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Crítica de Conforme a Música: Duas amigas aprendem a brilhar sem apagar uma à outra

Conforme a Música, comédia disponível na Netflix desde 18 de setembro de 2026, transforma uma competição universitária de dança em uma história sobre amizade feminina, insegurança e o medo de descobrir que a pessoa mais próxima de nós também pode ser nossa maior rival. Dirigido por Lena Khan, o filme de 1h52 é estrelado por Maitreyi Ramakrishnan e Priyanka Kedia, com roteiro de Hasan Minhaj e Prashanth Venkataramanujam.

Existe algo especialmente doloroso em perceber que uma amizade construída durante anos pode começar a desmoronar justamente quando duas pessoas têm a oportunidade de realizar um sonho compartilhado. É o que acontece com Maya e Anjali, amigas de infância que chegam à universidade acreditando conhecer perfeitamente uma à outra. Mas, quando entram para uma equipe de dança inspirada em Bollywood, descobrem que crescer também significa enfrentar sentimentos que nunca tiveram coragem de admitir.

O filme apresenta uma experiência divertida, colorida e repleta de música. Entretanto, por trás das coreografias e das situações cômicas, encontramos uma pergunta bastante humana: é possível celebrar verdadeiramente a conquista de uma amiga quando ela recebe aquilo que desejávamos para nós mesmas?

A amizade entre Maya e Anjali é a verdadeira história de Conforme a Música

Maya, interpretada por Maitreyi Ramakrishnan, e Anjali, vivida por Priyanka Kedia, são amigas desde a infância. Cresceram juntas, compartilham lembranças e chegam à Universidade da Califórnia em Los Angeles acreditando que continuarão inseparáveis.

Mas existe uma ferida recente nessa amizade. Uma apresentação de dança no ensino médio terminou de maneira desastrosa, transformando Maya em motivo de piada depois que o vídeo do incidente se espalhou pela internet.

Na universidade, as duas imaginam que poderão deixar aquela experiência para trás. Entretanto, ao assistir a uma apresentação da equipe de dança Agni, percebem que talvez ainda não estejam preparadas para abandonar os palcos.

Maya enxerga uma oportunidade de recuperar a confiança. Anjali se encanta pelo capitão da equipe, Ronak, interpretado por Ankur Rathee. As duas entram para o grupo, mas a experiência que deveria aproximá-las acaba revelando uma rivalidade construída silenciosamente durante anos.

Maya é inteligente, determinada e não possui dificuldade para expressar opiniões. Anjali parece mais gentil e demonstra facilidade para conquistar a simpatia das pessoas. Essas diferenças sempre existiram. O problema começa quando passam a representar posições de valor dentro da amizade.

Maya sente que precisa lutar para ser reconhecida. Anjali está cansada de ser tratada como alguém que apenas acompanha a amiga mais decidida. A disputa pela posição de destaque na equipe transforma essas inseguranças em um conflito que nenhuma das duas sabe administrar.

E considero que o filme acerta ao permitir que ambas cometam erros. Maya pode ser egoísta e incapaz de reconhecer o sofrimento de Anjali. A outra, por sua vez, também utiliza a própria insegurança para interpretar negativamente algumas atitudes da amiga.

Não existe uma única responsável pelo desgaste da relação. Existe uma amizade que precisa amadurecer.

Maitreyi Ramakrishnan e Priyanka Kedia: duas protagonistas que não precisam disputar nosso carinho

A química entre as atrizes representa o principal motivo para acompanhar Conforme a Música. Maitreyi Ramakrishnan, conhecida por Eu Nunca…, constrói Maya como uma jovem que utiliza o humor e a determinação para esconder o quanto precisa da aprovação dos outros.

Sua personalidade expansiva não significa que esteja emocionalmente segura. Na verdade, parte de sua necessidade de controlar as situações parece nascer do medo de voltar a ser humilhada. Priyanka Kedia encontra outro caminho para Anjali.

Sua personagem demonstra delicadeza, mas também carrega ressentimentos que não consegue expressar diretamente. Durante muito tempo, parece ter aceitado ocupar uma posição secundária na amizade para evitar conflitos.

