma revelação mágica provando que nunca fez nada errado. Ela dirigiu depois de consumir substância, tomou decisões ruins e perdeu Scotty num acidente que poderia talvez ter sido evitado.

O que muda é a ideia de que culpa precisa durar para sempre. A Justiça aplicou uma pena. A cidade criou outra, sem prazo para terminar.

A história fica mais interessante quando separa responsabilidade de identidade. Uma pessoa pode ter causado dano e ainda assim continuar sendo mãe, amiga, trabalhadora e alguém capaz de construir outra vida.

A maternidade é mais forte que o romance

O marketing naturalmente vende Kenna e Ledger. Mas a cena que organiza o filme inteiro é o primeiro encontro entre Kenna e Diem.

Não existe paixão romântica capaz de competir com uma mãe tentando decidir como dizer a uma criança que esteve ausente por toda a vida: “eu sou sua mãe”. A câmera não precisa fazer muito. Monroe e Zoe Kosovic carregam o peso.

É também aí que o título brasileiro funciona particularmente bem. A segunda chance não é apenas amorosa. É maternal, familiar e social.

O roteiro ainda simplifica demais o sistema que puniu Kenna

Há questões enormes ao redor da protagonista: direitos parentais, acesso a defesa adequada, reinserção após prisão, emprego para ex-detentos e julgamento comunitário. O filme menciona várias delas, mas prefere tratá-las como obstáculos emocionais individuais.

Isso deixa a narrativa acessível, mas também confortável. Kenna encontra pessoas boas e lentamente reconstrói a vida. Nem todo mundo que sai da prisão recebe um Ledger, uma Ruth ou uma oportunidade de reconciliação familiar.

O filme toca em algo estrutural e frequentemente volta para a segurança do melodrama.

As cartas são o recurso mais literário — e mais necessário

Kenna escreve para Scotty porque não consegue falar com ele. No livro, essas cartas ocupam muito mais espaço e nos deixam presos à consciência da personagem.

No cinema, aparecem em menor quantidade, mas ainda cumprem a função central: provar que o luto de Kenna não começou quando voltou à cidade. Ela conversa com Scotty há anos, tentando reconstruir uma noite que não pode mudar.

Quando Ledger entrega uma dessas páginas aos Landry, o gesto também é problemático — ele invade algo íntimo sem autorização. Ainda assim, narrativamente é o único objeto capaz de furar uma história que Grace e Patrick repetiram durante anos.

O que nos arrebatou / O que escorregou

O que nos arrebatouO que escorregou
Maika Monroe recusando uma Kenna fácil de amarO acidente é escondido de forma um pouco calculada
Lauren Graham dando humanidade a GraceLedger é idealizado demais
O primeiro encontro entre Kenna e DiemQuestões estruturais viram obstáculos individuais
A ideia de que responsabilidade não precisa virar identidade eternaAlgumas reconciliações chegam limpas demais
As cartas como registro de um luto negadoO romance às vezes ocupa espaço da relação materna

Olhar feminino: quem decide quando uma mulher voltou a merecer ser mãe?

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Imagem: Prime Video

O filme faz uma pergunta desconfortável sem formulá-la explicitamente. Kenna deu à luz na prisão. Diem foi entregue a outra família, e quando a mãe finalmente volta, precisa provar não apenas que ama a filha, mas que merece sequer ser vista por ela.

Grace também é mãe. Sua resistência nasce de uma perda que nenhuma decisão posterior pode corrigir. Colocar as duas mulheres como inimigas seria fácil; o filme melhora quando reconhece que ambas estão tentando proteger um vínculo materno diferente.

O perdão só começa quando Grace aceita que amar Diem não precisa exigir apagar Kenna.

Elenco e atmosfera

Rudy Pankow aparece em flashbacks como Scotty e consegue fazer o personagem existir para além de “homem morto que move o roteiro”. Lainey Wilson traz leveza como Amy, enquanto Bradley Whitford torna Patrick um contraponto mais duro à mudança de Grace.

As paisagens de Alberta fazem o Wyoming parecer ao mesmo tempo bonito e sufocante. Há estradas enormes, montanhas e silêncio — um espaço aberto demais para uma mulher que sente não ter lugar em nenhum canto daquela cidade.

Veredito do coração

Uma Segunda Chance é melodrama assumido. Quer lágrimas, reconciliações e abraços depois de anos de dor. Às vezes força esse caminho mais do que precisava.

Mas Maika Monroe impede que Kenna vire apenas instrumento de manipulação emocional. Há vergonha, raiva e uma dureza que não desaparecem quando o filme começa a oferecer esperança.

O romance com Ledger funciona. A verdadeira história de amor, porém, está em Kenna conseguir olhar para Diem e existir finalmente como mãe diante dela.

Nota: 3,5 de 5 estrelas. ⭐⭐⭐½☆

Pacto de respeito à arte: esta crítica analisa personagens, atuações, maternidade, culpa e escolhas de adaptação. Uma Segunda Chance está disponível legalmente no Prime Video.

Magui Schneider
Magui Schneider

Editora-chefe do Minha Série Favorita e psicóloga, com foco em análise de personagens, relações, comportamento e narrativas de séries, filmes e novelas.

Artigos: 344

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