Lanternas, série da HBO Max, transforma dois dos heróis mais poderosos da DC em policiais investigando mortes numa pequena cidade americana — e, contra todas as expectativas, é justamente quando esquece um pouco os superpoderes que encontra sua melhor história. Criada por Chris Mundy, Damon Lindelof e Tom King, a primeira temporada tem oito episódios e coloca Kyle Chandler e Aaron Pierre como Hal Jordan e John Stewart.
O anel de um Lanterna Verde responde à força de vontade.
Parece simples.
Não é.
Porque força de vontade não significa ausência de medo.
Também não significa equilíbrio emocional, sabedoria ou capacidade de fazer sempre a escolha certa.
E Lanternas entende isso muito bem.
Hal Jordan possui experiência suficiente para acreditar que já sabe quem é.
John Stewart passou boa parte da vida tentando provar quem merece ser.
Entre os dois existe um anel.
Mas também existem idade, autoridade, ressentimento, fracasso, orgulho e duas maneiras completamente diferentes de compreender coragem.
É aí que a série realmente acende.
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Lanternas funciona melhor como série policial do que como espetáculo de super-heróis

A HBO descreveu a trama desde o início como um mistério terrestre: o novato John Stewart e o veterano Hal Jordan, dois policiais intergalácticos, chegam a uma investigação envolvendo um assassinato no coração dos Estados Unidos.
A cidade é Rushville, Nebraska.
E quem entrar esperando planetas coloridos, batalhas cósmicas intermináveis e construtos verdes atravessando a tela a cada cinco minutos encontrará uma série bem diferente.
Há alienígenas, anéis, e poderes.
Existe toda a mitologia da Tropa dos Lanternas Verdes.
Mas Chris Mundy, Damon Lindelof e Tom King preferem aproximar a história de um drama policial rural.
Estradas.
Ranchos.
Bares.
Estádios vazios.
Segredos familiares.
Gente desconfiando de forasteiros.
A comparação recorrente com True Detective não surgiu por acaso. Diversas críticas destacaram justamente a tentativa de colocar a mitologia da DC dentro de uma investigação mais contida e humana.
Em alguns momentos, essa escolha é excelente.
Em outros, sentimos falta justamente da grandiosidade prometida pelos anéis.
O problema de Lanternas não é ser pequena.
É às vezes parecer pequena demais para a história que está contando.
Ainda assim, prefiro uma série que faça essa escolha a outra produção interessada apenas em nos mostrar quanto custaram seus efeitos visuais.
Kyle Chandler faz de Hal Jordan um herói que já não sabe se experiência virou sabedoria ou vício
Kyle Chandler é uma escolha muito interessante para Hal.
Esse não é um Lanterna no início da carreira.
Ele já salvou pessoas.
Já enfrentou situações impossíveis.
Já carregou o anel durante tempo suficiente para transformá-lo quase numa extensão do próprio corpo.
E justamente por isso existe algo cansado nele.
Hal conhece as regras.
Conhece o perigo.
Conhece aquilo que John ainda não conhece.
Mas experiência possui uma armadilha: depois de muitos anos acertando, uma pessoa pode começar a acreditar que sua maneira de fazer alguma coisa é a única possível.
Chandler encontra a mistura certa de autoridade, irritação, humor e melancolia.
O Hollywood Reporter destacou justamente esse Hal construído entre raiva e tristeza, heroísmo e insegurança, além da química entre Chandler e Aaron Pierre como principal força da temporada.
É exatamente o que funciona.
Hal não parece um sábio mestre esperando tranquilamente para transmitir conhecimento.
Ele parece um homem que não tinha qualquer intenção de ser substituído.
Isso muda completamente sua relação com John.
Ensinar alguém significa reconhecer que essa pessoa talvez possa ocupar nosso lugar.
E nem todo mentor está emocionalmente preparado para isso.
Há uma diferença enorme entre querer preparar alguém para o futuro e aceitar que esse futuro talvez já não precise de você.
Lanternas encontra Hal justamente dentro dessa diferença.
Aaron Pierre transforma John Stewart no verdadeiro coração da série
Se Chandler possui o personagem mais experiente, Aaron Pierre recebe aquele com a jornada mais importante.
John Stewart não chega ao anel como alguém aguardando uma aventura.
Chega carregando disciplina.
Controle.
Expectativas.
E uma vida inteira em que demonstrar competência não significava necessariamente receber confiança imediatamente.
