cartas-de-redencao-netflix

Crítica de Cartas de Redenção, de Tyler Perry: o amor começa nas cartas, mas o roteiro não sabe quando parar

Cartas de Redenção, de Tyler Perry, drama disponível na Netflix, começa dentro de uma prisão e encontra sua melhor ideia longe dela: duas pessoas que passam a conhecer uma à outra através de cartas antes de descobrirem se existe espaço para esse vínculo no mundo real. Escrito, dirigido e produzido por Tyler Perry, o filme de 1h48 é estrelado por Naomi Baker, Jay Reeves e Tamberla Perry.

Anika está grávida quando é surpreendida por um motim na prisão onde trabalha.

Em meio à violência, é salva por Carousel, um detento que poderia simplesmente desaparecer novamente entre as grades depois daquele episódio.

Não desaparece.

Meses depois, começam as cartas.

E é justamente aí que Cartas de Redenção encontra algo delicado que o restante do filme tenta, muitas vezes, complicar demais.

Porque aquelas cartas oferecem aos dois uma possibilidade rara:

serem conhecidos antes de serem julgados por aquilo que os outros enxergam neles.

Ela não é apenas uma mãe solo tentando sobreviver.

Ele não é apenas um homem que esteve preso.

Durante algum tempo, eles conseguem existir primeiro como palavras.

O problema é que Tyler Perry constrói uma fundação emocional interessante e depois parece desconfiar de que ela seja suficiente.

Então acrescenta conflitos.

Depois mais um.

E outro.

Até a história de duas pessoas tentando acreditar em uma segunda chance disputar espaço com doença, processos, problemas familiares, arte, segredos e resoluções convenientes demais.

VEJA TAMBÉM:

As cartas são a melhor coisa de Cartas de Redenção

cartas-de-redencao-netflix
Imagem: Netflix

A Netflix resume oficialmente o filme como a história de uma mãe solo e um homem encarcerado que formam um vínculo improvável através de cartas, encontrando nelas redenção, esperança e amor.

É uma descrição simples.

E poderia ter sido praticamente o filme inteiro.

A escrita oferece a Anika e Carousel algo que relacionamentos presenciais dificilmente permitiriam com tanta facilidade.

Tempo.

Não existe necessidade imediata de toque.

Não há vida doméstica.

Nem existe família observando.

Carousel pode escolher as palavras.

Anika pode ler, guardar, pensar e responder.

Eles se aproximam num espaço em que os dois controlam um pouco melhor aquilo que desejam revelar.

Isso funciona especialmente bem para Carousel.

Um homem preso carrega imediatamente uma narrativa pronta aos olhos das outras pessoas.

Perigoso.

Criminoso.

Alguém do qual desconfiar.

Nas cartas, ele consegue apresentar outra coisa.

Inteligência.

Humor.

Vulnerabilidade.

Projetos.

A possibilidade de um futuro.

Uma segunda chance começa antes da liberdade quando alguém finalmente deixa de enxergar uma pessoa apenas pelo pior capítulo de sua vida.

É uma ideia genuinamente bonita.

E Jay Reeves funciona melhor justamente nesses momentos.

Carousel não precisa convencer Anika através de grandes discursos.

Ele consegue simplesmente conversar.

O filme deveria confiar mais nisso.

Existe um problema progressivo na construção de Carousel.

Ele não é apenas um homem tentando reconstruir a vida depois do cárcere.

Também é inteligente.

Autodidata em questões jurídicas.

Talentoso como pintor.

Profundamente dedicado a Anika.

Capaz de ajudar em outras questões importantes da família.

Quanto mais habilidades o roteiro coloca sobre ele, mais o personagem se aproxima de uma fantasia de redenção perfeita.

E isso enfraquece justamente aquilo que deveria ser mais interessante.

Recomeçar depois da prisão não é uma linha reta.

Um dos textos críticos que você trouxe aponta exatamente essa fragilidade: o filme fala sobre dificuldade de reinserção, mas permite que a adaptação de Carousel à liberdade aconteça de maneira relativamente simples.

Faz sentido.

Gostaria de vê-lo errar.

Perder oportunidade.

Encontrar preconceito real.

Sentir a distância entre aquilo que imaginou durante o cárcere e aquilo que efetivamente encontra fora dele.

Gostaria principalmente de perceber que sua liberdade não resolve imediatamente aquilo que a prisão colocou dentro dele.

Redenção não deveria significar transformar um homem numa versão impecável de si mesmo. Deveria significar permitir que ele erre sem concluir que continua condenado ao passado.

Jay Reeves tenta colocar vulnerabilidade nisso.

Há bons momentos em que Carousel parece mais inseguro do que o roteiro admite.

Mas Tyler Perry frequentemente lhe entrega outra habilidade justamente quando a história poderia entregar uma dificuldade.

Anika precisa pensar como mãe antes de pensar como mulher apaixonada — e isso faz sentido

Naomi Baker encontra algo muito humano em Anika.

