Tubarão de Guerra, disponível na HBO Max desde 18 de setembro de 2026, joga um grupo de jovens soldados australianos no Mar de Timor durante a Segunda Guerra Mundial e retira deles quase tudo: navio, armas, segurança e qualquer certeza de resgate. Dirigido e escrito por Kiah Roache-Turner, o longa de 1h27 reúne Mark Coles Smith, Joel Nankervis, Sam Delich e Sam Parsonson em uma mistura improvável de guerra, sobrevivência e terror com tubarão.
Sim, existe um enorme tubarão-branco circulando a jangada.
Há sangue.
Ataques.
Homens sendo arrancados da água.
Mas o filme encontra sua força quando percebe que colocar soldados no oceano não basta. É preciso fazer com que nos importemos com quem está sobre aquela estrutura improvisada antes que alguma coisa venha debaixo dela.
E é por isso que Leo, vivido por Mark Coles Smith, se torna muito mais importante do que o próprio tubarão.
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Leo faz Tubarão de Guerra ser mais do que outro filme sobre pessoas virando comida de tubarão
Antes do mar, existe o treinamento.
Leo é um soldado indígena australiano dentro de um grupo que nem sempre o enxerga como igual. Ele recebe provocações racistas, especialmente de Des Kelly, interpretado por Sam Delich, mas não permite que essa hostilidade determine completamente suas atitudes.
Quando Will, vivido por Joel Nankervis, corre risco durante o treinamento, Leo volta para ajudá-lo.
Essa pequena escolha já revela praticamente tudo que precisamos saber sobre ele.
O diretor contou que escreveu o personagem especificamente para Mark Coles Smith e trabalhou com o cineasta Wayne Blair e com o próprio ator nos aspectos culturais ligados à identidade indígena de Leo. Roache-Turner também incorporou ao protagonista lembranças de familiares seus que serviram em guerras.
Isso dá peso a uma característica que poderia parecer apenas convencional: Leo é o homem que não abandona ninguém.
O problema é que essa virtude será testada justamente por pessoas que talvez não fariam o mesmo por ele.
É relativamente simples falar em companheirismo quando todos se reconhecem como iguais. Leo precisa decidir o significado dessa palavra diante de homens que questionam até a humanidade dele.
Mark Coles Smith entende muito bem essa tensão.
Seu protagonista não precisa fazer discursos constantes sobre dignidade. Ela aparece nas decisões.
E quanto menor fica a jangada, maior fica essa questão.
O tubarão é assustador, mas o verdadeiro terror começa com a sensação de não haver para onde fugir
Tubarão de Guerra possui uma vantagem brutal sobre muitos filmes de criatura.
Não existe casa.
Não existe praia próxima.
E não existe barco esperando alguns metros adiante.
Os sobreviventes estão em pleno oceano, agarrados a destroços depois que a embarcação é atacada por aviões japoneses.
A ameaça funciona porque o espaço de segurança está literalmente diminuindo.
O tubarão não precisa atacar o tempo inteiro.
Basta saber que ele está ali.
É nesse intervalo que Kiah Roache-Turner trabalha melhor o suspense.
Um pé dentro da água deixa de ser apenas um pé.
Uma sombra se transforma em possibilidade.
Um movimento sob a superfície altera imediatamente a maneira como todos ocupam a jangada.
A crítica de RogerEbert.com destacou justamente a eficiência do filme ao manter sua proposta enxuta durante os 87 minutos, sem tentar transformar a aventura em algo maior do que precisa ser.
Concordo.
A duração é uma aliada.
Quando o filme começa, não existe espaço para gordura.
Os soldados chegam.
A guerra explode.
O navio desaparece.
E o oceano assume o comando.
Tubarão de Guerra é baseado em uma história real?
Não exatamente.
E essa diferença importa.
O filme é livremente inspirado no naufrágio do HMAS Armidale, navio australiano afundado por ataques aéreos japoneses em 1º de dezembro de 1942, durante uma operação relacionada a Timor. Dos 149 homens a bordo, apenas 49 sobreviveram. Sobreviventes permaneceram dias no mar e tiveram de enfrentar ferimentos, falta de água, deterioração das embarcações improvisadas e tubarões.
Roache-Turner deixou claro que não pretendia reconstruir literalmente aquela tragédia.
Ele pesquisou o caso, mas transformou a situação em um filme de gênero, utilizando o episódio histórico como ponto de partida. O próprio diretor cita também como influência o famoso relato sobre o USS Indianapolis em Tubarão, de Steven Spielberg.
Essa escolha merece ser compreendida.
Tubarão de Guerra não é uma reconstituição histórica com um tubarão acrescentado. É um filme de terror e sobrevivência alimentado por uma tragédia histórica real.
E considero acertado que ele não tente fingir o contrário.
Des e Leo mostram que sobreviver ao mesmo inimigo não elimina preconceitos antigos
A presença de Des é importante porque impede que a jangada se transforme instantaneamente numa fraternidade.
O perigo comum não apaga aquilo que aquelas pessoas eram antes dele.
Des mantém sua hostilidade contra Leo.
E esse conflito poderia facilmente cair numa estrutura previsível em que o racista aprende uma lição, pede desculpas e todos finalmente se tornam irmãos.
O filme encontra momentos mais incômodos quando não torna a dignidade de Leo dependente dessa transformação.
Leo ajuda porque essa é a pessoa que ele decidiu ser.
Não porque Des mereceu.
Existe uma enorme diferença.
Historicamente, homens indígenas australianos serviram nas forças militares apesar de enfrentarem discriminações e restrições na sociedade australiana. O Australian War Memorial registra que soldados indígenas podiam encontrar maior igualdade durante o serviço e, ainda assim, retornar para uma sociedade em que o preconceito e limitações civis permaneciam.