A série utiliza duas linhas temporais, principalmente 2016 e 2026, para mostrar como a relação entre John e Hal foi construída e deteriorada ao longo dos anos.
Essa estrutura ajuda a entender John.
Ele não está simplesmente aprendendo como usar um poder.
Está tentando descobrir se deseja pertencer a uma instituição que parece exigir dele algo diferente daquilo que exigiu de Hal.
E aqui Lanternas toca numa discussão muito boa sobre autoridade.
Hal recebeu o anel e passou anos aprendendo através da própria experiência.
John chega extremamente preparado e, ainda assim, é continuamente avaliado.
Pierre transmite isso sem transformar Stewart numa coleção de discursos.
Está no modo como observa.
No silêncio.
Na mandíbula endurecida quando alguém o subestima.
Na quantidade de coisas que parece processar antes de responder.
A crítica do TheWrap destacou justamente as questões raciais incorporadas à relação entre os personagens e à maneira como a série trabalha pertencimento e autoridade.
Mas o melhor é que John nunca fica reduzido a uma tese.
Ele possui orgulho.
Pode ser teimoso.
Julga Hal.
Às vezes corretamente.
Em outras, com menos compreensão do que imagina.
Isso lhe dá vida.
John Stewart passou tanto tempo aprendendo a controlar o medo que sua verdadeira jornada talvez seja descobrir que coragem não exige fingir que o medo desapareceu.
É uma diferença pequena.
Para um Lanterna Verde, é praticamente tudo.
Hal e John são melhores quando parecem dois homens presos numa viagem que nenhum deles queria fazer

A química entre Chandler e Pierre salva episódios inteiros.
Lanternas percebe cedo que não precisa fazer os dois gostarem um do outro rapidamente.
Melhor assim.
Hal acha John rígido.
John acha Hal irresponsável.
Hal acredita que experiência lhe dá autoridade.
John começa a perceber que experiência também pode produzir maus hábitos.
Eles discutem.
Provocam.
Escondem coisas.
E, gradualmente, aprendem a reconhecer alguma coisa do outro dentro de si.
Essa relação é muito mais interessante do que uma dinâmica convencional de mestre e aprendiz.
Porque Hal não é simplesmente aquilo que John deseja se tornar.
Em vários momentos, ele é justamente aquilo que John teme virar.
E John, por sua vez, representa para Hal uma possibilidade desconfortável:
talvez exista outra maneira.
O Los Angeles Times elogiou a opção por uma série em que a relação entre os personagens ocupa o espaço normalmente reservado aos grandes espetáculos dos filmes de super-heróis.
Concordo.
Um anel capaz de criar praticamente qualquer coisa deveria ser fascinante.
Mas dois homens que precisam admitir que estavam errados conseguem ser ainda mais.
Kelly Macdonald coloca Kerry Kane no lugar mais difícil da história: entre dever e vínculo
Kelly Macdonald interpreta a xerife Kerry Kane, responsável pela investigação local em Rushville.
E Kerry precisa fazer aquilo que personagens comuns costumam fazer em histórias de super-heróis:
continuar levando o próprio trabalho a sério mesmo quando surgem homens capazes de voar e criar armas com a imaginação.
Há uma versão dessa personagem que poderia funcionar apenas como empecilho.
A policial local dizendo aos heróis para ficarem longe.
Lanternas tenta lhe dar mais.
Kerry possui relações familiares importantes dentro da cidade e uma vida que existia muito antes da chegada de Hal e John.
Algumas críticas discordaram bastante sobre a atuação. O Guardian, por exemplo, considerou Macdonald inadequada para a personagem, enquanto outras avaliações viram no desenvolvimento posterior de Kerry uma das forças da temporada.
Fico mais próxima da segunda leitura.
Especialmente conforme entendemos que Kerry não está apenas administrando uma investigação.
Está tentando conciliar função pública e afetos privados.
E isso coloca a personagem diante de decisões em que fazer aquilo que parece moralmente correto não significa necessariamente fazer aquilo que é emocionalmente suportável.
Sem entrar nos spoilers do encerramento, vale dizer que Kelly Macdonald cresce bastante quando Kerry deixa de ser apenas “a xerife da cidade”.
O verdadeiro conflito de Lanternas não é vontade contra medo — é aquilo que fazemos com os dois
Essa talvez seja a ideia de que mais gostei.