O sentimento pode surgir através das cartas.

Mas o encontro com Carousel fora da prisão muda completamente a equação.

Anika tem uma criança.

Tem família.

Tem responsabilidades.

Aquilo que para Carousel representa liberdade e possibilidade, para ela também representa risco.

Não basta pensar:

“Eu gosto deste homem?”

Existe outra pergunta.

“Eu o quero perto da vida que construí para meu filho?”

Essa hesitação é legítima.

E é uma das áreas em que o filme poderia ter construído um romance muito mais profundo.

Anika não precisa ser punida narrativamente por desconfiar.

Também não precisa provar que ama Carousel aceitando imediatamente tudo o que acompanha sua história.

Confiar em alguém não significa deixar de fazer perguntas difíceis. Principalmente quando nossas decisões alcançam uma criança.

Naomi Baker consegue demonstrar essa tensão com sinceridade.

O problema surge quando o roteiro começa a criar obstáculos artificiais.

Um exemplo mencionado no material crítico fornecido por você é a visita inesperada de Carousel à casa de Anika quando sua família ainda nem conhece completamente a situação.

A cena existe para provocar conflito.

Mas parece facilmente evitável.

Esse é um padrão que cresce ao longo do filme.

Em vez de permitir que os problemas surjam naturalmente da diferença entre suas vidas, Perry frequentemente precisa empurrar os personagens para situações que poderiam ser resolvidas com uma conversa razoável.

O olhar feminino de Cartas de Redenção escorrega quando a família de Anika vira apenas obstáculo

A família de Anika não confia em Carousel.

Isso poderia produzir uma discussão excelente.

Qualquer família pode se preocupar quando uma mulher começa a se relacionar com alguém que conheceu enquanto ele estava preso.

Isso não precisa ser preconceito puro.

Pode haver medo.

Proteção.

Experiência.

Desconfiança do desconhecido.

Mas o roteiro frequentemente parece mais interessado em posicionar essas mulheres como obstáculos para o casal.

Essa escolha diminui todo mundo.

Anika fica colocada entre o homem que deseja e uma família que parece incapaz de enxergá-lo como ela.

Carousel se torna o incompreendido que precisa provar valor.

E as outras mulheres ficam próximas demais de tipos melodramáticos construídos para dizer “não”.

É uma pena porque existe material forte nesse núcleo.

Tamberla Perry interpreta a mãe de Anika, uma mulher gravemente doente depois de anos trabalhando numa fábrica química.

Existe ali uma discussão sobre mulheres que trabalharam, criaram famílias, suportaram condições difíceis e agora convivem com as consequências físicas dessa sobrevivência.

O conhecimento jurídico de Carousel acaba entrando também nesse conflito.

É eficiente para movimentar a trama.

Mas contribui para aquela sensação de que o personagem masculino precisa resolver tudo para ganhar legitimidade.

Gostaria que Anika e as mulheres ao redor dela possuíssem mais espaço para discordar sem que a narrativa precisasse escolher quem está “atrapalhando” o romance.

Vale a pena assistir a Cartas de Redenção, de Tyler Perry?

cartas-de-redencao-netflix
Imagem: Netflix

Há um bom filme escondido aqui.

Ele aparece nas cenas menores.

Nas cartas.

Nas conversas.

Nos momentos em que Anika tenta perceber se conhece realmente o homem que começou a admirar no papel.

Nas ocasiões em que Carousel precisa decidir quanto do passado contará.

Na pergunta sobre quem pode receber uma segunda chance.

O problema é que Tyler Perry aparentemente não confia que isso sustente 108 minutos.

Então Cartas de Redenção vai acumulando narrativas paralelas.

A história da mãe.

A questão da indústria química.

A arte de Carousel.

Conflitos dentro da família.

Problemas relacionados à reinserção.

Romance.

Segredos.

Situações criadas para separar os protagonistas e depois aproximá-los novamente.

O segundo texto crítico trazido por você resume bem essa sensação ao observar que parecem existir várias histórias empurradas para dentro de um mesmo filme.

É o principal defeito.

Não porque alguma dessas histórias seja individualmente impossível.

Mas porque nenhuma recebe o tempo que merecia.

A trama de Carousel como artista poderia ser um filme.

Sua vida depois da prisão, outro.

O adoecimento da mãe de Anika e a busca por responsabilidade da fábrica, outro.

A relação construída através das cartas já sustentaria o centro emocional.

Tudo junto começa a parecer mecanismo.

A química entre Naomi Baker e Jay Reeves cresce quando Tyler Perry deixa os dois simplesmente conversarem

A relação funciona melhor em repouso.

Quando Naomi Baker e Jay Reeves não precisam cumprir uma reviravolta.

Quando não estão correndo para chegar à próxima informação.

E quando apenas ocupam o mesmo espaço.

Baker transmite uma cautela que combina com Anika.

