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Crítica de Outra Mamãe: Jessica Chastain assusta mais quando o filme para de tentar assustar

Outra Mamãe, em cartaz nos cinemas, parte de uma ideia quase perfeita para o terror: uma criança vê a própria mãe entrar no quarto e percebe que aquela mulher não é sua mãe.

Não é preciso sangue.

Nem criatura digital.

Nem grito.

Existe alguma coisa profundamente primitiva no medo de reconhecer um rosto e não reconhecer aquilo que habita atrás dele.

É justamente por isso que o filme de Rob Savage funciona melhor quando confia em Jessica Chastain — e pior quando parece não confiar que ela seja assustadora o bastante.

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Imagem: Universal Pictures

A grande imagem de Outra Mamãe é simples.

Jessica Chastain olha para Bela.

Sorri.

E demora uma fração de segundo além do que deveria.

É nesse intervalo minúsculo que mora o melhor terror do filme.

Chastain interpreta Ursula e sua imitação sobrenatural sem depender apenas de maquiagem ou grandes transformações. Ela muda postura, rigidez corporal, ritmo da fala e principalmente aquilo que fazemos sem perceber quando estamos perto de uma criança: a maneira de suavizar o próprio corpo.

Outra Mamãe tenta reproduzir isso.

Mas reproduz como alguém que estudou seres humanos sem compreendê-los.

A atriz chegou a explicar que imaginou a criatura sentindo dor para manter aquela forma humana.

É uma ideia excelente.

Quando Chastain simplesmente está parada numa porta, o filme tem alguma coisa.

Quando resolve mostrar demais, perde.

Arabella Olivia Clark é quem mantém o terror no tamanho certo

É muito fácil esquecer que toda essa história deveria acontecer à altura de uma criança.

Arabella Olivia Clark impede isso.

Bela não reage como uma adulta pequena.

Ela negocia.

Confia.

Fica curiosa.

Interpreta palavras literalmente.

E acredita durante algum tempo que talvez possa estabelecer regras com aquilo que vive dentro de casa.

Essa inocência é essencial porque Outra Mamãe não precisa apenas assustá-la.

Precisa convencê-la.

A criatura não entra arrombando portas.

Pede autorização.

E uma menina de oito anos ainda está aprendendo que adultos, amigos e pessoas sorridentes nem sempre dizem aquilo que realmente querem.

O rosto da mãe é uma grande ideia — mas custa alguma coisa

Existe uma diferença fascinante entre a adaptação e o romance de Josh Malerman.

No livro, Other Mommy é mais difícil de organizar mentalmente.

Sua aparência emerge aos poucos e possui algo de grotesco, instável e pouco humano.

Savage faz uma escolha muito mais clara:

ela parece com Ursula.

Funciona imediatamente como cinema.

Também elimina parte daquilo que tornava a criatura literária tão perturbadora.

O desconhecido ganha um rosto.

E um rosto é sempre mais fácil de compreender do que uma coisa que nossa cabeça não consegue terminar de montar.

O filme troca horror cósmico por horror materno.

Não é necessariamente uma escolha ruim.

Mas é uma troca.

O problema começa quando o filme acha que susto é a mesma coisa que medo

Savage já demonstrou saber trabalhar com expectativa.

Por isso é frustrante vê-lo recorrer tantas vezes à preparação tradicional do jumpscare.

O silêncio.

O quadro vazio.

O movimento brusco.

O som estourando.

Funciona uma vez.

Talvez duas.

Depois começamos a esperar o susto em vez de temer aquilo que pode estar chegando.

Parte das primeiras críticas também identificou exatamente esse problema, apontando excesso de jumpscares, efeitos digitais e dificuldade para transformar estranheza em tensão sustentada.

O mais curioso é que o filme possui uma arma melhor.

Jessica Chastain.

Bastava deixá-la olhando.

A família quebrada é mais importante do que a casa assombrada

Outra Mamãe não encontra uma família perfeita.

Chega numa casa em que a segurança de Bela já possui rachaduras.

Existem coisas que os pais escondem.

Adultos que mentem.

Ressentimentos.

Frustrações.

Segredos que uma criança percebe sem conseguir nomear.

É isso que torna a entidade mais interessante do que um espírito qualquer.

Ela não cria todas aquelas fissuras.

Entra por elas.

Essa é provavelmente a ideia psicológica mais forte do filme.

Uma criança não precisa compreender exatamente por que os pais estão distantes para sentir que alguma coisa mudou.

E, quando aquilo que deveria significar proteção deixa de parecer seguro, qualquer outra figura capaz de oferecer atenção começa a ficar perigosamente sedutora.

Jay Duplass acerta ao não transformar Russ em herói

Jay Duplass interpreta Russ com uma fragilidade importante.

Ele ama Bela.

Isso não significa que saiba protegê-la.

Também existe uma tendência muito humana de acreditar que alguns problemas podem ser resolvidos simplesmente continuando a funcionar normalmente.

É a esperança quase infantil de que, se todos tomarem café da manhã e conversarem baixo, talvez aquilo desapareça.

Não desaparece.

O filme entende que pais podem amar profundamente os filhos e ainda assim cometer decisões devastadoras.

Essa talvez seja sua ideia mais cruel.

A maternidade vira o verdadeiro campo de batalha

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Imagem: Universal Pictures

Ao colocar Jessica Chastain nos dois papéis, Savage faz uma coisa que o livro não fazia da mesma forma.

Transforma Bela numa criança disputada por duas versões de maternidade.

Uma é humana.

Falha.

Impaciente.

Cheia de culpa.

A outra parece oferecer atenção absoluta.

Não possui trabalho, casamento, nem problemas próprios.

Existe somente para Bela.

É uma fantasia infantil perigosíssima.

Porque mães reais não conseguem existir exclusivamente para seus filhos.

Monstros conseguem fingir que sim.

Nesse sentido, Outra Mamãe é bem mais interessante como história sobre idealização materna do que como filme sobre possessão.

O excesso visual prejudica aquilo que deveria permanecer errado

Existe um ponto em que o filme começa a ampliar sua própria mitologia.

A criatura se torna maior.

As imagens ficam mais elaboradas.

Os efeitos assumem mais espaço.

E alguma coisa se perde.

Outra Mamãe é mais assustadora quando quase consegue passar por Ursula.

Quanto mais monstruosa se torna visualmente, mais simples fica classificá-la.

Monstro.

Perigo.

Fuja.

O terror realmente desconfortável existia antes:

e se Bela não quiser fugir?

Outra Mamãe vale a pena?

Sim, mas com ressalvas.

Há uma grande ideia aqui e uma interpretação de Jessica Chastain que entende perfeitamente como pequenas imperfeições tornam um ser humano falso mais assustador do que uma criatura completamente deformada.

Arabella Olivia Clark também segura o centro emocional.

O filme perde força quando abandona essa intimidade e tenta transformar cada nova aparição em um evento maior do que a anterior.

Não precisava.

A imagem mais aterrorizante já estava disponível desde o início:

uma criança olhando para a própria mãe

e percebendo que a mãe está sorrindo errado.

Nota: 3 de 5 estrelas. ⭐⭐⭐☆☆

Magui Schneider
Magui Schneider

Editora-chefe do Minha Série Favorita e psicóloga, com foco em análise de personagens, relações, comportamento e narrativas de séries, filmes e novelas.

Artigos: 276

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