Os Lanternas Verdes são tradicionalmente associados à força de vontade.
O medo aparece como algo a ser vencido.
Só que seres humanos não funcionam exatamente assim.
Uma pessoa corajosa ainda sente medo.
Um pai sente medo.
Um soldado sente medo.
Um policial sente medo.
Alguém prestes a perder quem ama sente medo.
Tentar remover completamente esse sentimento pode ser menos saudável do que aprender a reconhecê-lo.
Lanternas começa tratando vontade e medo quase como forças opostas.
Gradualmente, torna essa divisão mais complicada.
É onde a série deixa de falar apenas de mitologia da DC.
Talvez maturidade não seja deixar de ter medo. Talvez seja impedir que o medo escolha por nós sem fingir que ele deixou de existir.
Isso vale para John.
Vale para Hal.
Vale para Kerry.
E até para personagens que ocupam posições muito mais ambíguas dentro da história.
Quando Lanternas trabalha nesse nível, toda a discussão sobre cores de anéis deixa de parecer apenas mitologia de quadrinhos.
Vira linguagem emocional.
Lanternas acerta ao tratar poder como responsabilidade — mas às vezes esquece de se divertir
Aqui está minha maior ressalva.
A série é séria.
Frequentemente, séria demais.
O Guardian foi bastante crítico com isso e avaliou que o resultado se torna apagado e sem energia, apesar dos bons protagonistas.
Já outras críticas consideraram justamente a abordagem terrestre e dramática uma renovação bem-vinda para o gênero.
Eu fico no meio.
Gosto de Lanternas não parecer outro produto de super-heróis montado em linha de produção.
Gosto de poder assistir Kyle Chandler e Aaron Pierre dentro de um carro sem que alguém precise explodir alguma coisa a cada três minutos.
Mas ainda estamos falando de policiais intergalácticos com anéis alimentados por força de vontade.
Há espaço para maravilhamento.
E a produção parece ocasionalmente desconfiada desse prazer.
Quando finalmente libera suas sequências maiores, percebemos o quanto poderia brincar mais com os poderes.
Não precisamos de espetáculo constante.
Precisamos sentir que esses personagens pertencem a um universo maior do que Nebraska.
A série nem sempre encontra esse equilíbrio.
O olhar humano: John Stewart precisa conquistar um lugar que Hal aprendeu a considerar seu

Há algo especialmente interessante na diferença entre os dois protagonistas.
Hal ocupa.
John conquista.
Hal fala como alguém que já pertence àquele mundo.
John frequentemente entra em ambientes sabendo que será avaliado antes mesmo de abrir a boca.
Não é preciso transformar Lanternas numa aula sobre raça para perceber a diferença.
A série deixa isso atravessar situações familiares, profissionais e institucionais.
John não tem a liberdade de parecer despreocupado como Hal.
Sua disciplina também funciona como proteção.
Por isso gosto tanto de Aaron Pierre nesse papel.
Existe força física evidente.
Mas a atuação não depende dela.
John está constantemente escolhendo quanto de si permitirá aparecer.
E aqui temos uma das inversões mais bonitas da série.
O homem associado à força de vontade precisa aprender que vulnerabilidade não é fracasso.
Enquanto o veterano que aparentemente nunca teve medo precisa reconhecer as consequências daquilo que evitou enfrentar.
Lanternas não pergunta qual dos dois homens é mais forte. Pergunta que tipo de força cada um precisou construir para sobreviver à própria história.
Por trás das câmeras: o verde existe, mas a poeira de Nebraska fala mais alto
A primeira temporada foi encomendada com oito episódios. Chris Mundy atua como showrunner, e o piloto foi escrito por Mundy, Damon Lindelof e Tom King. James Hawes dirige os dois primeiros capítulos; Stephen Williams, Geeta Vasant Patel e Alik Sakharov também integram o grupo de diretores.
Visualmente, a série evita o brilho limpo normalmente associado à ficção científica.
Existe poeira.
Metal.
Madeira.
Estradas desertas.
Céus enormes.
Os construtos verdes aparecem quase como intrusos naquela paisagem.
Gosto dessa escolha.
Ela torna o extraordinário realmente extraordinário.
O risco é deixar tudo visualmente sóbrio demais.
Uma crítica do Hollywood Reporter observou que a série parece mais confortável com seus personagens do que com as grandes apostas galácticas e que o episódio mais entregue à ação não é necessariamente seu momento mais inventivo.