Reeves oferece a Carousel uma vulnerabilidade que ajuda a impedir que ele se torne simplesmente o “homem bom injustiçado”.

Mas a química nunca alcança completamente aquilo que o roteiro afirma sobre eles.

Essa é uma dificuldade séria para um romance.

Não porque os atores sejam ruins.

São justamente os momentos mais discretos deles que mantêm a história viva.

O problema está na velocidade com que o roteiro transforma conexão em destino.

Cartas podem criar intimidade. Mas intimidade construída pela escrita ainda precisa sobreviver ao corpo, à rotina, ao silêncio e às contradições da vida real.

Essa passagem é justamente aquilo que o filme deveria explorar.

Em vez disso, muitas vezes parece tratar o amor como confirmado e concentrar seus esforços nos obstáculos externos.

Eu queria mais dúvida interna.

Mais desconforto.

Mais diferença entre aquilo que Anika imaginou lendo Carousel e aquilo que encontra quando ele está finalmente diante dela.

Tyler Perry ainda domina o melodrama — mas aqui o excesso trabalha contra a história

Perry escreveu, dirigiu e produziu o longa, ao lado dos produtores Angi Bones e Tony L. Strickland. O elenco também inclui Karen Obilom, Jasmine Sargent, Lucky Johnson e Danielle Moné Truitt.

Não há qualquer dúvida sobre o gênero de emoção que Perry deseja provocar.

Família.

Fé na mudança.

Amor improvável.

Sofrimento.

Sacrifício.

Justiça.

Segunda chance.

Esses elementos fazem parte de um universo dramático muito reconhecível em sua filmografia.

O problema não é melodrama.

Nunca foi.

Melodrama funciona quando sentimos que as emoções são maiores porque aquilo que os personagens vivem realmente as tornou maiores.

Aqui, por vezes, parece que a situação foi criada para produzir a emoção desejada.

É o caminho inverso.

A abertura dentro da prisão já estabelece um nível altíssimo de violência e vulnerabilidade.

O resgate cria imediatamente uma dívida emocional entre Anika e Carousel.

Depois as cartas poderiam lentamente transformar gratidão em curiosidade e curiosidade em afeto.

Essa progressão já possui tudo.

Perry simplesmente não consegue resistir a acrescentar mais.

O raio-X do Minha Série Favorita

O que nos arrebatouO que escorregou
A aproximação através das cartasSubtramas demais disputando espaço
Naomi Baker trazendo cautela e vulnerabilidade para AnikaConflitos que poderiam ser resolvidos com conversas simples
Jay Reeves tentando manter Carousel humanoA reinserção depois da prisão parece fácil demais
A ideia de conhecer alguém para além do histórico criminalCarousel acumula qualidades e habilidades até quase se tornar idealizado
O potencial das discussões sobre família e segunda chanceAs mulheres da família de Anika são achatadas como obstáculos em alguns momentos
O ponto de partida emocionalO romance nunca alcança completamente a química que o roteiro exige

O veredito do coração: Cartas de Redenção, de Tyler Perry merece entrar na lista da Netflix?

  • NOTA: 2,5 de 5 estrelas. Selo Minha Série Favorita: uma história bonita sobre amor e segunda chance escondida dentro de um filme que insiste em complicar aquilo que funcionava justamente pela simplicidade.

Cartas de Redenção tinha uma excelente história nas mãos.

Uma mulher salva durante um motim.

Um homem atrás das grades.

Meses depois, palavras começam a atravessar a distância entre eles.

Não precisamos acreditar imediatamente que Carousel é um novo homem.

Anika também não.

Esse deveria ser o processo.

Mas Tyler Perry quer chegar rápido demais à redenção.

Carousel se torna competente em praticamente tudo aquilo que a trama necessita.

Anika precisa atravessar uma sucessão de conflitos.

A família ganha problemas suficientes para preencher outra produção.

E a delicadeza das cartas começa a desaparecer sob o peso de histórias paralelas.

Ainda assim, Naomi Baker e Jay Reeves evitam que tudo desmorone.

Há sinceridade nos dois.

Especialmente quando o filme permite que parem de representar “a mãe solo” e “o ex-presidiário” e simplesmente sejam Anika e Carousel.

Recomendo principalmente para quem gosta de melodramas românticos, histórias de segunda chance, relações construídas lentamente e filmes de Tyler Perry.

Mas entraria com expectativas moderadas.

Existe sentimento.

Existe uma boa ideia.

O que falta é disciplina narrativa.

Porque talvez a redenção mais bonita não seja alguém provar para o mundo inteiro que mudou.

Talvez seja uma pessoa conseguir olhar para outra e dizer:

“Eu conheço aquilo que você fez. Agora quero descobrir quem decidiu ser depois disso.”

Cartas de Redenção funciona melhor quando entende que uma segunda chance não apaga o passado. Ela apenas oferece a alguém a oportunidade de escrever alguma coisa depois dele.

Magui Schneider
Magui Schneider
Artigos: 241

Um comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *