O Predador: A Caçada, disponível no Disney+, retorna 300 anos no passado para reconstruir uma das franquias mais conhecidas da ficção científica a partir de uma jovem comanche que se recusa a aceitar o lugar que escolheram para ela. Dirigido por Dan Trachtenberg, com roteiro de Patrick Aison, o filme é estrelado por Amber Midthunder, Dakota Beavers, Michelle Thrush e Dane DiLiegro.
Naru quer caçar.
Parece uma ambição simples.
Para os homens ao redor dela, não é.
Ela sabe rastrear.
Conhece plantas.
Observa pegadas.
Percebe mudanças no ambiente.
Aprende rápido.
Ainda assim, existe sempre alguém disposto a explicar por que aquilo não é suficiente.
Então alguma coisa chega do céu.
Um caçador muito mais avançado tecnologicamente começa a percorrer aquelas terras procurando adversários dignos.
E O Predador: A Caçada faz uma escolha excelente:
não transforma Naru numa guerreira extraordinária porque, subitamente, ela consegue ser mais forte do que todos os homens.
Ela sobrevive porque presta atenção.
E talvez seja justamente isso que todo mundo passou tempo demais subestimando.
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Naru não precisa provar que é igual aos homens — precisa descobrir que nunca precisou lutar como eles

Amber Midthunder é o coração absoluto do filme.
Naru pertence à Nação Comanche e vive em 1719, muito antes do encontro entre Dutch e o Predador no filme de 1987. Ela deseja participar da kühtaamia, o rito de passagem associado à caça e à demonstração de capacidade como guerreira.
Mas o maior obstáculo de Naru inicialmente não é o alienígena.
É a maneira como é percebida.
Seus conhecimentos são valorizados quando servem ao cuidado.
Reconhecer ervas?
Ótimo.
Tratar ferimentos?
Útil.
Rastrear?
Também.
Mas utilizar tudo isso para ocupar o espaço reservado aos caçadores provoca resistência.
A força do roteiro está em não tornar Naru secretamente perfeita.
Ela erra.
Calcula mal.
Precisa aprender.
Existem situações em que sua confiança é maior do que sua experiência.
Isso é fundamental.
Uma protagonista competente não precisa nascer pronta.
Naru não se torna forte quando finalmente consegue fazer aquilo que os homens fazem. Ela se torna perigosa quando percebe que pode fazer de outro jeito.
Amber Midthunder transmite muito bem essa transição.
No começo, existe algo de ansioso em sua determinação.
Naru quer provar.
Quer ser vista.
Quer demonstrar que estavam errados.
Depois, isso muda.
Quando a ameaça se torna real, reconhecimento deixa de ser o objetivo.
Sobreviver passa a ser.
E é aí que a personagem amadurece.
O Predador: A Caçada entende que inteligência também é uma arma
O Predador possui praticamente todas as vantagens.
É maior.
Mais forte.
Tem tecnologia avançada.
Camuflagem.
Armas capazes de matar a distância.
Uma resistência física que nenhum ser humano pode enfrentar diretamente.
O filme poderia resolver essa diferença simplesmente transformando Naru numa heroína impossível.
Não faz isso.
Ela observa.
Percebe como ele escolhe suas presas.
Entende como suas armas funcionam.
Memoriza comportamentos.
Aprende com cada encontro.
É esse processo que torna o confronto interessante.
Naru não vence uma batalha porque o roteiro decidiu que chegou a hora de ela ser poderosa.
Cada informação aparece antes.
Cada experiência deixa alguma coisa.
O conhecimento vai se acumulando.
É quase um filme sobre aprender a ler o adversário.
RogerEbert.com destacou justamente essa característica: Naru equilibra força física com inteligência e capacidade de observação, enquanto o roteiro transforma natureza e ambiente em partes fundamentais de sua sobrevivência.
Isso também recupera algo muito bom do Predador original.
A tecnologia pode ser superior.
Mas tecnologia não garante vitória.