Faz sentido.
Lanternas claramente sabe filmar pessoas sentadas numa mesa.
Nem sempre demonstra o mesmo entusiasmo quando precisa fazer alguém lançar energia verde através de um campo.
Mas existe personalidade ali.
E isso já diferencia a produção de muitas adaptações visualmente grandiosas e emocionalmente anônimas.
O raio-X do Minha Série Favorita
| O que nos arrebatou | O que escorregou |
|---|---|
| Aaron Pierre construindo John Stewart através de controle, silêncio e vulnerabilidade | A série segura demais o espetáculo prometido pela mitologia |
| Kyle Chandler transformando Hal Jordan num mentor imperfeito | Alguns episódios intermediários perdem ritmo |
| A química amarga e divertida entre Hal e John | Certas ideias são explicadas quando poderiam apenas ser sentidas |
| A discussão sobre medo, vontade e autoridade | A investigação nem sempre sustenta todo o peso do mistério |
| Kelly Macdonald crescendo conforme Kerry ganha complexidade | Parte do enorme elenco de apoio recebe pouco espaço |
| A estética rural diferenciando a série de outras produções da DC | O tom grave ocasionalmente sufoca o prazer de uma aventura cósmica |
| O uso da mitologia dos Lanternas como linguagem emocional | Nem todas as grandes revelações têm impacto proporcional à preparação |
O veredito do coração: vale a pena assistir a Lanternas na HBO Max?
- NOTA: 4 de 5 estrelas. Selo Minha Série Favorita: uma história de super-heróis que encontra muito mais força em dois homens discutindo dentro de um carro do que em qualquer explosão verde no céu.
Lanternas corre um risco interessante.
Pega personagens associados a uma das mitologias mais cósmicas da DC e os joga numa investigação em Nebraska.
Poderia dar muito errado.
Às vezes quase dá.
A temporada possui episódios mais lentos.
Nem toda revelação convence igualmente.
A ação poderia ser mais imaginativa.
E há momentos em que a tentativa de fazer televisão “adulta” parece significar simplesmente eliminar qualquer sensação de leveza.
Mas então Kyle Chandler e Aaron Pierre ficam frente a frente.
E a série volta a funcionar.
Hal Jordan e John Stewart são duas respostas diferentes para a mesma pergunta:
o que significa possuir poder suficiente para fazer praticamente qualquer coisa?
Para Hal, poder virou hábito.
Para John, ainda é responsabilidade.
Um precisa aprender a soltar.
O outro precisa decidir o que deseja carregar.
Lanternas também consegue fazer algo que considero especialmente importante para qualquer adaptação de quadrinhos: não exige que a gente conheça décadas de histórias para se importar com aquelas pessoas.
Quem conhece encontrará Sinestro, Guy Gardner, a Tropa e vários elementos familiares da DC. O elenco oficial inclui Garret Dillahunt, Poorna Jagannathan, Laura Linney, Jason Ritter, Ulrich Thomsen, Nathan Fillion, J. Alphonse Nicholson e Jasmine Cephas Jones, além do trio principal.
Quem não conhece pode simplesmente acompanhar dois policiais tentando entender uma sequência de mortes e, principalmente, um ao outro.
Recomendo para quem gosta de ficção científica mais contida, dramas policiais, histórias de mentor e aprendiz e séries de super-heróis interessadas em personagens antes de efeitos especiais.
Os oito episódios já foram exibidos; a temporada terminou em 4 de outubro de 2026 e está disponível na HBO Max.
E talvez a melhor coisa de Lanternas seja perceber que seu poder nunca esteve realmente no anel.
Um anel apenas amplia aquilo que alguém consegue imaginar.
O difícil continua sendo descobrir o que fazer quando nossas emoções entram na construção.
Coragem não é olhar para o medo e descobrir que ele desapareceu. É olhar para ele, admitir que continua ali e ainda assim escolher quem queremos ser.
Pacto de Respeito à Arte — Minha Série Favorita
No Minha Série Favorita, acreditamos que respeitar uma obra também significa reconhecer o trabalho de roteiristas, diretores, atores, artistas de efeitos visuais e todas as equipes responsáveis por construí-la.
Lanternas é uma produção da HBO em associação com Warner Bros. Television e DC Studios. A primeira temporada possui oito episódios e está disponível oficialmente na HBO Max.




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