Quando finalmente recebe a oportunidade de protagonizar algo importante, descobre que Maya não está preparada para celebrar sua conquista. E existe uma pergunta dolorosa nessa situação: Será que uma amizade continua sendo saudável quando uma das pessoas precisa diminuir suas conquistas para preservar a autoestima da outra?

O filme poderia aprofundar ainda mais essa questão, mas as interpretações ajudam a sustentar o conflito. As duas atrizes conseguem transmitir a intimidade de uma relação antiga, inclusive nos momentos em que suas personagens estão magoadas.

Existe uma familiaridade nos gestos, nas provocações e na maneira como reconhecem as inseguranças uma da outra. É justamente por se conhecerem tão bem que conseguem machucar com tanta precisão.

O olhar feminino de Conforme a Música: por que a cobrança sobre Anjali vai além da dança?

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Imagem: Netflix

A trajetória de Anjali possui outra dimensão importante. Sua mãe, Rekha, interpretada por Janina Gavankar, espera que a filha corresponda a determinadas exigências acadêmicas e familiares.

A dança representa uma atividade que começa a disputar espaço com essas expectativas. Anjali deseja participar das competições, mas teme decepcionar a família e comprometer o futuro que planejaram para ela.

O filme apresenta essa pressão de maneira bastante direta, inclusive por meio de uma cena de agressão física que revela a dureza da relação entre mãe e filha. Entretanto, considero que o roteiro poderia dedicar mais atenção às consequências emocionais dessa dinâmica.

A personagem está tentando construir uma identidade própria, mas ainda parece depender profundamente da aprovação materna. Maya enfrenta outro problema. Seu sofrimento não nasce exatamente da falta de apoio para dançar, mas da sensação de que precisa conquistar uma posição de destaque para recuperar o valor que acredita ter perdido.

As duas procuram reconhecimento. Uma deseja ser vista pela família. A outra precisa deixar de se enxergar como a garota de uma apresentação fracassada. Conforme a Música compreende que crescer não significa apenas descobrir aquilo que queremos. Também significa aprender a diferenciar nossos desejos das expectativas que outras pessoas colocaram sobre nós.

Essa dimensão torna o filme mais interessante do que seria se todo o conflito estivesse concentrado no resultado do campeonato.

O romance em Conforme a Música: Ronak e Arjun ajudam ou atrapalham a história?

O envolvimento amoroso aparece como parte importante da experiência universitária. Ronak, capitão da Agni, é uma das razões pelas quais Anjali decide participar da equipe. Já Arjun, interpretado por Chaneil Kular, desenvolve uma aproximação com Maya.

O problema é que os personagens masculinos nem sempre recebem a mesma cobrança emocional que as protagonistas. Ronak toma decisões que contribuem diretamente para o desgaste da amizade, mas suas responsabilidades acabam sendo resolvidas rapidamente.

Arjun também interpreta equivocadamente uma situação envolvendo Maya e reage sem oferecer espaço suficiente para que ela explique o ocorrido. Ainda assim, é a protagonista quem assume boa parte do esforço necessário para reparar a relação. Esse desequilíbrio chama a atenção.

Enquanto Maya e Anjali precisam enfrentar conversas desconfortáveis para reconstruir a confiança, alguns personagens masculinos parecem conseguir resolver conflitos com muito menos esforço. Não considero que isso destrua a proposta do filme.

Mas existe uma oportunidade desperdiçada de mostrar que responsabilidade emocional não deveria ser uma exigência dirigida principalmente às mulheres.

Por trás das câmeras: a dança, os figurinos e a trilha sonora de Conforme a Música

Visualmente, Conforme a Música procura reproduzir a energia das produções musicais de Bollywood por meio de cores vibrantes, figurinos elaborados e apresentações que combinam movimentos tradicionais com linguagens contemporâneas.

A diretora Lena Khan afirmou que buscou uma estética próxima dos videoclipes e uma abordagem mais editorial para a moda. O resultado aparece especialmente nas sequências em que as personagens imaginam como seria ocupar o centro de uma apresentação.

Os figurinos acompanham a personalidade das protagonistas, enquanto a iluminação das apresentações ajuda a transformar o palco em um lugar onde seus desejos ganham forma.