Quando a pessoa perseguida compreende como o caçador pensa, a relação entre presa e predador começa a mudar.
A relação entre Naru e Taabe impede que a história vire uma simples guerra entre homens e mulheres
Dakota Beavers interpreta Taabe, irmão de Naru.
E gosto muito do que existe entre eles.
Taabe também duvida dela.
Também ocupa uma posição que Naru deseja conquistar.
Mas o filme evita transformá-lo no irmão machista colocado ali apenas para ser humilhado quando a protagonista provar seu valor.
Existe afeto.
Existe provocação.
E há competição.
E existe reconhecimento.
Midthunder e Beavers constroem rapidamente a sensação de duas pessoas que cresceram juntas e conhecem exatamente como irritar uma à outra.
RogerEbert.com observou essa naturalidade da relação dos irmãos como uma das razões pelas quais o perigo posterior ganha peso emocional.
Taabe é importante porque permite ao filme fazer uma distinção.
Naru enfrenta uma estrutura que limita aquilo que esperam dela.
Isso não significa que cada homem individualmente precise ser transformado em vilão.
Há homens que a subestimam.
Outros reconhecem gradualmente o que ela consegue fazer.
Essa nuance melhora muito a história.
E transforma o vínculo entre Naru e Taabe em algo mais bonito do que uma disputa para descobrir quem é “o melhor guerreiro”.
O olhar feminino de O Predador: A Caçada está na maneira como a subestimação vira vantagem

Existe uma ironia deliciosa na situação de Naru.
Durante tanto tempo, os homens ao redor não a veem como ameaça que o próprio Predador comete um erro parecido.
Isso é mais interessante do que construir uma heroína que simplesmente derrota todos em igualdade de condições.
Naru conhece a experiência de não ser levada a sério.
Ela já sabe como é estar diante de alguém que olha para ela e decide antecipadamente aquilo que consegue ou não fazer.
O filme transforma essa experiência em conhecimento.
O Guardian observou justamente como o sexismo ao redor da personagem acaba produzindo uma vantagem inesperada: Naru é subestimada porque não corresponde à imagem convencional de um guerreiro.
Mas existe um detalhe importante.
O filme não romantiza a discriminação como se ela tivesse sido necessária para torná-la forte.
Naru seria habilidosa sem precisar ser humilhada.
O que acontece é outra coisa.
Depois de passar tanto tempo sendo mal interpretada, Naru aprendeu a perceber o perigo de acreditar que já sabemos tudo sobre alguém apenas olhando para ela.
O Predador também avalia suas presas.
E também pode avaliar errado.
A cultura comanche não funciona como cenário exótico para a história do Predador
Esse era um dos maiores riscos do projeto.
Utilizar uma comunidade indígena apenas para oferecer um cenário “diferente” para uma franquia hollywoodiana teria sido uma escolha vazia.
O filme procura outro caminho.
A Nação Comanche é o mundo da história.
Naru não existe para apresentar sua cultura a um protagonista estrangeiro.
Ela é a protagonista.
Sua família, suas relações e seus conhecimentos precedem a chegada do monstro.
Amber Midthunder, que tem ascendência indígena e é identificada como atriz Assiniboine Sioux, falou publicamente sobre o cuidado necessário ao aceitar papéis indígenas e destacou a preocupação de O Predador: A Caçada em evitar representações unidimensionais. A produção também contou com Jhane Myers, produtora comanche e consultora cultural, e versões do filme foram exibidas a representantes da Nação Comanche durante o processo de produção.
Existe ainda uma decisão especialmente significativa.
O longa recebeu uma versão completamente dublada em comanche.
O próprio Disney+ apresenta O Predador: A Caçada como o primeiro longa dublado no idioma comanche e o primeiro filme a estrear simultaneamente em inglês e em uma língua indígena norte-americana.
Não transforma Hollywood automaticamente em exemplo de representação.
Mas importa.