O filme não precisa parar para dar uma aula sobre isso.
A presença de Leo já carrega essa contradição.
Ele está disposto a morrer pelo país que não necessariamente está disposto a tratá-lo como igual.
A amizade entre Leo e Will dá ao filme aquilo que o sangue sozinho não conseguiria produzir
Will é essencial porque funciona como contraponto ao cinismo crescente da situação.
Ele é jovem.
Inexperiente.
E sua ligação com Leo começa justamente quando este decide voltar para salvá-lo durante o treinamento.
Quando chegam ao mar, já existe alguma coisa a perder.
Essa preparação importa.
Roache-Turner explicou que precisava fazer o público se importar com os soldados antes de prendê-los sobre uma jangada e começar a eliminá-los.
Parece evidente.
Muitos filmes de terror esquecem.
Se personagens existem apenas para morrer, o ataque pode ser tecnicamente impressionante e ainda assim não causar absolutamente nada.
Tubarão de Guerra nem sempre consegue desenvolver todos os homens com a mesma profundidade, mas Leo e Will oferecem um centro emocional.
Quando alguém entra na água, existe medo.
Quando alguém desaparece, existe ausência.
Isso faz diferença.
Por Trás das Câmeras: o oceano parece sujo, pesado e quase doente
O filme não busca a beleza cristalina normalmente associada ao mar.
A água é escura.
Há óleo.
Sangue.
Fumaça.
Destroços.
O céu frequentemente parece tão hostil quanto aquilo que está sob a superfície.
A fotografia ajuda muito a vender a sensação de que esses homens não estão simplesmente perdidos no mar: estão presos dentro dos restos físicos de uma guerra.
Kiah Roache-Turner já demonstrou gosto por monstros, violência gráfica e humor negro em trabalhos anteriores. Aqui, ele usa essas características sem transformar completamente a tragédia numa brincadeira.
Há gore.
O tubarão produz estragos convincentes.
Mas existem também momentos de humor entre os soldados, algo que o próprio diretor considera necessário para impedir que a experiência se torne uma sucessão exaustiva de sofrimento.
Esse equilíbrio funciona na maior parte do tempo.
E o tubarão?
Nem sempre parece perfeitamente real.
Mas importa menos do que poderia.
O filme entende que um predador precisa funcionar sobretudo como presença.
A antecipação frequentemente assusta mais do que a mordida.
Onde Tubarão de Guerra perde força
O problema aparece quando a simplicidade eficiente começa a se tornar simplificação.
Alguns soldados permanecem muito próximos de tipos conhecidos.
O valentão.
O jovem assustado.
O homem que perderá o controle.
O companheiro confiável.
Como a duração é curta, o roteiro não consegue aprofundar todos.
Também existem momentos em que o tubarão precisa surgir justamente quando a narrativa precisa de outra descarga de adrenalina.
Começamos a perceber o mecanismo.
E, por mais que o filme tenha uma relação histórica interessante com a guerra, ele não pretende investigar profundamente a Segunda Guerra Mundial ou a experiência dos soldados indígenas.
Quem procura um drama de guerra complexo provavelmente encontrará algo mais modesto.
A prioridade é sobrevivência.
É cinema de gênero.
E funciona melhor quando aceitamos isso.
O Raio-X do Minha Série Favorita
| O que nos arrebatou | O que escorregou |
|---|---|
| Mark Coles Smith dando humanidade e liderança a Leo | Alguns soldados permanecem pouco desenvolvidos |
| O pouco espaço físico da jangada criando claustrofobia em pleno oceano | A estrutura dos ataques se torna previsível em alguns momentos |
| A relação entre Leo e Will | O conflito racial poderia receber ainda mais desenvolvimento |
| A inspiração no desastre real do HMAS Armidale sem fingir ser reconstituição | O tubarão nem sempre convence visualmente |
| A duração enxuta de 87 minutos | Certos personagens existem principalmente para alimentar o perigo |
| A mistura de guerra, terror e sobrevivência | Algumas ideias históricas são mais sugeridas do que realmente exploradas |
O Veredito do Coração: vale a pena assistir a Tubarão de Guerra na HBO Max?
- NOTA: 4 de 5 estrelas. Selo Minha Série Favorita: um filme de tubarão que encontra sua melhor história não debaixo da água, mas entre os homens tentando continuar humanos sobre ela.
Tubarão de Guerra poderia ser apenas uma combinação oportunista.
Segunda Guerra Mundial + tubarão.
Mas Kiah Roache-Turner encontra algo mais interessante nessa mistura.
A guerra já transformou o oceano num cemitério antes mesmo de o animal aparecer.
O tubarão apenas acrescenta uma ameaça natural a homens que acabaram de sobreviver a uma ameaça criada por outros homens.
Mark Coles Smith é a principal razão para a história ganhar peso.
Leo possui coragem, mas não aquela coragem artificial de alguém que nunca sente medo.
Ele sente.
Continua mesmo assim.
Recomendo especialmente para quem gosta de filmes de sobrevivência, ataques de tubarão, histórias de guerra e thrillers curtos que não gastam meia hora explicando aquilo que podem mostrar.
Há limitações.
Mas o filme sabe o que deseja provocar.
Tensão.
Nojo.
Medo.
E, inesperadamente, alguma emoção.
No fim, o tubarão pode ser o maior animal daquela água.
Mas não é necessariamente a coisa mais brutal que aqueles homens precisam enfrentar.
Quando o espaço para sobreviver fica cada vez menor, Tubarão de Guerra pergunta quem ainda somos quando salvar a própria vida parece exigir abandonar a humanidade dos outros.




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