A música também participa diretamente da narrativa. Canções conhecidas do cinema indiano são combinadas com sonoridades contemporâneas, reforçando a proposta da dança de fusão apresentada pela equipe.

A trilha inclui “Ghungroo”, do filme War, além de “Aamaasee”, composição original de A. R. Rahman criada para o longa. Entretanto, existe uma limitação importante na montagem. As apresentações frequentemente alternam planos abertos e enquadramentos próximos em velocidade excessiva.

Isso dificulta acompanhar integralmente o trabalho coreográfico, especialmente em uma produção cujo principal espetáculo deveria ser justamente a dança.

As atrizes demonstram habilidade, mas nem sempre recebem tempo suficiente em cena para que possamos apreciar seus movimentos. Outro problema aparece na apresentação decisiva, quando uma interrupção técnica modifica o andamento da música. A situação possui função narrativa, mas interfere na continuidade de um número que poderia ser ainda mais marcante.

Vale a pena assistir a Conforme a Música? Uma comédia divertida que poderia arriscar mais

O longa recupera características familiares de filmes como A Escolha Perfeita e As Apimentadas. Temos uma equipe competitiva, uma protagonista determinada, rivalidades, dificuldades durante os ensaios e uma apresentação final capaz de reunir os principais conflitos.

A estrutura funciona. Mas raramente surpreende. Algumas situações seguem caminhos previsíveis, especialmente quando o roteiro precisa afastar as amigas antes de permitir que reconheçam seus erros. Ainda assim, o humor oferece momentos agradáveis.

Hasan Minhaj, no papel do professor Hamza Latif, acrescenta uma presença cômica importante, enquanto Nico Greetham, como Harry, participa de algumas das brincadeiras relacionadas ao universo cultural da equipe.

O filme também encontra identidade na maneira como incorpora experiências de jovens sul-asiáticos que cresceram nos Estados Unidos. O projeto nasceu das lembranças universitárias de Minhaj e Prashanth Venkataramanujam, especialmente do ambiente das competições de dança inspiradas em Bollywood.

Há referências culturais, humor e uma discussão sobre pertencimento que oferecem personalidade à história. O que faltou foi um pouco mais de coragem para ultrapassar a fórmula.

O raio-X do Minha Série Favorita

O que nos arrebatouO que escorregou
A química entre Maitreyi Ramakrishnan e Priyanka Kedia.A história segue uma estrutura bastante previsível.
A amizade feminina como centro emocional.A montagem prejudica algumas coreografias.
A energia das músicas e apresentações.Os personagens masculinos enfrentam poucas consequências por suas atitudes.
O humor e as referências culturais sul-asiáticas.A relação de Anjali com a mãe merecia mais desenvolvimento.
A discussão sobre competição e reconhecimento.Algumas situações parecem construídas apenas para provocar o afastamento das amigas.

Conforme a Música merece entrar na sua lista da Netflix?

  • NOTA: 3,5 de 5 Estrelas. Selo Minha Série Favorita: uma comédia sobre descobrir que crescer ao lado de alguém não significa precisar seguir exatamente os mesmos passos.

Conforme a Música é uma produção agradável, divertida e sustentada principalmente pela presença de suas protagonistas. Maitreyi Ramakrishnan e Priyanka Kedia transformam Maya e Anjali em duas jovens cujos conflitos ultrapassam a competição universitária.

O filme poderia oferecer coreografias mais bem aproveitadas visualmente e um desenvolvimento menos previsível para determinados relacionamentos. Mas possui algo importante: uma amizade feminina que não precisa ser perfeita para merecer continuar existindo.

Recomendo especialmente para quem gosta de comédias universitárias, filmes de dança e histórias sobre amadurecimento e relações entre mulheres. Ao terminar, o que permanece comigo não é exatamente quem merece ocupar o centro do palco. É a percepção de que Maya e Anjali precisam aprender a se reconhecer fora dos papéis que assumiram durante a infância.

Uma não precisa continuar sendo a mais decidida. A outra não precisa aceitar permanentemente a posição de quem acompanha. Uma amizade verdadeira não deveria exigir que duas pessoas permaneçam iguais para continuarem juntas. O amor também precisa aprender a acompanhar as mudanças.

Magui Schneider
Magui Schneider
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