Especialmente numa franquia que poderia ter escolhido simplesmente outro grupo de soldados armados.
Existe outro predador andando por aquelas terras — e ele é humano
Em determinado momento, Naru encontra bisões mortos e esfolados.
Inicialmente, a imagem parece anunciar mais uma demonstração da brutalidade alienígena.
Não foi ele.
Foram homens.
Caçadores franceses também atravessam aquelas terras.
E a presença deles amplia silenciosamente o significado do título.
Quem está caçando quem?
O alienígena caça para provar superioridade.
Os colonizadores matam e exploram.
Naru caça para sobreviver, alimentar e proteger.
As ações podem envolver violência.
As motivações não são iguais.
O filme não transforma essa camada histórica numa longa explicação sobre colonialismo.
Nem precisa.
Basta a imagem dos animais.
Odie Henderson, no RogerEbert.com, observa exatamente essa inversão: Naru primeiro atribui o massacre ao monstro até perceber que humanos foram responsáveis por aquela violência.
É uma ideia simples.
E eficiente.
O monstro extraterrestre não possui monopólio sobre a brutalidade.
Dane DiLiegro devolve ao Predador a sensação de criatura
Dane DiLiegro interpreta o Predador.
E gosto muito da maneira como Trachtenberg decide apresentá-lo.
Ele ainda possui tecnologia muito superior à humana.
Mas não é exatamente a criatura que conhecemos nos filmes ambientados séculos depois.
Há diferenças no equipamento.
Nas armas.
Na proteção.
Até na aparência.
O importante é que ele volta a parecer um caçador.
Não uma coleção de referências à franquia.
Vemos o alienígena identificar diferentes animais.
Avaliar ameaças.
Testar o ambiente.
Subir progressivamente pela cadeia alimentar.
Essa estrutura cria uma espécie de espelho entre ele e Naru.
Os dois estão observando.
Aprendendo.
Caçando.
A diferença é aquilo que cada um deseja provar.
E Trachtenberg resiste à tentação de explicar demais a mitologia.
Não precisamos conhecer a infância do Predador.
Não precisamos descobrir como sua civilização funciona.
O Guardian elogiou justamente essa decisão de manter a trama autocontida e evitar transformar o prelúdio em desculpa para uma quantidade infinita de explicações sobre a franquia.
Graças a isso, o monstro volta a ser misterioso.
Como deveria.
Por trás das câmeras: a paisagem é tão importante quanto qualquer arma
Dan Trachtenberg já havia mostrado em Rua Cloverfield, 10 que compreende muito bem uma ameaça que só se torna completamente visível aos poucos.
Aqui, troca o confinamento por espaços enormes.
Florestas.
Planícies.
Rios.
Montanhas.
O mundo parece aberto.
Ainda assim, Naru nunca está completamente segura.
A fotografia de Jeff Cutter utiliza essa imensidão para reforçar a escala física da história. As filmagens aproveitaram paisagens de Alberta, no Canadá, que receberam elogios pela maneira como transformam a aventura numa experiência visual muito maior do que a típica produção feita apenas para streaming.
A música de Sarah Schachner também merece atenção.
Existe percussão.
Tensão.
Movimento.
Mas a trilha não precisa imitar os filmes anteriores o tempo inteiro para provar que estamos assistindo a um Predador.
As cenas de ação também são surpreendentemente claras.
Conseguimos entender onde os personagens estão.
Quem está atacando.
De onde vem o perigo.
Isso parece básico.
Em tempos de ação cortada em dezenas de planos por minuto, não é.
E a violência?
Continua brutal.
Sangue verde.
Ossos.
Corpos.
Armas atravessando pessoas.
Trachtenberg sabe perfeitamente qual franquia está dirigindo.
Só não deixa o gore substituir suspense.
Vale a pena assistir a O Predador: A Caçada no Disney+?

Muito.
Talvez justamente porque ele não parece desesperado para salvar a franquia.
Não existem discursos explicando por que O Predador ainda é importante.
Não há desfile de participações nostálgicas.
A história simplesmente encontra uma ideia boa e executa.
Ano de 1719.
Uma caçadora comanche.
Um alienígena procurando uma presa digna.
Pronto.
O Guardian definiu o filme como uma revitalização surpreendentemente fresca para uma série que já havia acumulado continuações, cruzamentos e reinícios.
É exatamente essa sensação.
O Predador: A Caçada não reinventa o que significa um Predador.
Relembra aquilo que tornava a ideia boa.
Um caçador superior aparece.
Uma pessoa aparentemente em desvantagem precisa compreender suas regras.
E nós observamos a hierarquia de poder começar a virar.
O raio-X do Minha Série Favorita
| O que nos arrebatou | O que escorregou |
|---|---|
| Amber Midthunder transformando Naru numa heroína construída pela observação | Alguns personagens secundários masculinos são pouco desenvolvidos |
| A relação entre Naru e Taabe | Certas etapas da evolução de Naru acontecem rapidamente |
| A ambientação dentro da Nação Comanche | Os caçadores franceses funcionam mais como ameaça do que como personagens |
| O Predador voltando a ser uma criatura misteriosa | Alguns efeitos digitais de animais não mantêm o mesmo nível das paisagens |
| A ação clara e brutal de Dan Trachtenberg | Quem procura muita mitologia da franquia encontrará uma história deliberadamente simples |
| A versão integral em idioma comanche | O lançamento originalmente restrito ao streaming parece pequeno para a escala visual do filme |
O veredito do coração: O Predador: A Caçada merece entrar na lista?
- NOTA: 4,5 de 5 estrelas. Selo Minha Série Favorita: uma aventura de sobrevivência inteligente que percebe que Naru nunca precisava se tornar mais forte que o Predador — precisava aprender mais rápido do que ele.
O Predador: A Caçada faz algo que muitas franquias antigas parecem ter esquecido.
Conta uma história.
Só isso.
Não está tentando resolver vinte anos de continuidade.
Não exige que você conheça todos os filmes anteriores.
Naru poderia existir fora da franquia.
Essa talvez seja justamente a razão pela qual funciona tão bem dentro dela.
Amber Midthunder possui presença suficiente para carregar o filme sem precisar imitar heróis anteriores.
Ela não é uma versão feminina de Dutch.
É Naru.
Sua maior habilidade não está nos músculos.
Está no modo como observa.
Como aprende.
Como transforma aquilo que viu numa estratégia.
O próprio Predador também está aprendendo.
E é essa simetria que torna a disputa satisfatória.
Recomendo especialmente para quem gosta de ação, ficção científica, histórias de sobrevivência, protagonistas femininas inteligentes e filmes capazes de revitalizar uma franquia sem viver exclusivamente de nostalgia.
Também recomendo assistir à versão em comanche pelo menos uma vez, caso ela esteja disponível entre as opções de áudio da sua região. O Disney+ confirma oficialmente a existência dessa versão integral.
A ficha atual do serviço registra o filme como produção de 2022, com aproximadamente 1h40, classificação 16 anos e direção de Dan Trachtenberg.
E, no fim, Naru demonstra uma coisa que vai muito além daquela caçada.
Todos ao seu redor estavam ocupados perguntando se ela tinha força suficiente para enfrentar aquilo.
Talvez estivessem fazendo a pergunta errada.
Naru não vence porque deixa de ser a presa. Vence porque entende o predador antes que ele consiga entendê-la.
Pacto de Respeito à Arte — Minha Série Favorita
No Minha Série Favorita, acreditamos que respeitar uma produção também significa reconhecer o trabalho de atores, roteiristas, diretores, equipes técnicas e consultores culturais envolvidos em sua realização.
O Predador: A Caçada está disponível oficialmente no Disney+ Brasil. A plataforma registra o longa como produção de 2022, com 1h40 de duração e classificação indicativa de 16 anos.




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